O debate desta semana na política brasileira foi sobre a relação temporal entre passado, presente e futuro. Do lado da esquerda no poder, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ironizou as críticas do presidente do PSD, Gilberto Kassab, que afirmou que, se a eleição fosse hoje, em 2025, Lula não seria reeleito. Kassab também chamou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de “fraco”. Lula lembrou que, pelo calendário da Justiça Eleitoral, a eleição de presidente é em 2026,
É um argumento que traz implicitamente do passado a memória de 2005. Naquele ano, os conservadores deram Lula como “morto” politicamente depois do escândalo do mensalão. Não estava. Lula, que sempre teve uma avaliação pessoal bem melhor do que a avaliação dos seus governos, se reelegeu em 2006 e fez Dilma Rousseff sua sucessora em 2010.
A crença na repetição da história com final feliz é um risco político, carece de base lógica. É a esperança gasosa, calcada apenas no fervor ignorante de que se foi assim no passado grandioso será assim no futuro iluminado. Hoje o desafio de Lula é recuperar não só a avaliação positiva do governo, mas também a sua avaliação pessoal positiva que teve nos seus passados. Pode reverter? Sim, desde a crença no final feliz garantido não se transforme em soberba paralisante. A ação política, proativa e revigorada, tem que ser tomada pela criatividade e pela concretude do mundo, melhorando a vida das pessoas. O espaço de mobilização do governo Lula hoje, na verdade, é bem mais exíguo. O Congresso tem muito mais poder, dominado pela direita, onde boa parte é encantada e amedrontada pelo terrorismo digital da extrema direita. E ainda tem o desafio de sempre: buscar e manter a unidade interna do PT e das esquerdas.
O governo do PT sangra. Lula sangra politicamente. A realidade, entretanto, aponta que há ainda tempo para ocorrer mudanças no quadro do presente. O primeiro passo é lembrar que a política sempre precede a comunicação. A reconstrução da imagem pública se dá pelas ações de governo na relação com a sociedade, e só então entra a questão da comunicação, como mostrar e como falar. Esse deve ser o contraponto da comunicação e política para enfrentar a onda de ataques da extrema direita nas redes sociais. Pautar e não ser pautado.
Para Bolsonaro e a extrema direita o presente não é, também, o futuro radioso garantido. A distância entre sangrar e morrer na política é enorme, um porvir de intenções e gestos. A onda gigante da extrema direita mundial com a eleição de Trump nos Estados Unidos não garante que o bolsonarismo vá surfar tranquilo em 2026. Além dos seus problemas com a Justiça, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) vê crescer no presente a onda de candidatos da direita conservadora, aqueles que aparentemente não temem o terrorismo dos extremistas nas redes sociais.
Lula não está morto, e Bolsonaro não está ressuscitado. O presente não é a volta do passado e nem é o futuro inamovível, líquido e certo, que a crença no hoje aponta ser. A história não se repetirá, a não ser como farsa. Ou seja, não há final feliz garantido. Cada eleição tem seu próprio contexto social e político que influenciam as relações temporais entre presente, passado e futuro.
*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e doutor em Comunicação pela UFMG.
























