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ARTIGO

O Desvio Filosófico como Resposta à Crise Global

Com base em “Um Sábio Não Tem Ideia”, de François Jullien, a teoria política contemporânea encontra no modelo clássico chinês ferramentas para superar a polarização ocidental e a rigidez ideológica.

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O filósofo e sinólogo francês François Jullien propõe uma estratégia intelectual inovadora ao utilizar o pensamento clássico chinês, especialmente o taoismo e o confucionismo, como um espelho crítico para a filosofia ocidental. Esse método, batizado pelo autor como “estratégia do desvio e do retorno”, consiste em afastar-se temporariamente da matriz cultural europeia para enxergar, de fora, seus preconceitos inconscientes. Ao cruzar essas duas visões de mundo, Jullien formula um diagnóstico preciso sobre a crise das democracias atuais, revelando como a fixação dogmática em ideias abstratas tem paralisado a capacidade de governar e gerado uma falsa política que ignora a dinâmica concreta da realidade.

No Ocidente, a atividade política herdou da Grécia Antiga e do platonismo a busca incessante pela ideia imutável e pela verdade absoluta. Sob essa ótica, a governança estrutura-se por meio de modelos de projeção e ruptura, nos quais se idealiza uma utopia teórica — como a Justiça ou a Liberdade — para depois tentar moldar a sociedade a esse molde predefinido. Na contemporaneidade, esse processo degenerou em uma severa crise das ideologias e em uma polarização destrutiva. Os partidos políticos funcionam como produtores de teses fixas que dividem o debate público em dicotomias simplistas, nas quais a complexidade do mundo é reduzida ao embate retórico entre esquerda e direita. Essa rigidez burocrática impede os governantes de escutar as demandas concretas e de se adaptarem às transformações históricas, resultando em fraturas sociais e na incapacidade crônica de dar resposta aos anseios da população.

Essa falsa política ocidental manifesta-se de forma acentuada na incapacidade de lidar com a complexidade da geopolítica global contemporânea. Quando as potências ocidentais desenham sua política externa com base na imposição de valores universais abstratos, ignoram a propensão natural das situações locais e as dinâmicas históricas de outras civilizações. O voluntarismo ideológico parte do pressuposto de que as instituições democráticas podem ser exportadas e replicadas mecanicamente em qualquer solo cultural, o que frequentemente resulta em intervenções desastrosas e em instabilidade geopolítica regional. A insistência em uma verdade política única oblitera a leitura das forças em jogo e transforma a diplomacia em um braço de ferro moralista, que perde eficácia prática e capacidade de construir consensos duradouros.

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Em contrapartida, a sabedoria clássica chinesa opera inteiramente no plano da imanência, onde não existem verdades transcendentes vindas de fora do mundo físico. O sábio oriental, conforme detalhado na obra de Jullien, recusa-se a prender o espírito a uma teoria fixa e cultiva uma disponibilidade absoluta diante do contexto. Em vez de forçar a realidade por meio de planos voluntaristas, a liderança atua por eficácia silenciosa, detectando o potencial invisível de cada situação para deixá-la desenvolver-se organicamente. Contudo, a aplicação radical desse modelo no mundo moderno também esbarra em limites perigosos. Uma política focada estritamente na manutenção do fluxo e na harmonia social pode anular o espaço para o debate crítico, transformando a governança em uma tecnocracia sem rosto e em um autoritarismo de gestão que sacrifica a autonomia humana e os direitos individuais em nome da estabilidade estatal.

Essa tecnocracia da harmonia revela seu lado sombrio quando confrontada com a necessidade de emancipação dos cidadãos. Na ausência de ideais reguladores transcendentes, como os Direitos Humanos universais de matriz ocidental, o pragmatismo político pode degenerar em uma engrenagem utilitarista de puro controle social e vigilância digital. Quando a ordem coletiva é o valor supremo, qualquer forma de dissidência ou de singularidade individual passa a ser vista como uma disfunção biopolítica a ser corrigida. Jullien lembra que, se por um lado o Ocidente padece da ilusão das ideias fixas, o Oriente tradicional corre o risco de cair no vazio ético do desengajamento, no qual o governante se limita a gerir o status quo e a acomodar os equilíbrios de poder existentes, sem espaço para a indignação moral ou para a justiça social substantiva.

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A superação dessa falsa política contemporânea exige uma síntese urgente entre a flexibilidade oriental e a determinação ética ocidental. Um exemplo prático da necessidade dessa fusão encontra-se na gestão da emergência climática, na qual o modelo ocidental falha ao impor metas abstratas para as próximas décadas sem alterar a propensão interna do sistema econômico. Uma abordagem inspirada em Jullien focaria a ação governamental na transformação das condições invisíveis do presente, potencializando as forças ecológicas já disponíveis no mercado e na sociedade civil. O desafio do século XXI reside, portanto, em resgatar a política de sua ilusão ideológica: governar sem as amarras das ideias fixas, mas com a responsabilidade de quem compreende que a realidade exige cuidado, escuta ativa e mediação contínua.

José Antônio Borges Pereira é Procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso e titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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