
“Estamos cansados, adoecidos e trabalhando além do que é possível”. É o que afirma a professora Sonia Lourenço, ao resumir o sentimento dos docentes do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Com um quadro efetivo de apenas seis professores, e previsão de uma nova aposentadoria ainda este ano, o grupo relata sobrecarga, acúmulo de funções e falta de reposição de vagas, o que tem comprometido o curso de Ciências Sociais, o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) e o funcionamento do Museu Rondon de Etnologia e Arqueologia (Musear).
A situação, segundo os professores, se arrasta há anos. Desde a criação do departamento, em 1992, o número de docentes só diminuiu. “Nunca houve ampliação do quadro, mesmo com a criação da graduação e, mais tarde, da pós-graduação”, afirma o professor Moisés Lopes, coordenador do PPGAS, que cumpre seu terceiro mandato consecutivo, por falta de colegas que possam assumir a função. “Hoje não há ninguém que possa coordenar o programa quando meu mandato acabar. Todos já estão sobrecarregados”.
Entre licenças médicas, afastamentos e processos judiciais que travaram concursos, o departamento opera com o mínimo. Nos últimos cinco anos, quatro professores precisaram se afastar por adoecimento. Outro foi cedido à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e uma vaga permanece judicializada há mais de um ano. “Se nada mudar, seremos cinco”, diz Sonia.

O cenário é semelhante no Museu Rondon, que está sob supervisão do departamento. Criado em 1972, o espaço é responsável por um dos acervos mais importantes da região Centro-Oeste, com mais de 20 mil peças arqueológicas e etnológicas.
“Hoje somos só eu e a professora Sônia para manter o museu funcionando”, relata o museólogo Ryanddre Sampaio, que também é professor no PPGAS. “Não há educador, arqueólogo, técnico administrativo ou segurança. Se um de nós adoece, o museu praticamente fecha”. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) autorizou, em 2017, que o museu fosse uma instituição de guarda de acervos arqueológicos, mas uma das condições era a contratação de um arqueólogo, o que nunca ocorreu.
Mesmo com estrutura mínima, os professores têm buscado recursos externos. Projetos financiados pela FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) devem garantir a requalificação do acervo e a criação de uma rede de museologia indígena. “Nós fazemos porque acreditamos na universidade, mas é exaustivo. Trabalhamos muito além da carga prevista, inclusive nos fins de semana”, diz Sonia.
Importância estratégica da antropologia em Mato Grosso
Os docentes ressaltam que a precarização ocorre justamente em um estado central para a pesquisa antropológica no país. Mato Grosso abriga 45 povos indígenas, comunidades quilombolas e populações tradicionais diversas. “A antropologia brasileira nasceu e se consolidou com pesquisas de campo feitas aqui”, lembra Lopes. “Mas o estado ainda é visto apenas como território de coleta de dados, não como produtor de conhecimento”.
Sonia cita que a disciplina é essencial para compreender dinâmicas culturais e territoriais em uma região marcada por conflitos fundiários, impactos ambientais e diversidade étnica. “É a antropologia que subsidia políticas públicas para povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais”, diz. “Como uma universidade na Amazônia pode abrir mão dessa área?”.
Os professores destacam ainda o papel do departamento em ações de inclusão. O Programa de Inclusão Indígena da UFMT, que garantiu o ingresso de estudantes por meio de processos seletivos específicos, foi idealizado por uma docente da Antropologia, Carmen Lúcia da Silva, e funcionou até sua aposentadoria. “Desde então, o programa foi descontinuado. E a UFMT, que está no coração dos povos indígenas do país, sequer tem uma casa do estudante indígena”, afirma Sônia.
Para o grupo, a crise é também reflexo de desigualdades internas na universidade. “Há faculdades com mais de 30 professores, enquanto nós temos seis”, aponta Sônia. “As áreas de Medicina e Direito continuam sendo priorizadas. As ciências humanas ficam em último lugar”.
O que dizem a Reitoria e o MEC

Questionada sobre o tema, a reitora da UFMT, Marluce Souza e Silva, reconheceu que a universidade cresceu sem ampliação correspondente de vagas, mas nega que tenha havido perda de cargos no departamento. Em resposta à reportagem, informou que o Ministério da Educação deverá liberar novas vagas ainda em outubro, “destinadas a todas as universidades federais”, e que há planos de contratação de técnicos para o Museu Rondon, “dependentes da liberação dos códigos de vaga pelo MEC”.
Sobre a alegada desigualdade entre áreas, a reitora afirmou que a gestão “está realizando um estudo sobre encargos didáticos e corpo docente” e que não é possível “afirmar distribuição desigual antes da conclusão dos levantamentos”.
Procurado, o Ministério da Educação informou que, desde 2023, trabalha junto ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos “para garantir a ampliação do banco de professor equivalente (BEQ) das universidades federais”, o que permite às instituições, dentro de sua autonomia, realizar concursos para docentes efetivos e substitutos.
Segundo o órgão, a UFMT possui códigos de vaga disponíveis para provimento, mas “a realização de concursos é responsabilidade da universidade, nos termos da legislação vigente”.
“O menor departamento de antropologia da América Latina”
Atualmente, o departamento demanda ao menos cinco novas vagas para equilibrar as atividades de ensino, pesquisa, extensão e administração. “Somos o menor departamento de antropologia da UFMT e provavelmente da América Latina”, diz Sônia. “É uma situação insustentável. Queremos um museu vivo, e uma universidade que reconheça o valor da ciência que fazemos aqui”.
























