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ARTIGO

“Viver e deixar viver” é um exercício de convivência pacífica e humildade

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Não é por acaso que o lema “Viver e Deixar Viver” ocupa lugar de destaque na filosofia de Alcoólicos Anônimos. Mais do que uma frase simples, ele traduz uma atitude prática diante da vida. Em um grupo de A. A., onde convivem pessoas de histórias e temperamentos distintos, esse princípio funciona como base para a harmonia coletiva. Ele permite que reine o bem estar comum entre os participantes de uma reunião, sob pena de ninguém ter recuperação.

“Viver” significa assumir a própria recuperação com responsabilidade. É cuidar da própria sobriedade, vigiar pensamentos e atitudes, reconhecendo limites e imperfeições pessoais. Já “Deixar Viver” aponta para o respeito ao outro, à sua maneira de pensar, sentir e trilhar o programa.

Em uma reunião, cada membro compartilha sua experiência singular. Não há donos da verdade, preletores com prioridade de fala, nem fiscais da consciência alheia. O lema lembra que ninguém está ali para impor regras pessoais, mas para somar forças na busca da sobriedade. Os que participam de uma reunião tanto aprendem com as histórias alheias, quanto ensinam com a sua própria história. Inclusive os novatos, que desde o início começam a viver um processo de interação com os demais que nunca tem fim.

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Quando se entende que o meu direito acaba onde começa o direito do outro, evitam-se conflitos desnecessários e julgamentos precipitados. Aprende-se a ouvir mais e a falar menos, com ponderação. Afinal, há muito se sabe que Deus nos deu dois ouvidos e uma boca, pelo simples fato de que devemos ouvir mais e falar menos, como método a ser seguido no decorrer da vida. Aprende-se também que divergências não precisam necessariamente gerar divisões.

A harmonia do grupo depende desse equilíbrio delicado. Se cada um quiser fazer prevalecer sua opinião, o ambiente se contamina. Mas, quando todos praticam a tolerância, o grupo se torna um espaço seguro e acolhedor. “Viver e Deixar Viver” ensina que respeito não é fraqueza; é sinal de maturidade espiritual. Quem deseja ser respeitado precisa, antes de tudo, respeitar. Quem quer compreensão precisa exercitar a compreensão.

No convívio diário, isso se traduz em atitudes simples: não interromper quem fala, não criticar a partilha do companheiro, não levar para o campo pessoal aquilo que é coletivo. Esse lema também protege contra o egoísmo, tão comum na trajetória do alcoólico ativo. Ao aprender a deixar o outro viver, o membro reduz a tendência que o doente alcoólico tem de querer controlar tudo.

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Assim, o grupo permanece unido. A unidade fortalece a recuperação individual.

E cada participante descobre que liberdade verdadeira não é fazer tudo o que se quer, mas agir com consciência e respeito. “Viver e Deixar Viver”, portanto, é um exercício diário de convivência pacífica e humildade. É a prática constante de se reconhecer limites, honrar direitos e cultivar a paz.

*Camilo Valenzuela é nome fictício em respeito à tradição do anonimato

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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