
Na eleição a prefeito de Cuiabá em 2020 o então candidato a prefeito Abílio Brunini, candidato da extrema direita bolsonarista, atacou a então candidata a prefeita Gisela Simona (hoje deputada federal pelo União) com um deboche à sua condição de mulher. A frase preconceituosa entrou para o rol da fama das incúrias ditas por políticos homens contra as mulheres. Abílio disse que Gisela era uma boa candidata, “apesar de ser mulher”.
Sem que signifique dizer que o escárnio de Brunini não foi tão ofensivo assim, porque foi ofensivo, essa sutil declaração de “deboche” estará a anos luz dos ataques pesados à condição de mulher que a candidata a presidente dos Estados Unidos pelo partido Democrata, Kamala Harris, vai enfrentar contra o líder da extrema direita que controla o partido Republicano, Donald Trump.
Tão logo foi comunicada a desistência do presidente Joe Biden de concorrer à reeleição, abrindo caminho para a candidatura da sua vice, Trump começou a sua artilharia de ataques pessoais contra Kamala Harris, dizendo que o sorriso dela era de “mulher louca”. Trump fará a mesma coisa que fez na eleição que enfrentou outra mulher, Hillary Clinton em 2016: atacar a condição de mulher, estratégia machista que tem forte apelo aos seus seguidores fiéis.
Odiar e desmerecer as mulheres são da natureza política da extrema direita. Vale o registro de um ataque absurdo feito pelos seguidores de Trump. Em 14 de julho, Trump sofreu um atentado, durante um comício na Pensilvânia, um fato obviamente deplorável e que precisa ser condenado. Uma vítima e o assassino, um homem filiado ao Partido Republicano, morreram no local.
É absurdo e chocante que uma coisa assim tenha acontecido. Mas o que os republicanos influentes próximos a Trump fizeram depois do ataque? Disseram que a culpa era das agentes mulheres do Serviço Secreto, que, segundo eles, não tinham capacidade para proteger o ex-presidente.
Segundo essas pessoas, a inclusão de mais mulheres no Serviço Secreto nos últimos anos teria enfraquecido a capacidade de segurança da agência. No momento do atentado, várias mulheres com óculos e a vestimenta típica do serviço se lançaram para proteger Trump. Sim: se colocaram na linha de tiro, se arriscaram para fazer seu trabalho.
Aprender com os erros dos outros
Kamala Harris precisa aprender com os erros da candidata que enfrentou a artilharia de ataques pessoais de Trump. Confortável com sua margem nas pesquisas, a candidata a presidente Hillary Clinton em 2016 demorava para responder aos ataques de Trump. Ele fazia ataques o tempo todo nas redes sociais. Cada vez que Trump tuitava, um grupo de oito mulheres analisava como responder. Elas enviavam um memorando a Hillary. A campanha dos Clinton estudava e pensava e respondia algo que soava formal, como se houvesse sido escrito por um comitê, porque de fato havia sido escrito por um comitê. Ou seja, a demora do contraponto e o conteúdo da resposta, formal demais, foram dois pontos fracos que deixaram Trump livre para fazer seus ataques machistas e mobilizar o eleitorado contra uma mulher.
Sem medo contra o medo
Em mais de dois séculos de democracia, os eleitores nos Estados Unidos elegeram apenas um presidente negro e nunca uma mulher, algo que faz até alguns eleitores negros duvidarem de uma candidatura bem-sucedida da vice-presidente. “A raça e o gênero dela serão um problema? Com certeza”, disse LaTosha Brown, estrategista política e cofundadora do Fundo Black Voters Matter, à agência Reuters.
Para vencer esta eleição, Kamala Harris tem que mobilizar mulheres e negros, mostrando que a hora é do voto sem medo, votando sem medo pela mudança. Afinal, o medo é a principal arma acionada por Trump contra o novo, ou melhor, contra a nova.




















