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ARTIGO

Tortura e aporofobia

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“O cinema brasileiro tá com tudo e não tá prosa”. Alguns meses após o Oscar de “Ainda Estou Aqui”, outro filme (“Agente Secreto”, de Kleber Mendonça, colecionador de elogios com Som ao Redor, Aquarius e Bacural, além do documentário Retratos Fantasmas) cai no gosto da crítica internacional. Segundo li, foi aplaudido por 13 minutos no Festival de Cannes. Conforme a sinopse, conta a história de um professor especializado em tecnologia tentando fugir de seu passado violento e misterioso. O ambiente é Recife, como em quase todos seus filmes, com exceção de Bacurau, povoado fictício da região do Seridó, no Rio Grande do Norte. Aguardemos sua entrada no circuito.

Apesar da história diferente, o nome do filme me remeteu a uma outra personagem, nefastamente importante para o Golpe Militar de 1964. Um agente do FBI, chamado Dan Mitrione, que por aqui esteve para ensinar métodos de torturas. Frei Betto, preso duas vezes pela ditadura militar, ficando quatro anos encarcerado na segunda, escreveu um conto sobre ele. Chama-se “O homem que ensinava a fazer sofrer”, publicado no livro “Nos idos de Março – A ditadura militar na voz de 18 autores brasileiros”, organizado pelo escritor mineiro Luiz Ruffato.

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Para a esposa, “um homem leal à sua pátria, cristão, defensor da liberdade e da democracia”. Assim também pensava o então presidente norte-americano Richard Nixon, que esteve representado no funeral dele pelo seu secretário de Estado, William Rogers. “Um monge de terno gravata, que sabia pôr sua missão acima de interesses ou ambições pessoais”, na visão das autoridades mineiras que o receberam no aeroporto da Pampulha nos anos de 1960.

No cotidiano, um professor de “tortura científica”, que ensinava “aplicar choques elétricos, afogamentos, usar insetos peçonhentos, cobras e crocodilos para arrancar confissões dos imigos da liberdade e da democracia”. Aqui no Brasil, as cobaias eram moradores de rua (qualquer semelhança com a recente execução de um indigente por um procurador do legislativo estadual mato-grossense, em Cuiabá, é mero resquício de aporofobia). Já no Uruguai, por não haver mendigos, utilizava prisioneiros políticos oficialmente dados como mortos.

Dan Mitrione também foi personagem do filme “Estado de Sítio”, de Costa Gravas, de 1972, junto com o diplomata brasileiro Aloysio Gomide. Ambos foram sequestrados, separadamente, no mesmo dia (31 de julho de 1970), em Montevidéu. O brasileiro foi libertado, enquanto o italiano naturalizado norte-americano foi encontrado morto 10 dias depois. Num dos diálogos, ele é confrontado pelos sequestradores e uma fala chama a atenção: “No Brasil, em menos de 10 anos, os Estados Unidos treinaram (sobre como torturar) mais de 100 mil policiais localmente. Outros 600 oficiais foram treinados lá (nos EUA). Quem diz é o New York Times”. Fim.

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Nota: este artigo foi escrito antes da votação dos jurados de Cannes, que elegeram Wagner Moura, como melhor ator, e Kleber Mendonça, melhor diretor do Festival.

Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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