
No auge da pandemia de covid-19, o então presidente Jair Bolsonaro ironizava o uso de máscaras e desdenhava dos pedidos por vacinas. A cena, que ficou marcada na memória coletiva brasileira, foi o ponto de partida para o mestrando Robson de Oliveira Lelis, do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT (PPGECCO), reinterpretar uma das narrativas mais antigas e simbólicas da cultura ocidental: o Apocalipse.
A partir de referências bíblicas, jogos digitais e crises políticas reais, Robson desenvolveu a HQ “Os Quatro Cavaleiros: o imaginário e o apocalipse contemporâneo”, um ensaio visual que funde arte, teoria da comunicação e crítica social, disponível para download neste link. A obra nasceu como trabalho da disciplina de Comunicação Multimodal, fruto da parceria do PPGECCO com o Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) e ganhou forma a partir de um processo que mesclou observação pessoal e ferramentas digitais.

“A narrativa começou a se formar ali em 2020, quando, assim como no Apocalipse, parecia que os selos estavam se rompendo”, conta o autor. Primeiro com o negacionismo de Bolsonaro na pandemia, depois com a fúria de Trump nos EUA, a guerra da Ucrânia e a ascensão da figura do Zelensky”.
Robson associa Bolsonaro à figura do cavaleiro da Morte, evocando tanto a crise sanitária quanto o discurso de desprezo à ciência. Donald Trump surge como o Cavaleiro da Conquista, com sua retórica agressiva e ações que culminaram na invasão ao Capitólio dos Estados Unidos em 2021. Vladimir Putin, por sua vez, representa o Cavaleiro da Guerra, após a ofensiva militar na Ucrânia. Já Volodymyr Zelensky, presidente ucraniano, aparece como o cavaleiro da Discórdia.
“A escolha que veio de uma conversa informal com amigos e remete ao jogo Darksiders”, conta ao explicar a referência fundamental no seu processo criativo. “Eu sempre gostei muito da narrativa dos Quatro Cavaleiros, desde os jogos. Mas a ideia de fazer disso uma HQ veio mesmo de uma amiga, que me disse que esse imaginário daria uma boa história em quadrinhos”, explica.
Com formação em artes visuais e tecnologia da informação, o mestrando usa imagens selecionadas e tratadas digitalmente para construir a ambientação da HQ. A referência estética é diretamente inspirada na pintura O Grito, de Edvard Munch, que também aparece citada ao fim da obra, que é assinada em parceria com seu orientador, o professor doutor Ronaldo Santana.

A escolha não é gratuita. Robson enxerga na arte um instrumento terapêutico e necessário para lidar com os traumas coletivos vividos desde 2020, como pandemia, guerra, colapso ambiental, polarização política. “A arte é uma forma acessível de expressar angústias e de seguir em frente”, afirma.
Comunicação Multimodal
Para Pedro Pinto de Oliveira, professor doutor responsável pela disciplina, a experiência estética de comunicação multimodal da obra tem potência criativa e ousadia. “Criatividade na aplicação de conceitos de comunicação multimodal e ousadia para tratar de questões contemporâneas tão sensíveis e perturbadoras. Na verdade, a disciplina integrada, ECCO e PPGCOM, resultou em belíssimas discussões nas apresentações feitas em sala de aula pelos demais alunos”, afirma.
Como conta o professor, as turmas dos dois programas de pós-graduação tiveram também a oportunidade de ver diversas apreensões da pesquisa baseada em arte com o Seminário Internacional de Comunicação Multimodal que fez parte do conteúdo programático da disciplina. “O evento teve a participação pesquisadoras e pesquisadores do Brasil, Colômbia, Chipre, Estados Unidos, Portugal e Espanha”, destacou o professor que é também vice-coordenador do GT de Pesquisa em Comunicação Multimodal da IAMCR (International Association for Media and Communication Research).

























