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ARTIGO

A revolucionária Cindy Lauper

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Cynthia Ann Stephanie Lauper, ou somente Cindy Lauper, nasceu em Nova Iorque, no dia 22 de junho do ano de 1.953. A cantora aprendeu a tocar violão aos 12 anos, passando a compor canções. Assim, passou a se expressar e a transformar o mundo por meio da música.

Há mulheres que fazem história pelos cargos que ocupam, outras pelos livros que escrevem, e algumas pelas ruas que tomam em protesto.  A cantora norte-americana Cyndi Lauper pertence a essa rara categoria de artistas cuja obra transcende o entretenimento para converter-se em gesto político, afirmação de liberdade e pedagogia da emancipação feminina.

Na década de 1980, quando a indústria fonográfica ainda reproduzia de forma quase absoluta os padrões masculinos de poder e representação, ela surgiu como uma figura dissonante. Seus cabelos multicoloridos, suas roupas extravagantes e sua voz aguda e irreverente pareciam anunciar uma recusa consciente aos modelos tradicionais de feminilidade. Em um tempo em que a mulher deveria ser discreta, elegante e, sobretudo, agradável ao olhar masculino, Cindy Lauper escolheu o caminho da excentricidade, da autonomia estética e da afirmação de si.

A cultura patriarcal sempre se empenhou em estabelecer um rígido repertório de comportamentos considerados adequados às mulheres. Desde muito cedo, meninas aprendem que devem ser dóceis, contidas e obedientes. A rebeldia, a irreverência e a ousadia costumam ser toleradas nos homens como sinais de personalidade forte, mas frequentemente são interpretadas como defeitos quando manifestadas por mulheres. Nesse contexto, a imagem pública de Cyndi Lauper assumiu uma dimensão profundamente simbólica ao mostrar que era possível existir fora dos padrões impostos e, ainda assim, alcançar reconhecimento, respeito e admiração.

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A lendária canção Girls Just Want to Have Fun, lançada em 1983, converteu-se rapidamente em um dos maiores hinos femininos da cultura popular contemporânea. À primeira vista, a música parece apenas celebrar a diversão e a despreocupação juvenil. Contudo, uma leitura mais apurada permite compreender sua potência política. Durante séculos, a sociedade reservou aos homens o direito ao lazer, à aventura e à liberdade de circulação, enquanto às mulheres couberam as tarefas domésticas, os cuidados familiares e a vigilância constante sobre seus corpos e comportamentos.

Quando Lauper canta que “as garotas apenas querem se divertir”, ela reivindica o direito de existir para além das obrigações impostas pelo patriarcado. A diversão, nesse sentido, não significa frivolidade, mas autonomia. Representa a possibilidade de ocupar espaços públicos sem medo de escolher os próprios desejos, de construir trajetórias independentes e de experimentar a vida sem a permanente tutela masculina.

Muitas vezes, mulheres que lutam por igualdade são retratadas como figuras ressentidas ou inimigas da beleza e do prazer. Cyndi Lauper desmonta esse estereótipo ao demonstrar que a emancipação feminina pode ser colorida, festiva e musical. Há resistência também na dança, no riso, na arte e na recusa em aceitar papéis previamente determinados.

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Ao longo de décadas, ela se tornou uma importante defensora dos direitos das mulheres, da população LGBTQIAPN+ e das pessoas em situação de vulnerabilidade. Seu engajamento político revela que a arte pode dialogar com as demandas concretas da sociedade, sem perder a sensibilidade estética.

A cantora reflete a lição de Simone de Beauvoir, apontando para o caráter socialmente construído das identidades femininas. Cyndi Lauper parece ter compreendido intuitivamente essa lição, rejeitando os modelos convencionais de comportamento, produzindo irreverência sem culpa, independência sem pedir autorização, e criatividade sem se submeter às expectativas alheias.

A sua obra dialoga com as novas gerações. As mulheres, de fato, querem se divertir. Querem trabalhar, estudar, amar, criar, envelhecer, ocupar as cidades, escrever poemas, exercer profissões, cantar desafinadas em festas de família, viajar sozinhas e voltar para casa em segurança. Querem viver plenamente, sem medo e sem permissão.

É dela: “Gosto de ver mulheres defendendo as outras. Somos mais fortes juntas, do que separadas.”

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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