Tem muito candidato e até candidatas que resistem em pautar nestas eleições o debate sobre feminicídios e a violência doméstica em Mato Grosso, o estado campeão em matança de mulheres. Embora Mato Grosso registre índices alarmantes, tem candidatos e candidatas que fogem desta discussão de interesse público como o diabo foge da cruz. A verdade: 1) não têm propostas para mudar o estado de coisas; 2) não têm preocupação e interesse porque o assunto não movimenta o balcão de negócios políticos e 3) não têm compromisso com a vida das mulheres.
- O asfalto não é mais importante do que a vida de uma mulher
Tradicionalmente, campanhas majoritárias no estado tendem a focar no “PIB regional”. O discurso político é frequentemente dominado por temas como o agronegócio, logística (estradas e ferrovias) e gestão fiscal. Para muitos estrategistas, esses temas são considerados “votos de opinião” mais amplos, enquanto a segurança pública focada no gênero é erroneamente tratada como uma “pauta de nicho” ou de assistência social, e não como uma questão estrutural de segurança e economia.
- A “Privatização” da Violência Doméstica
Ainda persiste na conveniência de candidatos e candidatas que fogem do debate a ideia de que a violência doméstica pertence à esfera privada (o antigo conceito de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”).
Risco Eleitoral: Políticos conservadores podem temer que, ao aprofundar esse debate, acabem entrando em tópicos sensíveis ao seu eleitorado, como a discussão sobre papéis de gênero ou a necessidade de intervenção do Estado na estrutura familiar.
Invisibilidade: Diferente de um assalto a banco ou do tráfico de drogas, que são crimes visíveis e “públicos”, a violência doméstica ocorre entre quatro paredes, o que facilita a omissão política sob o pretexto de que o Estado já cumpre seu papel apenas aplicando a Lei Maria da Penha.
- A Dificuldade em Apresentar Soluções Imediatas
Obras de infraestrutura têm resultados visíveis (uma ponte, um hospital). O combate ao feminicídio exige:
– Mudança cultural de longo prazo.
– Investimento em redes de apoio (casas de amparo, psicólogos, assistência social).
– Monitoramento constante.
Como não é um problema que se resolve apenas com “mão de ferro” ou policiamento ostensivo tradicional, muitos candidatos e candidatas preferem evitar o tema para não serem cobrados por soluções complexas que não geram dividendos eleitorais rápidos. Simples assim, a opção cínica pelo apagamento de uma questão grave que exige ação política urgente.
O Contraste com a Realidade
Essa postura de omissão dos candidatos e candidatas ignora o fato de que a violência contra a mulher impacta diretamente a saúde pública e a produtividade econômica do estado. Quando o debate é evitado, perde-se a oportunidade de discutir o orçamento real destinado às delegacias especializadas e a universalização de medidas protetivas em cidades do interior, onde o suporte costuma ser ainda mais escasso que na capital.
Enquanto candidatos e candidatas que preferem a omissão, a realidade está aí: com fatos, estatísticas e rostos de mulheres vítimas da violência. Reproduzo abaixo a matéria da jornalista Maria Klara Duque, do site Gazeta Digital deste sábado (02/05).
VIOLËNCIA CONTRA A MULHER
Mesmo com redução em abril, feminicídios crescem no acumulado do ano
O número de feminicídios apresentou queda em abril, mas os dados acumulados de 2026 acendem um alerta. O mês registrou 3 mortes de mulheres, metade do total contabilizado em março, que, até o momento, é o período mais violento do ano, com 6 casos.
Apesar da redução mensal, o cenário geral preocupa. De acordo com dados do Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), abril repetiu o mesmo número registrado no ano passado, quando também houve 3 feminicídios no período.
No acumulado dos 4 primeiros meses do ano, 2026 já soma 13 mortes, interrompendo uma tendência de queda observada nos anos anteriores. Em 2023, foram 13 casos entre janeiro e abril; em 2024, o número caiu para 12; e, em 2025, atingiu o menor índice da série, com 11 registros. Agora, os dados voltam a subir, igualando o patamar de anos anteriores.
Outro dado que chama a atenção é a baixa incidência de medidas protetivas entre as vítimas. Das 13 mulheres assassinadas neste ano, apenas 4 possuíam algum tipo de proteção judicial contra os agressores.
Para a promotora de Justiça Claire Vogel Dutra, o cenário revela falhas no sistema de proteção e, principalmente, a subnotificação dos casos de violência. Segundo ela, a maioria das vítimas sequer chegou a denunciar as agressões.
“O sistema de proteção muitas vezes é falho. A maior parte dessas vítimas que morrem não registrou boletim de ocorrência e uma parcela ainda menor chegou a pedir medida protetiva. São mulheres que estão sofrendo violência, mas não denunciam”, afirmou.
A promotora destaca que a rede de atendimento pode ter papel fundamental na identificação precoce desses casos. “Serviços de saúde, assistência social e até a escola podem perceber sinais antes que a violência evolua. Muitas vezes, a Justiça e a polícia não têm conhecimento, mas outros setores podem identificar e orientar essa vítima a procurar ajuda”, explicou.
Ela também reforça que o enfrentamento da violência doméstica não deve recair apenas sobre o poder público. “É uma situação complexa, que exige a mobilização de toda a sociedade. A rede de apoio é essencial, incluindo espaços como igrejas, onde muitas pessoas frequentam e podem receber orientação e incentivo para sair desse ciclo de violência”, pontuou.
Claire ainda destaca a importância de encorajar as vítimas a romper o silêncio. “Não se trata de incentivar a permanência em relações abusivas, mas de apoiar essa mulher a sair desse contexto e denunciar, quando estiver sendo vítima de um crime”, completou.
Os números evidenciam que, apesar da redução pontual em abril, o feminicídio segue como um problema grave e persistente, exigindo atenção contínua das autoridades e da sociedade.
(Maria Klara Duque)
























