Estou chegando de Cuba, e peço licença pra contar um pouco dessa viagem, pois foi uma experiência de forte impacto. Admiração e compaixão se misturam, e me sinto quase na obrigação de compartilhar.
Lá tem muita coisa – e muita coisa bonita – pra ver. Monumentos, museus, praias, construções antigas (fortificações, palacetes) e modernas. Hotéis chiques, belas casas com jardins floridos.
Mas isso se encontra em outros países.
O que impacta é, por um lado, o projeto de governo: garantir saúde, educação e moradia para todos.
Por outro, a asfixia que estão sofrendo. E que, se continuar, vai exterminar o povo cubano.
Lá não tem ninguém sem teto. Mas nem todas as moradias são de qualidade.
O programa de saúde inclui acompanhamento preventivo, tratamento de doenças, centros especializados. Os bairros são bem servidos com policlínicas e hospitais, e sobra médicos. Mas os prédios precisam de reforma, e os equipamentos são antigos.
Eles têm 4 fábricas de remédios. Só que estão paradas, pois falta matéria prima.
O estudo é obrigatório, as crianças estão uniformizadas e têm aparência saudável. Mas os prédios escolares tb precisam de reforma, e falta material – inclusive papel.
Todos (os mais pobres e os mais abonados) recebem cesta básica, fichas para o pão diário e alguns itens perecíveis. Mas os produtos disponíveis são escassos, pois a produção local não é suficiente, e eles não conseguem importar. Nem produtos nem equipamentos agrícolas.
Agora estão sem energia, com o bloqueio do petróleo. A eletricidade chega nas casas 2 a 3 hs por dia – e de madrugada.
Os trabalhadores gastam horas pra ir e voltar do trabalho, a pé, de bicicleta, em triciclos movidos a músculo. Várias atividades estão suspensas. Inclusive as universidades.
A renda do país vem do turismo e da exportação de médicos (médicos é a grande commodity da ilha). O turismo desapareceu, os países (sobretudo os pequenos países da região) suspenderam os convênios de prestação de serviços de medicina por pressão dos EUA. Ou seja – cada vez mais pobres.
A ilha sofre um bloqueio político e econômico de 64 anos. A intensificação agora, com bloqueio energético, chegou num ponto insustentável. Os que conseguem sair estão emigrando, sobretudo os jovens e os mais qualificados.
Os outros vivem a incerteza de cada dia. Embaixadas estão fechando, não há a quem recorrer.
No entanto – coisa incrível! – permanecem orgulhosos de sua história e se dizem acostumados a resistir. Nos recebem com alegria e com afeto. Gostam de conversar e contar suas histórias.
A gente olha pra eles e se pergunta: vão sobreviver?!
Cuba é hoje uma Gaza sem bombas.
E qual é mesmo a razão desse massacre????
O que mesmo fizeram de errado?!
Vera França é professora doutora da UFMG























