A religião definitivamente é parte da política como elemento de distinção em relação aos adversários da hora. Uma distinção que enfatiza o fosso social, uma espécie de algoritmos divinos que marcam preferências e acentuam a formação e a separação da sociedade em grupos radicais. A religião define o campo de oposição entre crentes contra hereges, do “nós contra eles”, do povo do bem contra o povo do mal. Enfim, reproduz a velha luta de sempre: para existir Deus é preciso criar o Diabo.
Na Argentina, majoritariamente católica, o fenômeno eleitoral da extrema direita, Javier Milei, é retratado como um político convertido aos ideais religiosos do judaísmo. Ele faz desta religião a base do seu discurso de transformação radical da vida política naquele país. Milei quer ser o primeiro presidente argentino convertido ao judaísmo.

Mas nem tudo é só espiritualidade que se vende como um caminho novo para o povo argentino, massacrado por uma economia caótica e definitivamente, com trocadilho, sem fé nos políticos tradicionais. Milei já anunciou que, caso seja eleito presidente, a primeira visita que fará será para conhecer o Estado de Israel, e levando o anúncio da mudança da embaixada da Argentina para Jerusalém. Para os muçulmanos esta mudança é uma blasfêmia religiosa e política, uma briga comprada francamente por Milei. Os brasileiros lembram que o ex-presidente Jair Bolsonaro ensaiou fazer esta mudança e foi convencido pela diplomacia brasileira de que seria um tiro no pé nas relações comerciais com os países árabes. Por enquanto, como candidato, o anúncio da mudança da embaixada é só mais um dos “torpedos” disparados por Milei, para demonstrar coragem e vontade para mudar tudo na Argentina. Para um povo cansado de promessas dos velhos quadros partidários, essa conversa da miríade do novo parece estar funcionando.
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Na edição desta sexta-feira (14/9) no jornal argentino La Nacion, a jornalista Maia Jastreblansky descreveu esta trajetória de atração e provável conversão de Milei ao judaísmo, criado no catolicismo, cuja ascensão meteórica nos últimos anos na política se deu em paralelo a essa busca espiritual. De todo modo, o processo de conversão não se dará neste período de campanha eleitoral, por conta de requerer tempo e dedicação aos estudos do judaísmo.
Uma frase da irmã de Milei demonstra a importância da religião agregada francamente à política.
“A reflexão sobre o Torá (livro referencial do judaísmo) dá maior amplitude para ele poder analisar a realidade do país”.
Os brasileiros viram esta encenação da fusão dos valores da religião com os valores da política. Uma fusão movida pela esperteza, fonte de sedução eleitoral e exclusão no apelo do nós contra eles. Jair Bolsonaro usou a religião evangélica como instrumento eleitoral, rebaixando os ideais da fé dos crentes aos seus interesses pessoais e politico-eleitorais. A conferir se o judaísmo, na Argentina católica, servirá para converter a descrença dos argentinos na política tradicional em voto para o candidato chamado de “libertário”. Milei, o libertário, que se apresenta como novo, livre, e com ideias radicais para mudar a vida dos argentinos num passe de mágica, quer dizer, num “passe de fé” religiosa. Fácil como se vira uma página de livro, no caso de Milei, uma página do Torá.






















