Pesquisar
Close this search box.
ARTIGO

Maio Laranja e a coragem de falar para proteger

Publicidade

O Maio Laranja é uma campanha nacional de enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. Mais do que uma cor no calendário, é um chamado para que famílias, escolas, instituições públicas, sistema de justiça, imprensa, igrejas, comunidades e toda a sociedade assumam, de forma concreta, a responsabilidade pela proteção da infância e da adolescência.

Como jornalista, professora, pesquisadora e mãe, venho defendendo que o enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes exige mais do que indignação. Exige informação, educação, políticas públicas, comunicação responsável e coragem coletiva para olhar para a raiz do problema.

Pesquisas sobre infância, mídia, educação e violência sexual, entre elas a dissertação que desenvolvi no mestrado, mostram que o modo como falamos sobre abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes não é mero detalhe. A palavra pode proteger, orientar, mobilizar, acolher e transformar. Mas também pode produzir medo, julgamento, silêncio e distanciamento das causas dessa violência. Esse é um ponto importante: não basta falar sobre violência sexual contra crianças e adolescentes. É preciso observar como dialogamos. Uma abordagem baseada apenas no susto, no escândalo ou na imagem de um agressor distante pode provocar medo e revolta, mas nem sempre ajuda a compreender por que essas violações continuam acontecendo.

Os dados atuais mostram que esse debate é urgente. Em 2024, o Disque 100 registrou mais de 657,2 mil denúncias de violações de direitos humanos no Brasil, crescimento de 22,6% em relação a 2023. Entre os grupos mais vulneráveis, crianças e adolescentes aparecem com 289,4 mil denúncias, o maior volume entre os públicos destacados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, com dados de 2024, também revela um cenário alarmante. O Brasil registrou 87.545 casos de violência sexual, o maior número da série histórica acompanhada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A maioria das vítimas tinha menos de 14 anos. Do total de ocorrências, 65% dos casos ocorreram dentro de casa. Quase metade dos agressores era formada por familiares das vítimas.

Leia Também:  O dever moral de respeito às mulheres

Esses dados nos obrigam a fazer perguntas difíceis: por que ainda não conseguimos proteger, de fato, nossas crianças e adolescentes? Por que tantas violações acontecem em ambientes que deveriam ser de cuidado? Por que ainda há tanta dificuldade em escutar crianças, acreditar em seus relatos e agir antes que a violência se repita? Por que esse tema ainda é tratado com tabu?

Os números também desmontam uma ideia perigosa: a de que o risco está apenas “lá fora”, no desconhecido, no estranho, no criminoso distante. Muitas vezes, o abuso sexual acontece em ambientes familiares, comunitários e institucionais. Por isso, proteger crianças e adolescentes não pode ser uma responsabilidade terceirizada apenas para a polícia, o Conselho Tutelar, a escola ou a Justiça. É uma responsabilidade coletiva.

O abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes não são cometidos, na maioria das vezes, por pessoas desviantes, psicopatas, mas sim por pessoas que deveriam cuidar. Geralmente o abusador é uma pessoa de confiança da família e se aproveita de situações em que a criança ou adolescente está vulnerável.

Pesquisas revelam que essas violências são sustentadas por relações de poder que envolvem famílias sobre silêncios; instituições sobre denúncia; discursos morais sobre corpos infantis e juvenis; uma sociedade que, muitas vezes, prefere não falar sobre sexualidade, limites, cuidado e proteção, mas se escandaliza quando a violência aparece.

É nesse ponto que a educação entra como caminho indispensável. Falar sobre corpo, consentimento, limites, proteção, respeito e violência não ameaça a infância. O que ameaça a infância é a insegurança, a dúvida, o medo e o abuso. A informação, quando adequada à idade, protege, assim como a escuta, a escola preparada, a família orientada e a comunicação responsável.

Crianças e adolescentes precisam aprender que seus corpos lhes pertencem, que ninguém tem o direito de violar seus limites, que segredo imposto por adulto pode ser sinal de perigo, que pedir ajuda não é culpa e que existem canais de proteção. Isso não deve ser tratado como tema proibido, mas como parte do compromisso de cuidado que adultos, instituições e políticas públicas precisam assumir.

Leia Também:  Autismo nas telas: quando a ficção conta o que famílias atípicas vivem na realidade

Cada agente social tem um papel. As famílias precisam criar ambientes de confiança, diálogo e escuta. As escolas podem preparar suas equipes para reconhecer sinais de violência, acolher relatos e encaminhar casos sem exposição das vítimas. O Estado deve garantir políticas públicas permanentes, fortalecer a rede de proteção e assegurar atendimento humanizado. Profissionais da saúde e da segurança pública precisam atuar com preparo técnico e sensibilidade. Igrejas, projetos sociais, grupos esportivos, culturais e comunitários que trabalham com crianças e adolescentes podem adotar protocolos de proteção. A imprensa e as redes sociais têm a responsabilidade de informar sem transformar a dor em espetáculo e provocar reflexões que mostram as raízes desse problema e não apenas as consequências.

Denunciar é fundamental. O Disque 100 é um canal nacional, gratuito e acessível para registrar violações de direitos humanos. Mas a denúncia deve vir acompanhada de prevenção, acolhimento, responsabilização, escuta qualificada e proteção continuada. Não adianta apenas perguntar por que a criança não falou. É preciso perguntar se havia adultos preparados para escutar.

O enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes passa pela denúncia, mas também pela educação, pela comunicação e pela transformação cultural. Porque uma sociedade que se recusa a falar sobre violência sexual não preserva a infância. Preserva o silêncio que permite a violência continuar. E o Maio Laranja precisa ser mais do que uma campanha de frases prontas. Precisa ser um compromisso de toda a sociedade.

Julianne Caju é cuiabana, jornalista, professora, mestra em Educação pela UFMT e doutora em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

Publicidade

Publicidade

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com o Deputado Estadual Wilson Santos

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com Valdinei Mauro de Souza