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CIÊNCIA E MEIO AMBIENTE

Estudo registra pela primeira vez melanismo em cervos-do-pantanal

Pesquisadores identificaram animais com pelagem escura no Pantanal e no Parque Nacional Grande Sertão Veredas.

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Foto: D. L. L. D. Santana

Pesquisadores registraram pela primeira vez casos de melanismo em cervos-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), uma alteração genética que provoca produção excessiva de melanina e deixa a pelagem mais escura. Os animais foram encontrados em duas populações brasileiras, uma no Pantanal e outra no Cerrado.

O estudo foi publicado neste ano na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos e é assinado por pesquisadores ligados à Associação Onçafari e à Embrapa Pantanal. Até então, havia registros de albinismo e leucismo na espécie, mas nenhum caso documentado de melanismo.

Os pesquisadores afirmam que a ocorrência no Cerrado merece atenção especial devido à situação da população de cervos-do-pantanal na região.

“Estes registros no Cerrado servem de alerta para a conservação da espécie no bioma, pois essa mutação pode indicar que a saúde genética da população está em risco. Acreditamos que esses animais estejam bem confinados nos limites do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, já que as áreas externas já estão bem degradadas e têm uma pressão de caça ainda maior. Isto resulta em isolamento populacional e, muito possivelmente, uma maior frequência de indivíduos com melanismo”, afirma Edu Fragoso, coordenador da base do Onçafari no Parque Nacional Grande Sertão Veredas e coautor do estudo.

O primeiro registro ocorreu em 26 de fevereiro de 2021, quando uma fêmea adulta com melanismo foi observada e fotografada na Caiman Pantanal, propriedade de aproximadamente 530 km² em Mato Grosso do Sul. Embora não houvesse documentação científica anterior, o artigo menciona relatos de moradores do Pantanal sobre animais de coloração escura, inclusive nas proximidades da Estação Ecológica de Taiamã, em Mato Grosso, onde existe um local conhecido como Baía do Cervo Preto.

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No Cerrado, os registros foram feitos no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, entre Minas Gerais e Bahia. Entre janeiro de 2022 e fevereiro de 2026, armadilhas fotográficas acumularam 61.830 noites de monitoramento e produziram apenas 31 registros independentes de cervos-do-pantanal, indicação da baixa densidade da espécie na região. Três desses registros, ou 9,7%, mostraram animais melânicos.

As equipes também observaram cervos diretamente em 12 ocasiões. Em oito delas, equivalentes a 66,7%, havia animais com melanismo. A comparação entre fotografias permitiu aos pesquisadores identificar pelo menos dois machos diferentes com a alteração. Todos os registros no Cerrado ocorreram entre fevereiro de 2025 e janeiro deste ano.

O contraste entre os dois biomas chamou a atenção dos pesquisadores. No Pantanal, que concentra cerca de 88% da população brasileira de cervos-do-pantanal, décadas de levantamentos e uma população anteriormente estimada em mais de 40 mil indivíduos não haviam produzido registros científicos de melanismo. No Grande Sertão Veredas, apesar da raridade dos encontros com a espécie, a alteração apareceu repetidamente.

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A hipótese levantada pelos autores é que populações pequenas e fragmentadas estejam mais sujeitas à deriva genética, ao isolamento e à reprodução entre indivíduos aparentados, fatores que poderiam facilitar a manifestação do melanismo. O artigo ressalta, porém, que são necessários novos estudos para determinar as causas e consequências da alteração.

O cervo-do-pantanal é o maior cervídeo da América do Sul e pode pesar até 130 quilos. A espécie é classificada como vulnerável no Brasil e ao longo de sua área de ocorrência. Em algumas regiões, porém, a situação é mais grave. No Brasil Central, onde fica o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, é considerada criticamente ameaçada. Entre as principais pressões estão perda de habitat, caça, redução de áreas úmidas, mudanças climáticas, incêndios e doenças.

Segundo o estudo, as consequências das alterações de pigmentação em mamíferos ainda são pouco conhecidas. Pesquisas anteriores apontam possíveis impactos sobre sobrevivência e reprodução, maior exposição a predadores, vulnerabilidade a doenças e dificuldades relacionadas à regulação da temperatura e à radiação ultravioleta. Os autores afirmam que os efeitos do melanismo sobre os cervos registrados tanto no Pantanal quanto no Cerrado ainda precisam ser investigados.

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