Mayke Toscano/Secom-MT

A vacinação de crianças entre 5 e 11 anos contra covid-19 já começou em Mato Grosso ao mesmo tempo em que há um aumento de casos da doença, sobretudo da nova variante Ômicron. Analisando esse contexto juntamente com o momento em que as crianças retornam às salas de aula para o início do ano letivo, o pediatra e pneumologista Arlan Azevedo faz um alerta: prudência. Para ele, o ideal seria manter as crianças distantes das salas de aula. Pelo menos por mais algum tempo para que a imunização nesse público avançasse.
Arlan Azevedo concedeu uma entrevista ao programa de rádio do Tribunal Regional do Trabalho e falou sobre os novos casos da doença em Mato Grosso, o avanço da vacinação do público infantil e a volta às aulas. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
A vacina é segura e tem eficácia comprovada nas crianças?
Dr. Arlan Azevedo – Sim. É muito importante essa proteção que dá, inclusive, para a ômicron. Estamos vendo poucos casos graves entre os adultos porque, provavelmente, já temos o efeito da vacina na proteção de formas graves, já que a maioria dos adultos já tomou. Aumentou muito o número de infectados, mas o número de pessoas que apresentam formas graves da doença e que necessitam de UTI é muito baixo. Vemos de longe que essa vacina já está impactando inclusive na ômicron. Isso é muito importante.
Um aspecto muito relevante saber sobre as crianças é que o evento adverso que todos temos receio, que é miocardite, é muito raro de ser relatado. Já foram vacinadas mais de 10 milhões de crianças só nos Estados Unidos. Importante destacar que esse quadro clínico de miocardite também pode acontecer nas crianças que têm a covid-19. O coronavírus dá muito mais miocardite do que a vacina, que é uma ocorrência super rara e que não é fatal.
Então estamos lidando hoje com um evento adverso super raro de acontecer e que não é fatal e com uma proteção contra uma doença que é fatal em alguns casos. Se você tem crianças comprometidas com a doença, poucas vão fazer a forma grave e evoluir para óbito. Mas se aumenta muito esse quantitativo, começa a ter um aumento no número de casos graves. Daí a importância de vacinar as crianças. Diminuir a exposição da população em geral para o vírus. É muito importante cortar a cadeia de transmissão.
Vacinar as crianças é importante para diminuir a exposição da população em geral ao vírus e cortar aquela cadeia de transmissão. O vírus vai chegar e vai bater numa parede imunológica. E a gente sabe que o vírus só revive a partir do momento em que ele infecta uma pessoa e sai para outra, sai para outra. O vírus não tem autonomia de replicação, na natureza ele não replica, ele precisa do ser humano. Então, se ele bate na parede imunológica de alguém vacinado, ele não vai para frente.
O controle da epidemia vai estar nessa imunidade em massa que está ocorrendo. Porque será que tantas crianças estão sendo comprometidas agora e a gente não via isso nos picos anteriores? Provavelmente é que o vírus deve ter uma inteligência de replicação e de multiplicação, de manutenção dele na natureza. O vírus encontrou um grupo de crianças que, apesar de serem muito fortes quando contraem a doença, estão mais suscetíveis a ter. Então o vírus saiu do universo dos adultos e está indo para o universo das crianças. Mostrando o seguinte, que o vírus só não está se dando bem mais no grupo de adultos por causa da vacina.
Agora queremos que o vírus perca esse nicho que são as crianças não vacinadas. Queremos que as crianças sejam vacinadas também, que é para tirar as duas possibilidades desse bicho se manter na natureza.
Muitas crianças voltaram às aulas. Será que a situação pode piorar? Como a vacina das crianças pode influenciar esse retorno à escola?
Dr. Arlan Azevedo – Raramente eu dou minha manifestação pessoal, mas vou manifestar aqui um sentimento que tenho. Quando a gente estava nos picos anteriores nós achamos importante que as crianças ficassem fora das aulas por conta da transmissão. Sabemos de todo o transtorno que há com o adoecimento da criança. Eu acho que seria bom as crianças ficarem um pouquinho mais em casa, esperar a gente trabalhar melhor esse vírus, e ver como é que vai ser o comportamento em larga escala. Será que, se a gente tiver um aumento muito significativo de crianças comprometidas, vão começar a apresentar os casos mais graves? Acho que é uma questão de prudência. Nós poderíamos esperar um pouquinho mais, que fosse uma ou duas semanas. Acho que é o momento de ter tranquilidade e saber que nós estamos em um momento de sobrevivência, estamos no momento no qual aquelas condições naturais que tínhamos antes da pandemia está quebrada.
Quais as recomendações para o retorno às aulas?
Dr. Arlan Azevedo – Seria interessante a redução do número de crianças. Então, em algumas escolas em que ainda não aderiram ao sistema híbrido para reduzir o número de crianças, que se faça um escalonamento de entrada. Acho que poderia voltar ao planejamento que nós tivemos lá no início. Além do escalonamento de entrada, uma coisa importantíssima é reforçar a necessidade do uso da máscara. A gente sabe que a máscara não serve de proteção só para que você se infecte, mas também para que não transmita, afinal, sabemos que muitas crianças são assintomáticas.
O uso da máscara nas crianças também impede que elas transmitam para o ambiente e que, eventualmente, passem para uma criança que tem alguma comorbidade, algum problema no coração, diabetes, asma grave, que toma corticoide, criança que tem reumatismo e outras doenças auto-imunes. O corticoide é um medicamento que deprime a imunidade, e as crianças que fazem uso deste medicamento podem desenvolver casos graves de covid.
O uso do álcool em gel também é muito importante, porque a gente sabe que uma forma de transmissão do vírus é no toque, é na passagem do que tem nas mãos. Também é muito importante que os pais estejam atentos e que atualizem o calendário vacinal. Então, ficar atento a vacina do sarampo, a vacina da catapora, entre outras doenças que podem reduzir a imunidade da criança e fazer com que ela tenha covid mais grave.
Se surgir, por exemplo, um surto de catapora, as crianças podem ter poucas lesões na pele, mas detona muito o sistema imunológico. Isso torna a criança mais suscetível a pegar uma covid mais grave.























