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ARTIGO

Quando a educação vira apenas negócio, alguém perde

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Nos últimos anos, a educação passou a ocupar um lugar curioso no mercado. Fala-se sobre crescimento, expansão, competitividade, experiência do cliente, retenção e posicionamento de marca. Todos esses conceitos fazem parte da gestão de uma escola e não há problema algum nisso. O problema começa quando eles passam a ocupar um espaço maior do que a própria razão de existir de uma instituição de ensino. Escola não vende apenas um serviço. Forma pessoas.

Pode parecer uma diferença sutil, mas ela muda completamente a lógica de quem decide empreender na educação. Em poucos segmentos, uma decisão administrativa tem impacto tão profundo na vida de outras pessoas. Escolher um currículo, uma metodologia ou um material didático significa, na prática, decidir quais competências, valores e formas de pensar serão desenvolvidos em centenas de crianças e adolescentes.

É justamente por isso que inovar na educação costuma ser muito mais difícil do que simplesmente acompanhar tendências. A inteligência artificial é um bom exemplo. Por aqui, ela chegou às salas de aula antes mesmo que muitas escolas decidissem como lidar com ela. Ignorá-la seria um erro. Abraçá-la sem critério, também.

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A pesquisa apresentada na Bett Brasil 2026, maior evento de educação da América Latina, mostra que 86% dos professores perceberam maior participação dos estudantes quando atividades com inteligência artificial passaram a integrar a rotina escolar. Outros 91% afirmam que a tecnologia otimiza o tempo pedagógico, enquanto 72% dos gestores reconhecem que esse tema já influencia a escolha das famílias por uma escola.

Os números são relevantes, mas eles não respondem à pergunta mais importante: para quê usar inteligência artificial na educação? Foi essa pergunta que norteou uma das decisões mais desafiadoras que tomamos recentemente: desenvolver um material didático próprio. Não porque o mercado exigia uma novidade, mas porque entendemos que não fazia sentido continuar formando estudantes para um mundo que já não existe.

Criar um material autoral significa abrir mão do conforto das soluções prontas. Significa assumir a responsabilidade por cada habilidade que se deseja desenvolver.

No nosso caso, isso também significou incorporar a inteligência artificial de maneira intencional. Em vez de tratar a IA como um mecanismo para entregar respostas, optamos por ensinar os estudantes a formular perguntas melhores.

Os prompts presentes no material não substituem o raciocínio; eles provocam investigação, ampliam repertório e conectam tecnologia ao conhecimento produzido em sala de aula. Essa talvez seja a maior diferença entre seguir uma tendência e cumprir uma missão.

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Empreender na educação exige responsabilidade financeira, mas exige, sobretudo, coragem pedagógica. Coragem para fazer escolhas que nem sempre são as mais simples, as mais rápidas ou as mais rentáveis. Coragem para investir em projetos cujos resultados não aparecem no próximo trimestre, mas na formação de cidadãos capazes de pensar criticamente, tomar decisões e compreender o mundo em que vivem.

No fim das contas, escolas também precisam de resultados. Mas há um indicador que continua sendo insubstituível: o impacto que elas deixam na vida de seus alunos. Quando essa missão permanece no centro das decisões, o negócio cresce. Quando ela sai do foco, sobra apenas um empreendimento como qualquer outro.

Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Colégio Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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