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ARTIGO

Como a ciência explica a importância da arte para a sociedade?

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Para que serve a Arte? Por que muitos artistas dedicaram suas vidas, por vezes às custas de saúde e conforto material, para produzir obras simbólicas para a humanidade? E por que elas nos confortam e emocionam, ao ponto de se tornarem quase imprescindíveis à nossa vida?

Essas perguntas têm sido formuladas de diferentes maneiras ao longo da história, e as respostas variam dependendo do contexto, época, cultura e localidade. Mas, até hoje, não temos uma resposta definitiva. Apenas diferentes perspectivas e interpretações circunstanciais, segundo cada área do conhecimento que se debruça sobre o assunto. As formas mais comuns de responder ficam em torno de uma necessidade social, gerada para manter laços de tradições culturais como disseminação e sustentação de sociedades complexas.

Mas também é um argumento falho: mesmo culturas e sociedades menos complexas e menores em tamanho desenvolveram arte, e acrescenta-se que a apreciação estética é sempre individual. Por outro lado, animais que possuem comportamento social desenvolvido, não produzem objetos artísticos.

A teoria moderna da arte também se esquiva de uma resposta definitiva, já que considera que a arte é produto da livre expressão de cada artista. Mas nisso reside o grande problema: todos temos capacidade de se expressar, mas o que faz de alguém artista? Por que alguns artistas são mais relevantes que outros? A confusão é tamanha que há até algumas correntes modernas de pensamento sustentando que Arte não serve para nada – o que é uma contradição lógica imensa.

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E, no meio de diversas teorias, vindas das mais diferentes áreas, como a história, a sociologia, a neurologia e a antropologia, a questão permanece: por quê é tão difícil dar uma resposta categórica? Como é possível nossa sociedade ter alcançado uma tecnologia capaz de nos levar ao espaço, construir computadores quânticos e descrever com tamanha precisão o funcionamento do mundo físico, e, ao mesmo tempo, não conseguir definir arte e para que ela serve? Seria esse o limite da ciência? Este é o atual estado das coisas.

Subsiste, porém, um último caminho para investigar o tema de forma científica que ainda não foi tentado: o de que estamos usando uma metodologia incompleta.

O método científico segue alguns passos bastante definidos, que de forma abreviada podem ser resumidos em: observação, formulação de questões e hipóteses, coleta de dados e eleição de um modelo de experimentação, análise dos resultados e conclusões – que devem seguir para a formulação de uma lei geral que possa ser reproduzida. E aí surge sua incompatibilidade com uma análise da arte e do sentimento estético, que no mesmo nível observacional, não apresentam testabilidade para formulações de leis gerais na esfera de reprodução física.

A isso ainda acrescentamos que as conclusões sobre observações mensuráveis são também conjecturas segundo um limite de entendimento conforme a razão utilizada – daí a possibilidade de refutar ou reformular teorias. Isso pode ser entendido não como um limite da ciência, mas apenas do método, que nos chama atenção para a necessidade de entender um novo paradigma nas ciências que possam dar conta do fenômeno artístico. Uma possível alternativa é levar em conta os fatores subjetivos, tratando os aspectos tanto físicos quanto psíquicos do fenômeno, e que permitiriam entender as manifestações puramente sensíveis, incluindo a arte e a espiritualidade.

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As exaustivas tentativas, já no século XXI, com o avanço das neurociências, de explicar a arte cientificamente pelo viés do sistema neural, bem como pela consequente necessidade de interação social, nunca conseguiram dar respostas satisfatórias, deixando sempre lacunas e questões mais empíricas como não resolvidas. Frente a esse panorama, é muito provável que a saída esteja numa interação mais ampla, mente e matéria, e que efetivamente confirme a existência de um sistema psíquico, que interage de forma autônoma e paralela, embora interdependente, com o sistema físico. Talvez aí a ciência consiga elucidar o mistério da Arte.

Filipe Salles é professor da Unicamp, pesquisador e autor do livro “Harmonia Mundi: uma visão integradora da Arte e da Ciência”

 

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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