Um dos grandes desafios socioambientais, principalmente nas últimas décadas, tem sido a produção e uso de embalagens plásticas, incluindo sacolas, sacos, garrafas pet e outros produtos e embalagens que aumentam a geração de lixo e provocam um grande impacto tanto nos solos quanto em todos os cursos d’água como córregos, rios, lagos, lagoas, mares e oceanos, enfim, em todos os biomas e ecossistemas.
Para despertar a consciência em relação a este problema foi criado o DIA INTERNACIONAL SEM SACOLAS PLÁSTICAS por iniciativa da “Global Bag Free World”, com o objetivo de conscientizar a população sobre os impactos socioambientais negativos do uso de embalagens plásticas em geral e das sacolas plásticas em particular e promover alternativas sustentáveis como o uso de sacolas produzidas com material reciclado ou de outros materiais, como pano e papel etc. A data é celebrada anualmente em 3 de julho em diversos países, inclusive no Brasil.
Para orientar e massificar a campanha pelo fim das embalagens plásticas em geral e das sacolas e sacos plásticos em particular, a cada ano é escolhido um tema, em torno do qual essas reflexões e ações são realizadas. Em 2026 o tema é ” Libertação dos plásticos de uso único: Rumo a um futuro sustentável”.
No entanto, apenas incentivar as pessoas a deixarem de usar sacolas/sacos plásticos por um dia, com certeza não vai resolver este problema sério e grave, se, ao longo dos demais 364 dias continuarmos a usar todos os tipos de plásticos que estão degradando, destruindo todos os biomas e ecossistemas ao redor do mundo.
Em 2026, por exemplo, em todos os países, enfim, no mundo inteiro está mais do caracterizado e comprovado por dados e estatísticas confiáveis e atualizadas que estamos vivendo uma grave crise dos plásticos e que este assunto precisa ser tratado como uma emergência global.
O desafio principal é a falta de consciência e resistência do mundo empresarial, que lucra bilhões de dólares por ano, tendo em vista que a produção anual de plásticos em 2026 deverá ultrapassar 516 milhões de toneladas, ou seja 500 bilhões de kg de plásticos, em torno de 60 kg per capita (por pessoa) em média, em alguns países “desenvolvidos” muito mais do que este volume.
Em apenas um quarto de século, entre 2000 e 2026, a produção de plásticos no mundo passou de 200 milhões de toneladas para 516 milhões de toneladas, um crescimento exponencial em um período considerado curtíssimo da história humana.
Outro aspecto que demonstra a gravidade é o aumento espantoso dos plásticos em todos os tipos de atividade humana, além do fato de que no máximo 10% do lixo plástico gerado no mundo são reciclados corretamente e 90% deste imenso volume vai parar nos bueiros, terrenos desocupados, córregos, rios, lagos, lagoas, mares e oceanos, poluindo, degradando e destruindo irreparavelmente o meio ambiente.
Até bem pouco tempo, mas em alguns países pobres continuam “importando” lixo, principalmente lixo plástico produzido pelos países ricos/desenvolvidos, mas isto apenas transfere o problema de um país para outro, tendo em vista que não existe alternativa de enviar o lixo produzido no planeta terra para outro planeta.
O volume do lixo plástico existente, digamos “estocado” , no planeta pelo acúmulo de 90% deste lixo que não é reciclado, ano após ano, representava em 2025 mais de 8 mil megaton e a tendência tem sido piorar no futuro próximo, tendo como destino os oceanos, razão pela qual o Secretário Geral da ONU, António Guterres, há poucos anos, em um pronunciamento oficial, alertava de que se nada de concreto for feito para acabar com o uso dos plásticos ( subproduto do petróleo, combustível fóssil responsável por grande parte das emissões de gases de efeito estufa) “Se nada for feito, em 2050 em diversas partes do mundo, os oceanos terão mais lixo plástico do que peixes”.
Inúmeros estudos e pesquisas, em diversos países, inclusive no Brasil, tem demonstrado o impacto negativo do lixo plástico na vida animal lacustre, ribeirinha e marítima e na vida terrestre também.
Em Mato Grosso, por exemplo, com frequência inúmeras reportagens tem demonstrado a presença de muito lixo, inclusive lixo plástico em todos os rios, principalmente os que alimentam o Pantanal, transformando esta maravilha, reconhecida como “patrimônio natural da humanidade”, em um grande depósito de lixo, afetando todas as formas de vida ali existentes.
Uma outra consequência do lixo plástico, também demonstrado por diversos estudos em inúmeros países, novamente, incluindo o Brasil, é em relação a saúde humana. Por exemplo, a presença de microplástico no corpo das pessoas, na corrente sanguínea e até no cérebro é um fato concreto e real.
Microplásticos são partículas minúsculas de plástico, com menos de 5 mm, invisíveis a olho nu e são derivados das embalagens, inclusive presentes em inúmeros supermercados para embalar legumes, carnes e outros alimentos, garrafas pet e também do lixo plástico ou de roupas sintéticas. Eles podem entrar no corpo pela respiração ou alimentação. A ciência indica que eles se espalham pelo sangue e se acumulam nos órgãos, podendo afetar o corpo de várias formas.
Os microplásticos afetam a saúde humana em geral, inclusive nos riscos de agravamento de doenças crônicas e até mesmo afetando diretamente a fertilidade humana.
Os microplásticos agravam problemas cardiovasculares, aumentam o risco de infarto, derrame e outras doenças cardíacas; provocam danos e inflamações nas células, envelhecimento celular; desregulação hormonal; doenças neurológicas, problemas no desenvolvimento fetal, contribuindo para diversas doenças degenerativas e, também, doenças ósseas e renais.
Conforme dados de um relatório de 08 de Agosto de 2025 do “Environment Texas Research & Policy Center”, mencionando matéria publicada em “The Lancet”, o custo financeiro anual das doenças geradas pelo lixo plástico no mundo a cada ano ultrapassa US$ 1,5 trilhão de dólares ou aproximadamente R$ 8 trilhões de reais, importância maior do que o PIB de 95% dos países do globo terrestre. Esse valor colossal representa o impacto na saúde global, cobrindo desde despesas com hospitais até mortes precoces e perda de qualidade de vida.
Tendo em vista a gravidade da situação do lixo plástico no mundo e as perspectivas sombrias a longo prazo, na Assembleia Geral da ONU sobre questões ambientais em março de 2022, representantes de 175 países, conseguiram aprovar uma Resolução, com o objetivo de criar um Comitê Intergovernamental de Negociação, visando a aprovação de um acordo global/internacional contra a poluição plástica, ou seja, pondo fim `a produção e uso de plástico, uma luta hercúlea, da mesma forma que a luta que vem sendo travada nas últimas COPs, para por um fim `a produção e uso de combustíveis fósseis, incluindo petróleo e seus derivados.
Apesar da gravidade dos problemas oriundos do uso e do lixo plástico em escala internacional e do esforço de diversos países, atualmente, em 2026 as negociações visando a aprovação, em Assembleia Geral da ONU de um Tratado Global sobre os plásticos estão praticamente paralisadas, por pressão dos países produtores e exportadores de petróleo e também dos países onde estão instaladas as grandes indústrias de produção de todos os tipos de plásticos, basicamente os integrantes do G7 e do G20, onde o Brasil também participa.
Em 2026, as negociações do Tratado Global sobre Plásticos enfrentam um grande impasse. A divisão ocorre entre os países que defendem o corte na produção de plástico virgem e aqueles focados apenas no controle do lixo e na reciclagem
Esses países tentam desvirtuar as discussões colocando como alternativa concreta, em lugar do fim da produção e uso dos plásticos (que geram bilhões de toneladas de lixo plástico e seus impactos no planeta), repito, colocando a reciclagem como a “grande saída”, o que não irá resolver o problema, tendo em vista que tem países, como o Brasil em que a reciclagem de plásticos não atinge sequer 4% do lixo plástico gerado. O Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do planeta, gera anualmente mais de 11 milhões de toneladas.
Em relação `as discussões sobre o Tratado Global sobre os Plásticos, a posição do Brasil tem sido dúbia, mas, conforme matéria publicada no site A Pública, em 13 de Agosto de 2025 “A diplomacia brasileira fez uma guinada conservadora nas negociações que buscam criar um tratado de combate à poluição por plásticos. O país deixou de se posicionar sobre as questões críticas do acordo, ao mesmo tempo em que adotou argumentos similares aos grandes produtores de petróleo”. Esta dubiedade do Brasil também tem ocorrido nas COPs quando o discussão gira em torno do fim do uso dos combustíveis fósseis.
Isto significa que anualmente 10,6 milhões de toneladas de lixo plástico (96% não reciclado) não tem a destinação correta a cada ano, em apenas uma década serão 106 milhões de toneladas, só no Brasil. Diante disso, estaremos convivendo com montanhas e montanhas de lixo plástico ao redor de nosso país.
O pior em tudo isto, em meio a esta verdadeira tragédia ecológica, socioambiental, constatamos que não existe consciência ambiental nem por parte da população em geral e muito menos por parte de nossos governantes, em todos os níveis, e também no mundo empresarial, que sempre coloca a busca do lucro e acumulação de capital acima dos danos causados pelo lixo plástico e outros crimes contra o meio ambiente.
Também a passividade, falta de consciência ecológica está presente em todas as demais entidades da chamada sociedade civil organizada/desorganizada, como os estabelecimentos educacionais, as Igrejas, os movimentos sindical e comunitário, os clubes de serviços.
Assim, diante do imenso volume de lixo plástico gerado no mundo e em todos os países e que tem aumentado muito todos os dias e anos, diante da passividade, alienação e falta de um despertar da consciência ecológica sobre este desafio e diante da resistência dos sistemas produtivos/empresários em colocar o bem comum e a saúde das pessoas e do planeta acima do lucro e da acumulação de capital e também diante da omissão generalizada de governantes em todos os países sobre esta realidade, com certeza, o mundo tem pouco a celebrar neste DIA INTERNACIONAL SEM SACOLAS PLÁSTICAS.
Continuamos como o beija-flor que imaginava conseguir apagar um enorme incêndio florestal com apenas algumas gotinhas que carregava em seu biquinho.
Para terminar, gostaria de relembrar a exortação feita pelo Papa Francisco em 2015 quando da publicação da Encíclica Laudato Si “A terra, nossa casa comum, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”. Do volume global de lixo produzido no mundo, o lixo plástico já representa, em média, 10% deste total, com previsões, como já acontece com alguns países chegando a 20% dentro de poucas décadas, sabendo que o lixo plástico pode continuar poluindo o planeta por mais de 500 anos, média de “vida” do lixo plástico.
O combate ao lixo plástico, portanto, é, também, uma maneira de defendermos todas as formas de vida, inclusive a vida humana e isto passa pela necessidade de mudança de hábitos, de estilo de vida e de estruturas sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Convenhamos uma grande luta, uma verdadeira revolução ecológica.
A nossa luta é pelo fim do uso das sacolas e todas embalagens de plástico, em todo o Brasil, como já acontece em diversos países e cidades mundo afora.
Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online
























