Setembro chegou. E, com ele, o amarelo volta a ocupar espaços, campanhas, empresas, escolas, redes sociais e conversas. Mais do que uma cor, o Setembro Amarelo nos convida a falar sobre algo que muitas vezes deixamos para depois: a nossa saúde emocional e o cuidado com a vida.
E talvez esse seja um bom momento para ampliarmos essa conversa.
Quando falamos em prevenção do suicídio, estamos falando também de tudo aquilo que pode fazer uma pessoa chegar a um estado de sofrimento profundo. Estamos falando de depressão, ansiedade, solidão, perdas, relacionamentos, dificuldades financeiras, esgotamento, sensação de não pertencimento e tantas outras dores que nem sempre são percebidas por quem está ao redor.
Os números nos mostram que não estamos falando de um problema pequeno ou distante. Mas, por trás de cada número, existe uma história. Existe uma pessoa. Existe uma família.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “como prevenir o suicídio?”, mas também: “como estamos cuidando das pessoas antes que elas cheguem ao limite?”
Vivemos tempos curiosos. Estamos cada vez mais conectados e, ao mesmo tempo, muitas pessoas se sentem cada vez mais sozinhas.
Passamos horas diante das telas, recebemos centenas de estímulos por dia e temos acesso praticamente ilimitado a informações, entretenimento e redes sociais. A tecnologia trouxe inúmeros benefícios, mas também precisamos conversar sobre a dependência tecnológica e sobre o impacto que o excesso de conexão pode ter sobre nossa atenção, nossos relacionamentos, nosso sono e nossa saúde emocional.
E há ainda uma preocupação que ganhou força nos últimos anos: o crescimento das apostas.
As chamadas bets chegaram de forma intensa ao cotidiano, especialmente entre os mais jovens. Para algumas pessoas, o que começa como entretenimento pode se transformar em compulsão, perdas financeiras, ansiedade, conflitos familiares e sofrimento emocional.
Tecnologia, apostas, trabalho, consumo, redes sociais… talvez o problema não esteja necessariamente nas coisas em si, mas na relação que construímos com elas.
E isso nos leva a uma palavra que considero fundamental neste Setembro Amarelo: consciência.
Precisamos aprender a perceber quando algo deixou de ser apenas um hábito e começou a controlar a nossa vida. Precisamos reconhecer mudanças de comportamento, isolamento, irritabilidade, perda de interesse, alterações no sono, queda de rendimento e outros sinais de que alguma coisa pode não estar bem.
E precisamos também aprender a ouvir.
Às vezes dizemos: “Se precisar, estou aqui”.
Mas será que estamos realmente preparados para ouvir?
Ouvir não é necessariamente ter uma resposta. Não é dizer “pense positivo”, “seja forte” ou “isso vai passar”. Muitas vezes, ouvir é simplesmente permitir que alguém fale sem medo de ser julgado.
O Setembro Amarelo tem um mérito enorme: ajudou a quebrar silêncios e criar espaços.
Hoje falamos mais sobre saúde mental do que falávamos anos atrás. E isso é uma conquista. Mas talvez o próximo passo seja transformar essa conversa em pequenas atitudes durante todo o ano.
Nas empresas, nas escolas, nas famílias, entre amigos e também dentro de nós mesmos.
Porque saúde mental não deveria ter calendário.
O sofrimento emocional não espera setembro para aparecer. A solidão não tira férias. A ansiedade não respeita feriados. E uma pessoa em sofrimento não precisa necessariamente de uma grande campanha, muitas vezes, precisa de alguém disposto a perceber, perguntar e permanecer por perto.
Que este Setembro Amarelo seja, portanto, menos sobre a cor que colocamos nas nossas campanhas e mais sobre aquilo que fazemos com a vida depois que as campanhas terminam.
Que setembro seja o começo de uma conversa que continue em outubro, novembro, dezembro…
Talvez a nossa maior campanha não seja fazer setembro ficar amarelo.
Talvez seja fazer os outros onze meses também serem mais atentos à vida.
Alan Barros é escritor, terapeuta integrativo, comunicaDOR e palestrante de Saúde Mental, ativista do Setembro Amarelo, embaixador nacional do Janeiro Branco

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online




























