O presidente do Sindicato dos Servidores da Área Meio de Mato Grosso (Sinpaig), Antônio Wagner, denunciou em entrevista à Rádio Cultura FM na última quinta-feira (15/05) ter sido intimidado pelo coronel Eduardo Henrique Souza, ex-chefe da Casa Militar do governo Mauro Mendes (União), após a descoberta de fraudes em contratos de consignados de servidores públicos no estado. Segundo ele, o banco Capital Consig estaria envolvido em um esquema que lesou milhares de servidores, com diferenças entre valores contratados e depositados, além de irregularidades na modalidade de cartão de crédito consignado.
Em entrevista à reportagem, o coronel Henrique negou as acusações e disse que vai acionar o presidente do Sinpaig por crime de racismo e para que ele explique as acusações. Veja a nota no final da reportagem.
“A gente corre riscos, a gente sabe, inclusive tivemos visita de um coronel, dentro do sindicato, com o diretor do banco”, afirmou Wagner, que disse ter interesse em levar as informações para o Ministério Público Federal (MPF) e para a Polícia Federal (PF).
O sindicato já havia recebido uma suposta proposta de acordo em que o banco se comprometeria a ressarcir apenas 400 servidores, desde que as denúncias sobre os outros 12 mil fossem esquecidas.
“Veio a conversa, que para mim soa como uma ameaça, de que quem opera para esse banco é um coronel. Este coronel é uma pessoa influente, é uma pessoa perigosa, é uma pessoa da banda podre e aí a gente fica preocupado”, declarou Wagner.
O presidente do Sindicato afirmou que, após estas conversas e a negativa do acordo, o coronel Henrique compareceu a uma assembleia no sindicato no dia 3 de dezembro de 2024.
O sindicato identificou mais de 60 casos de servidores que contrataram empréstimos pelo Capital Consig, mas receberam valores menores do que os acordados. Em um exemplo citado, uma servidora teve prejuízo de R$ 25 mil em três contratos. O banco, que tem mais de 12,5 mil contratos com servidores estaduais, não entregava documentação e operava sem informar as transações ao Banco Central, informou o sindicato.
“Eu acho que até para como uma maneira de me proteger, eu preciso dizer isso, esteve dentro do nosso sindicato, nós temos fotos e é o coronel Henrique da reserva. Foi o primeiro chefe da Casa Militar [do governo Mendes], vai para a reserva em 2020, o banco passa a operar em 2021, não sei se ele foi lá como visitante ou se ele foi lá com uma maneira de nos intimidar, mas ele esteve, fato é que ele esteve presente e depois dessa fala dessa pessoa para a nossa advogada, aí a gente levou a sério aquilo como ameaça”, declarou Wagner.

Wagner contou que protocolou processos sob sigilo no gabinete do secretário Basílio Bezerra e que, após o protocolo contra o banco, o Capital Consig realizou pix com a diferença entre os valores emprestados e o valor efetivamente pago.
“Eles devolveram para o ex-presidente do Sinpaig, Edmundo César, R$ 39 mil, depois que protocolamos o processo sigiloso”, afirmou. “E aí a gente começa a se preocupar com isso, porque nos ofícios que a gente faz, representando o servidor, a gente diz: ‘Olha, tem que tomar providência, tem que suspender o desconto, tem que investigar o banco'”, finalizou.
O sindicalista conta que a Seplag iniciou uma investigação e encaminhou o procedimento para a Controladoria Geral do Estado (CGE) que, segundo ele, até o momento não deu andamento ao caso.
O que diz a Seplag
Por meio de nota, a Seplag informou que realiza uma revisão preventiva das consignações e que suspendeu cautelarmente as operações financeiras do banco denunciado.
A Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag-MT) informa que, conforme o Decreto n° 1.441/2025, será realizada uma revisão preventiva das consignações, que visa apurar possíveis irregularidades, com prazos de análise de até 180 dias. Em resposta a denúncias do Sinpaig, a Seplag suspendeu cautelarmente as operações financeiras do banco denunciado, bloqueando novas operações de cartão de crédito, e encaminhou o caso à CGE para investigação minuciosa.
O que diz Coronel Henrique
Questionado pela reportagem do PNB Online, o coronel da reserva afirmou que procurou a corregedoria da Polícia Militar, a Polícia Civil e a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso para que o sindicalista responda às denúncias que fez na entrevista à Cultura FM.
Segundo o militar, sua presença na Assembleia ocorreu porque ele atuava na época como advogado do Banco Capital Consig em questões administrativas junto à Seplag. O objetivo dos representantes do banco, segundo Henrique, era esclarecer aos servidores os procedimentos da instituição e corrigir eventuais falhas.
Para Henrique, a declaração de Wagner evidencia uma ação preconceituosa por ele ser negro e militar da reserva, ao sugerir que uma pessoa com estas características seria violenta.
“Para mim, eu estou sendo vítima duas vezes dele. A primeira por um preconceito por ser policial militar da reserva e achar que é segurança, é matador. E também de racismo estrutural por ser negro já tem a imagem do violento, do matador. Em nenhum momento ele pensou na possibilidade de eu ser um advogado do camarada. É evidente para mim a ofensa pelo fato de falar que sou um jagunço, é racismo estrutural, sou uma pessoa que estou na reserva e posso fazer o que eu quiser”, afirmou Henrique.
O coronel explicou ainda que seu contrato com o banco Capital Consig durou cerca de quatro meses e foi rescindido. A reportagem perguntou se o coronel gostaria de enviar comprovante de sua atuação como advogado do banco Capital Consig, mas o militar preferiu não compartilhar.






















