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ARTIGO

Cansaço emocional: o esgotamento da vida pós-moderna

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Vivemos numa época em que mais dispomos de recursos para facilitar a vida, mas, mesmo assim, nunca estivemos tão cansados. A tecnologia que avançou – máquinas de limpar, lavar, cozinhar, fritar, fazer pão, empacotar, aplicativos de todos os tipos e para as mais diversas finalidades –, prometeu economia de tempo e redução de esforços para a qualidade de vida, mas trouxe exatamente o contrário. Curiosamente, a frase que mais ouvimos é: “estou cansado”.

Nossos dias parecem curtos demais para um tempo que não nos permite desligar. E uma mente que nunca desliga é uma mente que está sujeita ao desgaste, ao esgotamento. Nem uma noite dormida por horas parece que nos descansa. E ao acordar, a constatação: “estou cansado”. Esse é o chamado cansaço emocional, um estado de esgotamento psicológico que vai muito além do simples cansaço físico. É aquela sensação de acordar sem energia, mesmo tendo descansado; de realizar tarefas automaticamente, mas sem entusiasmo; de perceber que qualquer pequeno problema parece grande demais para enfrentar. Aos poucos, deixamos de sentir prazer nas atividades que antes eram significativas e passamos apenas a sobreviver à rotina.

Do ponto de vista psicológico, o cansaço emocional é resultado da exposição prolongada a situações de estresse, pressão e sobrecarga, especialmente quando não existem oportunidades suficientes para recuperação. O organismo humano foi preparado para lidar com momentos de tensão, mas o problema surge quando o estado de alerta se torna permanente.

Vivemos conectados o tempo todo, acompanhados de um celular do despertar ao dormir, com notificações que chegam o tempo todo. As redes sociais criam a impressão de que todos estão produzindo mais, viajando mais, conquistando mais e vivendo melhor. Sem perceber, começamos a comparar nossos bastidores com o palco cuidadosamente editado da vida dos outros.

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Os estudos realizados sobre esse tema mostram que o uso intenso das redes sociais está associado ao aumento de sintomas de ansiedade, depressão, baixa autoestima e estresse psicológico. Muitos de nós já nos pegamos olhando a vida de alguém exposta numa rede social e comparando-a com a nossa, até mesmo invalidando nossas conquistas.

Outro aspecto importante é a cultura da produtividade. Vivemos em uma sociedade que valoriza pessoas ocupadas. Descansar passou a ser confundido com preguiça. Existe uma pressão silenciosa para produzir continuamente, responder rapidamente, aprender novas habilidades, estar disponível e aproveitar todas as oportunidades. O problema é que o cérebro humano não foi projetado para permanecer em alta performance durante vinte e quatro horas por dia.

Quando não respeitamos nossos limites, o organismo começa a emitir sinais. Surgem alterações no sono, dificuldades de concentração, irritabilidade, esquecimentos frequentes, sensação constante de preocupação, desânimo e perda de motivação. Em muitos casos aparecem sintomas físicos, como dores musculares, cefaleias, alterações gastrointestinais, queda da imunidade e fadiga persistente.

Nos atendimentos em psicologia é comum encontrar pessoas que acreditam estar apenas “cansadas”. Entretanto, ao aprofundarmos a escuta, percebemos histórias marcadas por meses ou anos de autocobrança excessiva, dificuldade para estabelecer limites, excesso de responsabilidades e pouca atenção às próprias necessidades emocionais.

Tudo isso somado a problemas familiares, conflitos conjugais, cuidado prolongado de familiares doentes, dificuldades financeiras, insegurança profissional, luto ou preocupações constantes, que também consomem intensamente os recursos emocionais de uma pessoa.

Claro que, muitas coisas não conseguimos controlar, mas uma delas é importante e cabe aqui uma revisão: dormir bem. A privação do sono, ou seja, quando dormimos pouco ou mal, compromete diretamente áreas cerebrais responsáveis pela regulação emocional, pela memória e pela tomada de decisões. Pessoas que dormem de forma insuficiente apresentam maior vulnerabilidade ao estresse, menor capacidade de lidar com frustrações e maior risco para transtornos de ansiedade e depressão.

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Existe ainda um fenômeno conhecido como fadiga decisória. Todos os dias fazemos centenas de escolhas, desde decisões simples até questões complexas relacionadas ao trabalho e à família. Cada decisão exige processamento cognitivo. Ao longo do dia, essa capacidade diminui, aumentando a sensação de exaustão mental e favorecendo respostas impulsivas ou evitativas.

Por vezes, temos dificuldade para reconhecer esses sintomas porque temos diversas obrigações na vida. Porém, emoções ignoradas não desaparecem, ao contrário, permanecem ativas no organismo. O corpo frequentemente expressa aquilo que a mente tenta esconder.

Não trate o cansaço emocional como uma falha de caráter nem falta de competência, mas como um sinal de necessidade de revisão de vida, reduzindo os excessos, dando melhor entendimento ao que se passa ao redor, sabendo dizer alguns ‘nãos’ e ‘sins’. Tal como um atleta precisa alternar treino e descanso para manter seu desempenho, nossa saúde emocional também depende desse equilíbrio.

É tempo de revisarmos nossa forma de viver para vivermos melhor. Não adianta dizer que antigamente funcionava de outro jeito. Nosso tempo é agora e é nele que precisamos mexer, rever as habilidades de enfrentamento necessárias para lidar com as exigências do nosso dia a dia, para ganharmos em qualidade de vida!

Elaine Ribeiro é psicóloga clínica e organizacional e colaboradora da Comunidade Canção Nova

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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