
A poluição do ar causada por queimadas e incêndios florestais na Amazônia Legal e no Cerrado setentrional provocou aumento significativo de internações por doenças cardiorrespiratórias no Brasil entre 2010 e 2021, com impacto direto nas contas do Sistema Único de Saúde (SUS). É o que mostra um estudo da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), publicado na revista científica Saúde em Debate.
De acordo com a pesquisa, a exposição ao material particulado fino (PM2,5), resultante principalmente da queima de biomassa, esteve associada a milhares de hospitalizações ao longo do período analisado. O custo médio anual dessas internações foi estimado em cerca de R$ 2,5 bilhões para o SUS.
Os dados indicam que, em anos com maior incidência de queimadas, como 2010 e 2019, houve aumento expressivo tanto no número de internações quanto nas despesas públicas em saúde. Em 2010, por exemplo, os custos atribuíveis à poluição chegaram a aproximadamente R$ 37,5 milhões, com destaque para os estados de Mato Grosso e Pará.
A pesquisa também aponta uma relação direta entre o avanço do desmatamento e o agravamento dos impactos à saúde. Em 2019, quando houve crescimento de 34% na área desmatada e aumento de 39% nos focos de incêndio, as hospitalizações atribuídas à poluição cresceram 48% em relação ao ano anterior.
Um dos episódios destacados pelos pesquisadores é o chamado “Dia do Fogo”, em agosto de 2019, quando incêndios coordenados na região de Novo Progresso (PA) elevaram drasticamente a poluição do ar, com efeitos que chegaram a estados distantes, como São Paulo.
Além do impacto direto nas internações, o estudo ressalta que os custos reais podem ser ainda maiores, já que a análise considera apenas despesas hospitalares do SUS e não inclui perdas de produtividade ou outros efeitos indiretos sobre a saúde da população.
Outro ponto levantado é a expansão geográfica dos efeitos da poluição ao longo dos anos, atingindo progressivamente estados como Amazonas e Roraima, em linha com o aumento da frequência de incêndios nessas regiões.
Os pesquisadores destacam ainda que a pandemia de covid-19 pode ter influenciado os dados a partir de 2020, tanto pela sobrecarga do sistema de saúde quanto pela dificuldade de diagnóstico de doenças respiratórias.
Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas integradas entre saúde e meio ambiente, com foco na redução do desmatamento e no controle das queimadas. O estudo também aponta que a capacidade de fiscalização ambiental, especialmente por órgãos como o Ibama, tem impacto direto na contenção desses eventos.
Publicado na edição especial de 50 anos da revista Saúde em Debate, o trabalho integra o debate sobre os efeitos da degradação ambiental na saúde pública e busca subsidiar a formulação de políticas voltadas à sustentabilidade e à proteção da população.
























