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ARTIGO

Ditadura real

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Completei 15 anos um dia antes da edição do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, concedendo ao ditador de plantão, Costa e Silva, poderes extraordinários, como fechar o Congresso, cassar mandatos, suspender direitos políticos, habeas corpus e até censurar tudo que o desagradasse. Seis meses antes, o país havia assistido à Passeata dos 100 mil, no Rio de Janeiro. Me despedia de Rio Novo e da 4ª série do ginásio estadual, cujo uniforme era calça e casquete cáquis, camisa verde oliva, sapato e meias pretos e cabelo cortado a príncipe Danilo.

No início de 1969, já estava em Juiz de Fora, trabalhando como office-boy em escritório contabilidade e estudando à noite em colégio privado, graças a uma bolsa. Também não pagava pensão e morava bem no centro da cidade, o que me dava tempo para parar em bancas de jornais e ficar alguns bons minutos lendo as notícias expostas nas primeiras páginas. A manchete do dia já tinha ouvido de um pequeno jornaleiro. Normalmente, era sobre algum crime.

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A censura prévia, já prevista na Lei de Imprensa de 1967, ainda não se intensificara, mas não tardaria. Embora muitos já andassem “falando de lado e olhando pro chão”, um grupo de jornalistas decidiu desafinar o coro dos contentes e fundou o Pasquim. A primeira edição, com 28 mil exemplares, de 22 de junho de 1969, entrevistava Ibrahim Sued. “De leve”, porque o colunista social era amigo da primeira-dama Yolanda Costa e Silva.

Mas após algumas edições, como a de 20 a 26 de novembro, com a entrevista da atriz Leila Diniz, publicada na íntegra apenas com os palavrões substituídos por asteriscos, e com 117 mil exemplares vendidos, já não era bem digerido pelos militares. Dois meses depois, (Emílio Garrastazu) Médici assinou o Decreto 1077/1970 instituindo a censura a material “subversivo à moral e aos bons costumes”.

Mesmo assim, a “turma do Pasquim” continuou cutucando a onça com vara curta e um ano depois o caldo entornou com a publicação da sátira sobre o famoso quadro de Pedro Américo. A frase “Independência ou Morte” foi substituída por “Eu quero é mocotó”, em alusão à música de Jorge Ben (hoje Benjor) “Eu também quero mocotó”, apresentada pelo maestro negro Erlon Chaves e um coral de 50 homens e mulheres no Festival Internacional da Canção de 1970.

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Pois é! Por causa disso, todo o grupo passou quase quatro meses em cana, incluindo o autor da sátira, o cartunista Jaguar, falecido há oito dias aos 93 anos. O jornal resistiu. Nesse meio tempo, Millôr Fernandes (1923-2012) assumiu a editoria e contou com colaborações importantes como Antônio Callado, Glauber Rocha, Odete Lara, Rubem Fonseca e Chico Buarque, aliás único sobrevivente deste seleto grupo. “Apesar de você” foi lançada neste período, em compacto simples. Ao ser descoberta as “entrelinhas” por trás da letra, foi censurado e recolhido, sendo relançado apenas em 1978. Em vão, porque já se tornara hino da resistência. Ainda bem.

Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista

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