Na pré-história digital brasileira, anos após os escombros do 11 de setembro, o Orkut abrigava uma comunidade cujo nome era um tratado patriota, ela se chamava “Se os EUA invadirem, eu luto”. O título carregava a genialidade ambígua do nosso idioma. “Eu luto” era o verbo da trincheira, a promessa de pegar em armas contra o imperialismo, mas era também o substantivo da dor, o luto antecipado pela perda da soberania.
O combustível dessa comunidade era uma lenda urbana persistente e revoltante, a de que os livros didáticos de geografia nas escolas estadunidenses já exibiam a Amazônia pintada como território internacional. Era mentira, claro. Mas o imaginário coletivo não precisa de verdades cartográficas para operar, ele precisa de afetos. E o afeto, ali, era o de um nacionalismo até as últimas consequências. A ideia de perder um palmo de terra para os estadunidenses unia o país em uma indignação quase instintiva.
Essa paranoia territorial não nasceu do vácuo das redes sociais. Ela é herdeira direta de uma política de Estado. Durante a ditadura militar, sob o governo de Ernesto Geisel, a abertura da BR-163 e o Plano de Integração Nacional foram embalados por um slogan que não deixava margem para dúvidas. Era o “Integrar para não entregar”. A Amazônia era vista como um vazio demográfico perigoso, um convite à cobiça estrangeira.
Foi sob essa justificativa de defesa da pátria que o Estado brasileiro orquestrou a migração em massa para o norte de Mato Grosso. Colonos do Sul do país, paranaenses, catarinenses e gaúchos, cruzaram o mapa financiados por crédito e promessas fartas, estradas abertas na selva e terras subsidiadas. Eles chegaram com a missão quase messiânica de ocupar o “Nortão” para que o estrangeiro não o tomasse. O resultado dessa engenharia estatal são os municípios que hoje formam a espinha dorsal do agronegócio nacional: Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde. Cidades pujantes, erguidas sobre o suor de quem acreditava estar protegendo o Brasil. O mesmo patriota que queima trator na BR hoje em dia.
O paradoxo, no entanto, é essa tragicomédia de 2026. Esses mesmos municípios, que nasceram do medo da invasão estrangeira, tornaram-se redutos do bolsonarismo entreguista, um movimento que, em sua encarnação atual, parece disposto a terceirizar a soberania nacional em troca de alinhamento ideológico. Em Mato Grosso, Jair Bolsonaro obteve mais de 65% dos votos no segundo turno de 2022. Hoje, a elite política e econômica dessa região assiste, com uma complacência assustadora, a uma escalada de ameaças diretas de Washington.
A cronologia recente é um estudo de caso sobre a submissão voluntária. No final de maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro posaram para fotos sorridentes com Donald Trump. Dias depois, o Departamento de Estado americano, sob a batuta de Marco Rubio, anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como “organizações terroristas”. A justificativa oficial é o combate ao crime, a consequência prática é a abertura de um precedente perigoso para a interferência direta dos Estados Unidos em território brasileiro, sob o pretexto da segurança hemisférica.
Como se o flerte com a intervenção não bastasse, a fatura chegou rápido. O governo Trump, usando as mesmas facções como desculpa e criticando até mesmo o sistema PIX, ameaçou impor tarifas de 25% sobre os produtos brasileiros. É aqui que a memória cultural entra em curto-circuito absoluto.
O agronegócio mato-grossense fechou 2025 ajudando o Brasil a bater o recorde de US$ 169,2 bilhões em exportações. É um setor que depende de boas relações diplomáticas, de mercados abertos e de previsibilidade. No entanto, o descendente daquele colono que foi para o norte de Mato Grosso para “não entregar” a Amazônia aos americanos, hoje aplaude a família Bolsonaro enquanto ela festeja com quem propõe taxar a soja e o milho que ele produz.
O patriotismo, que antes era territorial e econômico, tornou-se puramente estético. O “patriota” moderno não se importa em entregar as riquezas do país ou abrir mão da soberania jurídica, desde que quem o faça use o mesmo boné vermelho e compartilhe dos mesmos pânicos morais. O discurso anti-Estado, tão forte entre alguns pioneiros do agronegócio, que convenientemente esquecem que chegaram lá financiados pelo próprio Estado, agora se converte em um anti-nacionalismo prático.
A ironia é amarga. A Amazônia dos livros didáticos imaginários do Orkut nunca foi tão real, mas o mapa não está sendo redesenhado por um professor em Washington. Ele está sendo entregue, com sorrisos e selfies, por quem jura amar o Brasil acima de tudo. No fim das contas, a comunidade do Orkut estava certa em sua ambiguidade, porque se os EUA invadirem, seja pela economia, seja pela tutela da nossa segurança, o “patriota” de 2026 não vai lutar. Ele vai apenas vestir o luto da própria soberania, enquanto comemora a foto no Instagram.
Andhressa Barboza é jornalista, advogada e socióloga.

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