Em Al-Anon dizem que não se conta tempo, mas eu conheci o programa há 32 anos. Cheguei, porque estava acompanhando meu alcoólico a um Grupo de Alcoólicos Anônimos (AA) – e tudo que eu mais queria era que ele fosse para o AA. Quando bebia, ele perturbava todo mundo, causava todo tipo de raiva e eu, ao mesmo tempo que amava, odiava aquela pessoa. Nunca soube que ele era um doente alcoólico, isto é, portador da doença do alcoolismo, e que eu também havia me tornado doente pela convivência com ele.
Depois de 15 anos convivendo com um alcoólico na ativa, após uma epilepsia alcoólica e depois que um membro de AA levou a mensagem a ele, finalmente ouvi a pergunta que tanto almejava: “Você vai comigo no Grupo de AA?” Acompanhei-o feliz da vida. Fomos abraçados, não porque era muito amor, mas porque ele quase não conseguia mais andar, pois os nervos estavam atrofiando em decorrência da doença.
Lembro-me bem daquele dia, era uma sexta-feira e um Grupo de Al-Anon funcionava no mesmo endereço do Grupo de AA, e as reuniões aconteciam todas segundas e sextas-feiras. Um membro de AA nos recebeu e me indicou a sala de Al-Anon, dizendo que lá era o meu lugar. Cheguei extremamente doente, desequilibrada, bem louca. Estranhei ao ver as pessoas que ali estavam todas alegres e sorridentes, sensações que eu já não me lembrava de como eram. Comecei a frequentar as reuniões de Al-Anon,não por mim, mas por ele – só queria que ele parasse de beber.
Fui às reuniões por uns dois anos, tempo esse que pensei ser suficiente, pois o meu companheiro estava firme em AA. Ele entrou de cabeça na programação. Começou a frequentar as reuniões regularmente, de segunda à segunda. No começo, achei tudo muito lindo, maravilhoso, meu alcoólico estava em AA. Eu não precisava mais do grupo, pois achava que ele já estava muito bem.
Depois de um tempo afastada do grupo de Al-Anon, a dedicação do meu companheiro ao AA começou a me incomodar. Antes era no bar, agora era todo dia no grupo. Para mim não havia tanta necessidade de ir todos os dias às reuniões. Ele falava que eu tinha que voltar para o Al-Anon, mas como boa familiar de alcoólico, eu entendia que não precisava do grupo. Até que um dia, todos os problemas de saúde que eu tinha antes do Al-Anon voltaram. Tique nervoso, insônia, ansiedade, etc.
Daí então eu voltei ao Al-Anon. Entendi que ali era meu lugar e fiquei. Dessa vez, não pelo alcoólico, mas por mim. Compreendi que talvez eu tenha ficado mais doente do que ele e que também precisava de recuperação. Aos poucos fui assimilando o programa, entendendo e aceitando minha impotência perante as coisas que não posso mudar, praticando os passos, os lemas e revivendo de novo. Tudo que eu queria era ter paz de espírito, e com a prática do programa eu consegui.
Com meu companheiro em AA e eu em Al-Anon, vivemos intensamente o programa. Conversávamos muito a respeito dos passos, tradições e conceitos. Tivemos a vida que pedimos à Deus.
No ano de 2019 o meu companheiro foi acometido por uma doença terrível, foi diagnosticado com câncer no esôfago. Durante todo o período da doença, que foram dois anos e oito meses, vivenciamos muitas lutas: enfrentamos cirurgias, COVID-19, AVC e, por fim, metástase. Nessas batalhas, o programa sempre nos deu forças e condições para enfrentarmos tudo aquilo que não podemos modificar. Todos os dias, antes de dormir, fazíamos juntos com ele a Oração da Serenidade: eu, meus filhos e netos.
Uns três meses antes de nos deixar, ele me disse “aconteça o que acontecer, nunca deixe o Al-Anon, porque esse programa te ajudou a ser melhor.” Hoje, depois de três anos e três meses da sua partida, continuo em Al-Anon e vou permanecer lá porque o Al-Anon transcende a nossa vida e ganha um lugar especial na nossa alma. Ser Al-Anon vai além de ter um familiar/amigo alcoólico na ativa ou não. Ser Al-Anon é uma vivência, é diário. Serei sempre grata ao Al-Anon e ao AA que me proporcionaram uma vida melhor pelo caminho da recuperação.
* Vitória é nome fictício em respeito à tradição do anonimato

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online























