Pesquisar
Close this search box.
ARTIGO

A vitória passa; a derrota, perdura

Publicidade

Existem poucas vivências humanas tão profundas quanto conquistar ou ser derrotado em uma Copa do Mundo. Por um período de noventa minutos — por vezes cento e vinte, ou até mesmo em uma única cobrança de pênalti — milhões de indivíduos interrompem suas atividades, ignoram as discrepâncias políticas, religiosas e sociais, e começam a dividir um único destino. É intrigante: um jogo aparentemente simples converte-se em uma representação da própria vida.

Conquistar um campeonato parece atestar que o empenho foi recompensado. A conquista gera uma forma de eternidade temporária. Os vencedores concebem que o tempo se congelou, que aquele momento permanecerá imutável na memória coletiva. Todavia, conforme já notou Heráclito, ninguém consegue adentrar duas vezes no mesmo rio. A majestade também se propaga. O troféu desgasta-se, os heróis retiram-se, e novas gerações emergem. A conquista é magnífica precisamente por ser efêmera.

A derrota, contudo, possui uma natureza diversa. Ela persiste por um período mais prolongado na essência do ser do que a conquista. Possivelmente, o ser humano adquire mais conhecimento por meio daquilo que lhe é ausente do que por intermédio do que já possui. Pertence à filosofia a consideração de que a felicidade é raramente reconhecida em sua existência, enquanto a perda preenche rapidamente a totalidade da consciência. Aquele derrotado em uma Copa não é apenas vencido em um jogo. Dissipa-se a narrativa idealizada ao longo de anos. Perde-se um futuro que aparentava ser inescapável.

Leia Também:  A Dignidade Humana e a Escravidão do Trabalhador

O futebol, dessa forma, evidencia uma característica inerentemente humana: a confusão entre esperança e certeza. A cada quadriênio, um país tende a supor que o destino lhe deve uma compensação; essa parece ter sido a sensação do Japão antes da derrota para o Brasil. Contudo, é preciso lembrar que o esporte, assim como a vida, não reconhece méritos absolutos. Existem equipes notáveis que, frequentemente, nunca conquistam o troféu, assim como há vidas altruístas que nunca obtêm o reconhecimento almejado.

Camu, um entusiasta dos jogos, declarava que todos os conhecimentos que possuía acerca da moral haviam sido adquiridos nos campos de futebol. É possível que lá se revele uma verdade incômoda: não necessariamente triunfa aquele que mais anseia; prevalece quem é capaz de unir talento, disciplina e oportunidade em um único momento de exatidão. Não obstante, o acaso permanece vigente. Um tiro na trave pode dividir a comemoração nacional da desolação coletiva. Quem não se sensibilizou com Cabo Verde?

O Mundial de Futebol expõe igualmente uma outra ilusão moderna: a de que seres humanos são autônomos e desapegados. Ao longo do torneio, nota-se que todos fazem parte de uma entidade superior. O abraço entre estranhos, o pranto coletivo, a euforia genuína nas vias públicas evidenciam aquilo que já pressentia ao declarar que o ser humano é um ente político, destinado à convivência em sociedade. Durante alguns dias, a camisa da seleção transcende temporariamente as disparidades sociais e relembra que a identidade pode emergir de uma esperança compartilhada.

Leia Também:  Mato Grosso: o Rei da Soja em Xeque-Mate

Contudo, pode-se argumentar que a principal lição proveniente da Copa reside, de fato, na aceitação da derrota. Atualmente, vivemos em uma era que glorifica os triunfadores e considera a derrota como um sinal de desonra. A prática esportiva transmite uma lição oposta. Não há campeão que seja permanente. Cada geração perceberá, mais cedo ou mais tarde, que a taça pertence apenas durante um curto período. Em seguida, ela prosseguirá em sua trajetória.

Segundo Nietzsche, é necessário amar o destino, abrangendo também o que nos causa dor. Possivelmente, a derrota em uma Copa representa um aprendizado compartilhado. Não se trata de aceitação passiva, mas da compreensão de que nenhuma vida pode ser erigida unicamente sobre triunfos. As derrotas moldam o caráter, assim como os triunfos fomentam a autoconfiança.

Aqui está a autêntica conquista: independentemente da medalha, a habilidade de cultivar a paciência, aguardar oportunamente e reconhecer a si mesmo. No final das contas, o ser humano experimenta um viver mais pleno pelas esperanças que se recusa a abandonar do que pelas conquistas que logra.

Gonçalo Antunes de Barros Neto é do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

Publicidade

Publicidade

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com o Deputado Estadual Wilson Santos

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com Valdinei Mauro de Souza