
Um estudo publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, disponível neste link, identificou níveis anormais de poluição atmosférica em três cidades do Pantanal mato-grossense: Cáceres, Poconé e Barão de Melgaço. Assinado por cientistas de instituições como Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Universidade de São Paulo (USP), a pesquisa foi realizada com base em dados de sensoriamento remoto de 2016 a 2021, considerando tanto Mato Grosso quanto Mato Grosso do Sul.
Foram analisadas as concentrações de poluentes como monóxido de carbono (CO), dióxido de nitrogênio (NO₂) e dióxido de enxofre (SO₂), além de carbono organico (OC) e carbono negro (BC), poluente atmosférico que contribui significativamente para as mudanças climáticas e que é indicativo da ação humana. “O carbono negro pode ser usado para rastrear as atividades antropogênicas responsáveis por sua formação em regiões remotas”, ressalta o estudo.
O estudo destaca que em 2020, ano em que as queimadas no Pantanal bateram recorde, em comparação com os anos anteriores, as emissões de CO aumentaram 29%, as de NO₂ subiram 31%, e as de SO₂ chegaram a 50% a mais. Partículas de carbono negro e carbono orgânico tiveram incrementos de 52% e 50%, respectivamente.
Em Cáceres, Poconé e Barão de Melgaço, as maiores concentrações foram registradas nos meses de agosto, setembro e outubro daquele ano, um comportamento inesperado para a região na comparação com o mesmo período em outros anos. Também se verificou que a concentração de carbono negro e carbono orgânico se espalha do oeste para o leste, cobrindo todo o Pantanal, e não tem origem natural (biogênica), mas sim antrópica.

O risco dos poluentes para a saúde humana
Um dos focos do estudo é mostrar também que a poluição gerada pelas queimadas tem efeitos graves na saúde pública por doenças respiratórias e cardiovasculares, além de causar danos à biodiversidade e ao solo. A falta de estações de monitoramento da qualidade do ar na região também é tida como preocupante por dificultar a adoção de medidas preventivas.
A exemplo, a SO₂, observado na pesquisa, é um gás solúvel e irritante que, segundo os pesquisadores, é um poluente acidificante que pode causar problemas no trato respiratório, especialmente em grupos de pessoas sensíveis, como asmáticos. Além disso, o dióxido de enxofre é um dos principais precursores da chuva ácida. “O SO₂ também é o principal gerador de outros poluentes na atmosfera, como partículas ultrafinas de ácido sulfuroso e ácido sulfúrico, que são prejudiciais ao meio ambiente”, explica o estudo.
Equipe multidisciplinar
O estudo foi conduzido por uma equipe multidisciplinar composta por pesquisadores de instituições de referência como USP, INPE, UERJ, USF e IFSC. A liderança é da engenheira Débora S. Alvim, da Escola de Engenharia de Lorena (USP), que coordenou a concepção, coleta e análise de dados, além da redação do artigo. Ela contou com a colaboração direta de Cássio Aurélio Suski, do Instituto Federal de Santa Catarina, responsável pela análise dos dados e revisão crítica.
Também participaram pesquisadores do Inpe Dirceu Luís Herdies, Silvio Figueroa e Simone Marilene da Costa, com contribuições na redação e revisão técnica do trabalho. A equipe inclui ainda especialistas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), da Universidade São Francisco (USF) e outros membros da USP, que contribuíram nas diversas etapas da pesquisa, do sensoriamento remoto à interpretação dos impactos ambientais e de saúde pública.

























