De Festinger a João Cezar, entenda por que errar junto vira pedra angular do pertencimento social.
Vinte e um de dezembro de 1954. Uma seita nos EUA aguarda o fim do mundo. Os membros venderam tudo e largaram os empregos. À meia-noite, nada aconteceu. O planeta não explodiu. Qualquer um diria: é o fim da seita. Mas ocorreu o contrário. A líder Dorothy Martin anunciou que a Terra fora salva pela fé do grupo. E eles saíram às ruas para recrutar mais gente.
O psicólogo Leon Festinger estava infiltrado no grupo. Queria entender por que, quando a realidade esmaga a crença, o grupo não desiste — ele dobra a aposta. Festinger cunhou o termo “dissonância cognitiva” em 1956, no livro Quando a Profecia Falha. É a dor mental que sentimos quando fato e crença se chocam. A mente odeia essa dor. Então, ela mente, ignora ou inventa uma desculpa conveniente.
O problema é quando o erro é coletivo
Festinger descobriu três gatilhos que transformam o erro em teimosia grupal: Custo alto para voltar atrás: A pessoa já investiu dinheiro e reputação, ou brigou com a família. Admitir o erro significa aceitar a humilhação pública.
Bolha de apoio: Todos em volta confirmam a crença. Discordar vira traição. A dúvida morre antes de nascer.
Crença central: Não é um mero detalhe que falhou, mas o próprio motivo de o grupo existir. Se a crença cai, o “nós” acaba.
Resultado: em vez de rachar, o grupo ataca. Recruta mais, grita mais. Cada novo membro valida a tese de que “não estamos loucos”.
Do disco voador à guerra cultural
Setenta anos depois, o professor João Cezar de Castro Rocha, da UERJ, aplicou o conceito de Festinger à realidade brasileira. No livro Dissonância Cognitiva, de 2021, ele mostra que vivemos a mesma lógica da seita, mas transposta para a política. Desde 2013, diferentes espectros políticos criaram bolhas onde qualquer fato contrário vira “narrativa inimiga”. Impeachment, Lava Jato, pandemia, escândalo do INSS, Banco Master: cada lado inventou justificativas para não admitir contradições. É o clássico: “Meu político pode, o seu não”.
João Cezar chama isso de dissonância coletiva nacional. A diferença é a escala: a seita de 1954 contava com poucas pessoas; hoje, a seita é o feed do celular. Festinger estudou um grupo isolado. João Cezar analisa milhões de brasileiros trancados em bolhas digitais 24 horas por dia. O mecanismo permanece igual: quando a realidade não cabe na história que contamos sobre nós mesmos, não mudamos a história. Nós tentamos mudar a realidade.
Tem saída?
Festinger já avisava: ridicularizar ou humilhar só piora o cenário. O grupo se fecha ainda mais. João Cezar concorda. O único caminho é apontar a contradição sem ameaçar a identidade do indivíduo. Uma tarefa complexa. Afinal, como ambos demonstram, a mente prefere uma mentira confortável a uma verdade que destrua quem julgamos ser. A seita de 1954 não morreu em 22 de dezembro; pelo contrário, fortaleceu-se. E a nossa? Também. Porque, às vezes, admitir o “fui enganado” dói muito mais do que continuar enganado junto.
José Antônio Borges Pereira é procurador de Justiça da Especializada de Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























