Em Mato Grosso, estimativas baseadas em dados do IBGE apontam que cerca de 150 mil mulheres convivem com um transtorno hormonal e metabólico sério. O problema é que mais de 100 mil delas (70%) nem sabem que têm a doença, pois a ausência de sintomas “clássicos” e falhas na identificação acabam atrasando a descoberta. Esse cenário deve mudar depois que um consenso internacional decidiu trocar o nome da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), uma mudança que corrige a ideia equivocada de que a condição se resume a cistos no ovário ou a dificuldades de fertilidade.
“O ultrassom e o nome antigo atrasavam os diagnósticos”, alerta a médica Renata Bussuan, endocrinologista e coordenadora nacional de pós-graduação da Afya. “Muitas pacientes chegavam ao consultório dizendo que não podiam ter a doença porque o exame não mostrava cistos. Outras viam a imagem e achavam que tinham algo grave, mesmo sem nenhuma alteração menstrual ou hormonal”, explica a especialista.
Ela esclarece que as imagens de ultrassom, na verdade, mostram folículos normais em desenvolvimento e não cistos, que indicariam algo patológico. Por isso, com a nova nomenclatura, o exame deixa de ser o critério que define o diagnóstico. “O novo termo comunica melhor que se trata de uma condição que envolve diferentes hormônios e o metabolismo do corpo, e não algo restrito ao ovário”, afirma.
A atualização também ajuda a colocar em foco sinais que costumam passar despercebidos, como menstruação irregular, acne severa, excesso de pelos, queda de cabelo e acúmulo de gordura na região abdominal. A endocrinologista chama atenção especial para a adolescência, fase em que esses sinais costumam ser ignorados, e reforça que a ausência de excesso de peso não descarta o quadro.
“Existe a chamada apresentação magra da síndrome, em que a principal manifestação pode ser apenas a falha na ovulação ou alterações hormonais identificadas em exames de sangue. Ou seja, peso normal não é garantia de que não há risco metabólico”, avisa a médica.
Na maioria dos casos, a origem do quadro é a resistência à insulina. Para tentar controlar a glicose no sangue, o pâncreas passa a produzir esse hormônio em excesso, o que estimula os ovários a fabricar mais andrógenos (hormônios masculinos), criando um ciclo de desequilíbrio no organismo. Sem tratamento, a condição pode evoluir para pré-diabetes, diabetes tipo 2, colesterol alto, gordura no fígado, pressão alta e maior risco cardiovascular, além de espessamento da parede interna do útero causado pela falta de ovulação.
O tratamento da SOMP exige o trabalho conjunto de médicos, nutricionistas e profissionais de educação física. A especialista explica que os anticoncepcionais ajudam a regular o ciclo menstrual e a controlar sintomas estéticos, mas não resolvem sozinhos a questão metabólica.
“A abordagem precisa ser individualizada. Seja para regular o ciclo, controlar o peso, tratar a pele ou engravidar, a paciente precisa entender que não existe um remédio único e que a síndrome exige acompanhamento médico para a vida toda”, conclui a médica.

























