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ARTIGO

O National Health Service da Inglaterra: espelho do SUS no Brasil

O colapso inglês acende alerta: com envelhecimento 5x mais rápido, Brasil terá 30% de idosos em 2050 e risco de repetir o gargalo do NHS.

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Durante 75 anos o National Health Service, o NHS, foi tratado como patrimônio nacional na Inglaterra. Criado em 1948, o NHS nasceu da promessa de que ninguém precisaria escolher entre pagar o aluguel e pagar o médico. Saúde gratuita, universal e paga com impostos. Foi assim que o Reino Unido enfrentou a pobreza do pós-guerra e construiu um dos sistemas públicos mais admirados do mundo.

Em 2025 essa imagem ruiu. O NHS não acabou. Continua gratuito no ponto de uso. Mas entrou em colapso funcional. Hoje o problema não é falta de direito. É falta de tempo. E tempo, em saúde, é diferença entre vida e morte.

Os números explicam a dimensão. Mais de 7,4 milhões de pessoas aguardam por tratamento eletivo no sistema inglês. São 6,2 milhões de pacientes únicos esperando cirurgia, exame ou consulta com especialista. A fila bateu recorde histórico. Cirurgia de quadril, catarata, hérnia e joelho levam entre 12 e 18 meses. Muita gente entra na fila andando e sai dela de cadeira de rodas.

Na emergência a situação é ainda mais grave. A meta histórica do NHS era atender 95% dos pacientes em até 4 horas. Em 2025, apenas 65% a 70% conseguem esse prazo. O restante fica horas em maca no corredor. Ambulâncias passam a noite inteira paradas na porta do hospital esperando uma vaga para deixar o paciente. Já virou rotina ver sirene ligada e equipe sem ter para onde correr.

Por que o sistema que foi exemplo chegou a esse ponto? Não foi uma única causa. Foi a soma de quatro crises que se encontraram.

A primeira é a pandemia e o atraso que ela deixou. Durante a Covid, cirurgias e exames eletivos foram cancelados para abrir leito. Essa fila nunca foi zerada. Ao mesmo tempo, diagnósticos de câncer, diabetes e doenças cardíacas foram adiados. Quando voltaram, voltaram mais graves e mais caros de tratar.

A segunda é o subfinanciamento crônico. Desde 2010 os governos britânicos seguraram o gasto do NHS abaixo da inflação e da demanda. O resultado está nas paredes: hospitais com 60 anos, equipamento obsoleto, falta de leito. O salário de enfermeiro ficou tão defasado que entre 2022 e 2023 o país viu as maiores greves da história do NHS. Faltam hoje cerca de 110 mil profissionais entre médicos, enfermeiros e técnicos. Sem gente, não tem como atender gente.

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A terceira é a porta de entrada quebrou. O GP, o General Practitioner, é a base do NHS. É ele quem resolve 80% dos problemas e encaminha para o especialista. Só que marcar consulta com GP hoje leva 2 a 3 semanas. Sem resposta no consultório, o paciente vai direto para o pronto-socorro, o A&E. A emergência, que deveria ser para urgência, virou clínica geral, e colapsou.

A quarta, e mais decisiva, é o envelhecimento. O Reino Unido envelheceu rápido. Idoso acima de 65 anos usa cinco vezes mais o sistema do que um adulto jovem. E o país não montou rede de cuidado fora do hospital. Não tem vaga suficiente, não tem home care, não tem atenção domiciliar estruturada. Resultado: o paciente recebe alta, mas não tem para onde ir. Fica “preso” no hospital ocupando leito. Estima-se que 1 a cada 7 leitos do NHS esteja ocupado por paciente clinicamente apto para alta. Se o leito de clínica está travado, sobrecarrega os casos graves de AVC, infarto e cirurgias emergenciais.

O efeito disso tudo apareceu nos indicadores. A mortalidade por câncer e por doença cardiovascular subiu nos últimos três anos porque o diagnóstico está tardio. O setor privado cresceu 20% desde 2022. Quem pode pagar está fazendo seguro saúde para fugir da fila. Quem não pode, espera. A desigualdade, que o NHS nasceu para combater, voltou pela porta dos fundos.

O governo trabalhista que assumiu em 2024 reconheceu o colapso e lançou um “Plano de 10 Anos para o NHS”. A aposta tem três pilares. Dinheiro: 22 bilhões de libras extras até 2026 para zerar a fila de 18 meses. Tecnologia: prontuário 100% digital e mais teleconsulta para desafogar o GP. E prevenção: campanha agressiva contra cigarro, álcool e obesidade para reduzir a demanda futura. Também há promessa de contratar 10 mil médicos e enfermeiros e reabrir leitos fechados na pandemia.

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Mas os especialistas são céticos. Porque o problema do NHS não é só de gestão. É de modelo. Um sistema universal que promete tudo para todos só se sustenta com dois pilares: investimento constante e prevenção que funcione. Quando um dos dois falha, a fila vira política pública.

E é aqui que a história inglesa serve de alerta para o Brasil.

O Brasil tem o SUS, também universal e gratuito. A diferença é que o Brasil vai enfrentar a mesma tempestade da Inglaterra em câmera rápida. O principal motivo é o envelhecimento acelerado. A França levou quase 100 anos para a população idosa dobrar. O Brasil fará isso em cerca de 20 anos.

Hoje cerca de 12% dos brasileiros têm 60 anos ou mais. Em 2030 seremos quase 20%. Em 2050, segundo a ONU, 30% da população brasileira terá mais de 60 anos.

Se o Brasil não montar agora uma rede de cuidado ao idoso fora do hospital, o SUS vai repetir o mesmo gargalo do NHS: leito de hospital ocupado por quem já recebeu alta e não tem para onde ir. Com menos dinheiro por habitante e envelhecimento muito mais rápido, a fila que hoje é de meses pode virar anos. O colapso inglês é um aviso. No Brasil, a conta pode chegar antes.

José Antônio Borges Pereira é Procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso e titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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