Há, em minha opinião, inúmeras razões para não se votar em candidatos da extrema direita, especialmente pelo que fez seu maior representante, quando governou este país entre 2019 e 2022. A começar pelo tratamento dispensado à pandemia do coronavírus. Não só criticou a eficácia como demorou a adquirir as vacinas, foi totalmente contrário às medidas de isolamento social recomendadas por autoridades sanitárias e ainda promoveu remédios sem eficácia. O resultado, todos conhecemos, foi o registro de mais de 700 mil mortes. (Aliás, em julho, a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, Margareth Dalcolmo, estimou que este número pode chegar a dois milhões de pessoas, se considerar, além das mortes na fase aguda da infecção, as decorrentes de sequelas tardias e do colapso do sistema de saúde naquele momento).
Embora evocasse a família, a pátria e Deus, a empatia do governo de extrema-direita, entre 2019 e 2022, com a parte mais vulnerável da sociedade foi praticamente zero. Houve, inclusive, tentativas de reduzir os recursos para programas de grande alcance social, como o Minha Casa, Minha Vida (então chamado de Casa Verde e Amarela) e do Farmácia Popular. Nas propostas, apresentadas em 2022, para o orçamento de 2023, ambos perderiam bastante gordura. O repasse para o Minha Casa, Minha Vida, criado 2009, cairia de R$ 665,1 milhões para R$ 34,1 milhões, enquanto o Farmácia Popular diminuiria de R$ 2,04 bilhões para R$ 804 milhões.
O resultado das urnas, porém, impediu que isso acontecesse, permitindo, na verdade, o oposto: a ampliação de ambos. Uma rápida pesquisa mostra que entre 2023 e este ano, o Minha Casa, Minha Vida recebeu R$ 330 bilhões e, desde sua retomada, já entregou 1,4 milhão de 2,2 milhões de moradias contratadas. Talvez, por isso, a construção civil só perca para o setor de serviços na geração de empregos com carteira assinada no Brasil: são 3,12 milhões de trabalhadores. Mostra também que ao Farmácia Popular têm sido destinados anualmente entre R$ 3,4 bilhões e R$ 5,2 bilhões, atendendo, no acumulado de 2023 e 2024, cerca de 46,7 milhões de pessoas.
Também não dá pra votar em quem sucateou o Ibama e ICM Bio para facilitar o desmatamento ilegal, cujas taxas anuais registradas pelo Inpe, entre 2019 e 2022, foram superiores a 1,3 milhão hectares, área oito vezes superior ao município de São Paulo (em relação ao período imediatamente anterior, o crescimento foi de 73% na Amazônia Legal). Ou em representante ou aliado de quem recolocou o país no Mapa da Fome da ONU (Organização das Nações Unidades), retirada em julho do ano passado. Na verdade, pela segunda vez. A primeira vez foi em 2014. Para completar, além da Presidência da República, é preciso também votar em candidatos a senador com visão democrática. Os da extrema-direita, se fizerem maioria, vão querer tomar conta do STF (Supremo Tribunal Federal) e aí será um deus-nos-acuda.
Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

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