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ARTIGO

A Sexta Extinção, Parte 2: O Apocalipse Líquido e o Prazo de 50 Anos Para o Mar

Se na semana passada falamos de como o homem abriu caminho para os ratos dominarem a terra, agora o livro de Elizabeth Kolbert mostra como estamos azedando o mar. E o prazo para os corais pode ser 2070.

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Na semana passada falamos de ratos. De como o homem, ao tentar dominar o planeta, abriu as portas para que os roedores herdassem a terra. A cena está em “A Sexta Extinção”, de Elizabeth Kolbert, e resume o maior paradoxo do nosso tempo: quisemos ser protagonistas e deixamos um rastro. Agora o livro vira a página e mostra o outro lado desse mesmo rastro. Se na terra o símbolo é o rato, no mar o símbolo é o coral branco. Morto. Porque o apocalipse da sexta extinção não está acontecendo só na floresta. Está acontecendo na água. E tem data. O nome dele é acidificação dos oceanos. E quem ajudou a dar nome ao problema foi o físico Ken Caldeira, da Universidade de Stanford.

No fim dos anos 1990 o Departamento de Energia dos Estados Unidos tinha uma ideia. As usinas queimavam carvão e soltavam CO2. Por que não pegar esse gás e jogar no fundo do mar? Lá ele ficaria preso e o planeta esfriaria. Foi para estudar isso que chamaram Caldeira. Ao fazer as contas, ele esbarrou em outra conta. O oceano já estava fazendo esse trabalho sozinho. Cerca de 25% de todo CO2 que emitimos é absorvido pelo mar. Isso segurou parte do aquecimento global. Mas veio com um efeito colateral pesado. Quando o CO2 entra na água, ele reage e vira ácido carbônico. É a mesma reação do refrigerante. Só que em escala planetária. Caldeira foi um dos primeiros a modelar isso e a popularizar o termo acidificação dos oceanos. O problema é que a vida marinha inteira evoluiu em um mar estável e levemente alcalino por milhões de anos. Mudar essa química em 200 anos é como trocar o ar de uma cidade da noite para o dia.

Elizabeth Kolbert descreve em “A Sexta Extinção” dois lugares que mostram isso na prática. O primeiro é um laboratório na Universidade de Queensland, na Austrália. Lá pesquisadores montaram um mesocosmo, um tanque gigante que imita um pedaço de recife. Dentro dele eles aumentam o CO2 da água para simular o oceano de 2050 e 2070. O segundo é a Ilha One Tree, na Grande Barreira de Corais. É lá que Caldeira coordenou pesquisas de campo. O objetivo era ver o que acontece quando a água fica mais quente e mais ácida ao mesmo tempo. A resposta foi sempre a mesma. O coral para de crescer. O esqueleto de carbonato de cálcio dissolve. Ele branqueia. E quando o calor dura, ele morre. É desse experimento que vem a previsão mais dura associada a Caldeira e a outros cientistas do clima. Com base em modelos de emissão, a avaliação é que se mantivermos o ritmo atual de queima de carvão, petróleo e gás, a maioria dos recifes tropicais pode entrar em colapso funcional até 2050-2070. Colapso funcional não significa que todo coral vai sumir do mapa. Significa que ele não vai mais conseguir sustentar vida. Vai branquear com frequência, quebrar e virar pedra. E isso em menos de 50 anos.

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O coral ocupa menos de 1% do fundo do mar. Mas abriga cerca de 25% de todas as espécies marinhas. É a floresta tropical debaixo d’água. Derrubar o recife significa derrubar uma cadeia inteira. E a conta chega para nós. Cerca de 1 bilhão de pessoas depende do peixe como principal fonte de proteína. Recifes são berçário. Sem berçário, menos peixe adulto. Países da Ásia, África e Caribe sentem primeiro. O preço sobe, a insegurança alimentar aumenta. O mar que alimentou civilizações começa a devolver menos. Além da comida, vem a proteção costeira. O recife funciona como quebra-mar natural e reduz até 97% da força das ondas antes delas baterem na praia. Sem ele, enchente, erosão e invasão do mar ficam piores. Cidades como Recife, Rio de Janeiro, Miami e dezenas de ilhas do Pacífico vão gastar bilhões em muros e reconstrução. O mar vai entrar mais fundo e mais rápido. Na economia, o impacto também é direto. Turismo, pesca e serviços ligados aos recifes movimentam mais de 375 bilhões de dólares por ano no mundo. Só a Grande Barreira injeta 4 bilhões por ano na Austrália. Com o recife morto, esse dinheiro some e comunidades inteiras perdem renda. E ainda há a questão do conhecimento. Muitos compostos usados em remédios contra câncer, bactéria e vírus vêm de esponjas, algas e corais. É uma biblioteca genética de 500 milhões de anos. Se o ecossistema colapsa, perdemos remédios que nem conhecemos.

O que torna a história de Caldeira ainda mais simbólica é a origem. Ele foi chamado para estudar como enterrar carbono no mar para salvar o clima. Descobriu que o mar já estava enterrando por conta própria. E que essa ajuda estava matando o mar. Desde 1900 o oceano ficou 30% mais ácido. Parece pouco. Em química oceânica é uma ruptura. Na natureza, mudanças desse tipo levavam 10 mil anos. Nós fizemos em 200. O coral não tem tempo de evoluir. Não tem tempo de se adaptar. Só tem tempo de morrer. Para quem vive hoje, o prazo de 50 anos não é abstrato. Quem nasce em 2026 terá 50 anos em 2076. E vai herdar um de três cenários. No primeiro, fizemos pouco. Emissões continuam altas, recifes entram em colapso até 2070, pescarias quebram e ilhas do Pacífico começam a ser abandonadas por causa do mar mais alto e mais bravo. No segundo, cortamos emissões de forma rápida nesta década. A acidificação estabiliza, alguns recifes mais resistentes sobrevivem e ganhamos tempo para adaptar a pesca e proteger a costa. O dano é grande, mas não é total. No terceiro, além de cortar CO2, investimos pesado em restauração. Manguezal, marisma e recife plantado, áreas marinhas protegidas, corais selecionados para resistir ao calor. É caro, mas é o único caminho para segurar o ecossistema de pé. Cientistas como Caldeira hoje defendem as duas pontas: tirar carbono do ar e parar de emitir. Só uma não resolve.

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Se o primeiro artigo baseado em “A Sexta Extinção” mostrou o homem criando um mundo para os ratos, este segundo mostra o homem criando um mar sem coral. Não existe jogar fora. O CO2 que sai das queimadas em Mato Grosso, de um carro em São Paulo ou de uma usina na China não some. Parte fica no ar e esquenta o planeta. Parte cai na água e azeda. A consequência direta dessa acidez é que o mar fica mais difícil de construir vida. Animais com concha e esqueleto como ostras, caramujos e o próprio plâncton que produz 50% a 70% do oxigênio do planeta enfraquecem porque o carbonato de cálcio dissolve. Os recifes, que já sofrem com o calor, param de crescer e entram em colapso até 2070 se nada mudar. Sem eles, quebra a base da cadeia alimentar, cai a pesca, sobe o preço da comida e 500 milhões de pessoas perdem renda e proteção. Além disso, costas ficam mais vulneráveis a tempestades e o próprio oceano perde força para absorver CO2, o que acelera ainda mais o aquecimento. O apocalipse descrito por Kolbert não é com meteoros e fogo. É com química e tempo. É lento, silencioso e por isso mais perigoso. O futuro dos mares em 50 anos não será decidido pelo mar. Será decidido por nós nesta década. Proteger o coral é proteger comida, proteger costa e proteger clima. Deixar morrer é aceitar um oceano mais pobre, mais bravo e mais vazio. A pergunta que fica depois de Caldeira e depois dos ratos não é o que vai acontecer com a natureza. A pergunta é que tipo de planeta a gente quer entregar para quem vai viver nele em 2070.

José Antônio Borges Pereira é Procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso e titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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