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ARTIGO

Como adaptar clássicos para dialogar com os jovens de hoje?

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Os tempos atuais constituem enorme desafio para a pedagogia. O avanço da tecnologia e o amplo acesso aos celulares trouxeram um mundo de possibilidades, informações e entretenimento num mesmo aparelho, e essa ferramenta atrativa revolucionou comportamentos dentro da escola.

Os recreios tornaram-se menos barulhentos. Os grupos que antes se reuniam para conversar foram substituídos por indivíduos isolados, encostados às paredes com as cabeças abaixadas, olhos fixos nos celulares. Esse comportamento passou a ocorrer também nas salas de aula, gerando reações diversas por parte dos educadores.

Há aqueles que pretendem impedir sua utilização nas escolas, com base no entendimento de que ela impede a atenção dos alunos nos conteúdos, e há aqueles que defendem sua utilização como ferramenta pedagógica de auxílio no aprendizado.

Nesse contexto, o teatro apresenta-se como um poderoso instrumento que possibilita o desligamento do aluno desse “bem precioso” de forma natural, pois é uma atividade que estimula a expressividade, a criatividade e o trabalho em grupo. Enquanto estamos trabalhando os fundamentos da arte na educação, o foco é o ser humano, e isso interessa aos alunos. Tudo que nos é próximo nos interessa.

Contudo, se quisermos avançar além das aulas de teatro e desejarmos partir para uma tarefa mais elaborada, como a montagem de um espetáculo, os desafios aumentam. O ritmo da modernidade mudou. Qualquer foto tirada e postada na internet provoca aplauso imediato através dos “likes”, que geram sensação imediata de prazer e vão condicionando aquele que postou. Tudo isso em segundos. Então como fazer um aluno acreditar que, para ter o “like” de uma apresentação teatral, que são os aplausos ao final do espetáculo, ele terá que se dedicar durante vários meses?

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Nos ensaios de teatro, como na vida, nem todos os momentos são felizes e confortáveis. Um dia após o outro, vencendo os diferentes desafios que vão se apresentando, é que construímos um resultando final poderoso. Portanto, para que os alunos confiem seu tempo e energia num projeto assim, são necessárias duas coisas: comando seguro do professor e um projeto atraente para sua faixa etária. E um projeto cativante significa, necessariamente, a abordagem de temas relacionados com esses adolescentes, tratando de seus questionamentos, problemas e dramas.

Penso que não devemos ficar fixados na ideia de que as obras clássicas não podem ser adaptadas porque já estão acabadas. Se superarmos essa questão, estaremos livres para atingir o coração dos jovens. Para isso, a sugestão é que esses clássicos sejam adaptados ao linguajar da juventude, modificando determinados elementos e situações para que a história original fique mais próxima deles. Dessa forma, eles acabarão por entender que as histórias das peças, por trás daquelas palavras julgadas “antiquadas” e difíceis de pronunciar, são potentes.

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Neste sentido, desenvolvo há trinta anos um trabalho de pesquisa prática voltado para adolescentes, adaptando, montando, apresentando e debatendo histórias clássicas. Durante minha trajetória, percebi que essa estratégia provoca um efeito interessantíssimo: após dominarem e apresentarem os espetáculos feitos com as adaptações, os jovens atores, assim como seu público também adolescente, passam a se interessar não só por aquela história contada por eles, mas também por pesquisar a antiga história original.

Aos poucos vão perdendo o medo da leitura dos clássicos, o que constitui uma grande esperança de que eles se tornem adultos curiosos em conhecer as grandes obras da humanidade. Todo esse processo é trabalhoso, mas temos a alegria de perceber que, após cada dia de ensaio, o tempo passou de forma diferente, sem que ninguém se importasse com o Instagram.

Rodrigo Rangel é ator, educador, professor de teatro e autor do livro “O amor de Pedro e Inês e outras peças incríveis para jovens”

Foto: Marilha Galla

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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