Pesquisar
Close this search box.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Mato Grosso aquece e perde chuvas em ritmo acelerado, aponta pesquisador

Estudos indicam aumento da temperatura, redução das chuvas e maior evaporação nos três grandes biomas do estado; impacto tende a se intensificar nas próximas décadas.

Publicidade

Mato Grosso aquece e perde chuvas em ritmo acelerado
Mato Grosso aquece e perde chuvas em ritmo acelerado (Foto: Gustavo Figuerôa/SOS Pantanal)

O estado de Mato Grosso tem enfrentado um cenário crescente de aquecimento e redução das chuvas, com impactos já perceptíveis nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal. A constatação é do professor Marcelo Sacardi Biudes, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que apresentou na última quarta-feira (26.06) evidências científicas de como o clima no estado vem mudando nas últimas décadas. A palestra, disponível na íntegra ao final desta matéria, fez parte do Ciclo de Palestras Wolfgang J. Junk 2025, organizado pelo Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal (INPP), em Cuiabá.

Biudes é professor titular do Instituto de Física da UFMT e coordena o Programa de Pós-Graduação em Física Ambiental (PPGFA). Ele atua em pesquisas sobre micrometeorologia, sensoriamento remoto e trocas de energia entre vegetação e atmosfera, além de se destacar na formação de recursos humanos e na participação em redes científicas nacionais e internacionais voltadas ao monitoramento ambiental e ao enfrentamento das mudanças climáticas.

Durante a apresentação, o pesquisador mostrou séries históricas que revelam uma tendência clara de aumento da temperatura média anual em cidades como Cuiabá. Segundo ele, os dados não se baseiam em modelos, mas em medições reais feitas em estações meteorológicas desde os anos 1980. “Estamos observando uma tendência de aumento de até 0,3ºC por estação seca, quer dizer, a cada 10 anos vai aumentar 3°C”, alertou.

Além da elevação da temperatura, os dados apontam para uma redução significativa na precipitação anual, especialmente durante a estação seca. Em áreas do Pantanal e do Araguaia, por exemplo, as chuvas podem diminuir entre 50 e 150 milímetros por década.

Marcelo Sacardi Biudes participou da nova rodada do Ciclo de Palestras Wolfgang J. Junk 2025, organizado pelo INPP.

Outro dado preocupante é o aumento da evapotranspiração, processo que combina a evaporação da água do solo com a transpiração das plantas. Imagens de satélite analisadas por sua equipe mostram que, mesmo em períodos úmidos, a vegetação está perdendo mais água para a atmosfera do que há duas décadas. “Se chove menos e evapora mais, o resultado é um ambiente mais seco e propenso a eventos extremos”, explicou.

As análises também apontam para uma intensificação das secas no estado. Utilizando um índice que mede tanto a precipitação quanto a perda de água por evaporação, o grupo de pesquisa conseguiu mapear a frequência e a intensidade das secas desde a década de 1970. As chamadas secas extremas, que não eram registradas até os anos 1990, passaram a ocorrer com mais frequência nos últimos 15 anos, com destaque para os eventos que atingiram o Pantanal entre 2019 e 2020. “Essas secas prolongadas são reflexo direto da mudança climática em curso”, afirmou Biudes.

O professor também abordou os fatores que influenciam o regime de chuvas no estado. Embora os fenômenos El Niño e La Niña, relacionados ao Oceano Pacífico, tenham impacto no clima global, ele apontou que, para Mato Grosso, o aquecimento anômalo do Oceano Atlântico tem sido mais determinante.

O desmatamento e a mudança no uso do solo também foram destacados como fatores que alteram o balanço energético e hidrológico dos biomas. Entre 2000 e 2016, cerca de 12% da floresta amazônica em Mato Grosso foi convertida em pastagem, e quase 7% em áreas agrícolas. No Cerrado, as perdas foram de 6% e 3%, respectivamente. “A superfície natural está sendo substituída por superfícies que retêm mais calor e liberam mais material particulado. Isso agrava ainda mais o aquecimento”, explicou.

Questionado sobre a possibilidade de reverter o quadro, Biudes foi direto. “Hoje chegamos a um ponto de irreversibilidade. A temperatura continuará subindo. O que podemos fazer é adotar medidas para reduzir os impactos e melhorar a qualidade de vida nas regiões mais afetadas”.

Entre as medidas possíveis, ele cita a conservação de nascentes, o reflorestamento urbano e o uso de tecnologias de monitoramento climático de baixo custo. No entanto, lamenta a falta de diálogo entre o meio acadêmico e os formuladores de políticas públicas. “Falta radar meteorológico em todo o estado. Tocantins e Mato Grosso são os únicos sem cobertura. Propusemos um centro estadual de monitoramento climático, mas não houve retorno efetivo. Ouvi de um deputado: ‘pra que, se eu tenho o aplicativo do Climatempo?’”, relatou.

A falta de articulação com o poder público, segundo ele, dificulta não apenas o enfrentamento das mudanças climáticas, mas também a formulação de políticas de saúde e planejamento agrícola. “Estudos como os nossos poderiam subsidiar o zoneamento agrícola e a gestão de recursos hídricos. Mas ainda há resistência política e desconhecimento técnico sobre a gravidade do que está por vir”, concluiu.

Confira a palestra na íntegra:

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

Publicidade

Publicidade

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com o Deputado Estadual Wilson Santos

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Informe Publicitário

Publicidade

NADA PESSOAL

Nada Pessoal com Valdinei Mauro de Souza