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ARTIGO

Mato Grosso: campeão nacional de feminicídios

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O Atlas da Violência 2026, divulgado na última terça-feira, 26, trouxe um grito de socorro. Trouxe a confirmação cruel de que o Brasil continua adoecendo suas mulheres, violentando suas meninas e assassinando mães, trabalhadoras, estudantes e idosas dentro de suas próprias casas, nos espaços públicos, nos ambientes de trabalho e até mesmo dentro das estruturas de poder que deveriam protegê-las.

E Mato Grosso aparece novamente como símbolo nacional dessa tragédia.

Nosso estado lidera, pelo segundo ano consecutivo, o ranking nacional de feminicídios. São 2,5 mulheres assassinadas para cada 100 mil mulheres. Um índice brutal, vergonhoso e incompatível com qualquer sociedade que se pretenda civilizada.

Mas talvez o dado mais revoltante esteja na violência racializada que atravessa o corpo das mulheres negras mato-grossenses. A taxa de homicídios de mulheres negras em Mato Grosso saltou de 20,2 em 2014 para 44,1 em 2024, um crescimento estarrecedor de 118,3%.

Isso significa que a mulher negra em Mato Grosso vive hoje em condição muito mais vulnerável do que há dez anos. Significa que gênero, raça e desigualdade social se encontram no mesmo corredor da morte.

O Brasil registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável em 2024. Desses, 67.204 foram classificados como estupro de vulnerável, ou seja, crimes cometidos principalmente contra crianças e adolescentes. E os pesquisadores alertam que a realidade é muito pior: estima-se que o país tenha mais de 822 mil estupros por ano, mas apenas 8,5% chegam ao conhecimento da polícia.

Os dados mostram também os diversos tipos de violência sofridos diariamente pelas mulheres brasileiras: violência física, psicológica, sexual, patrimonial, moral, negligência, abandono, violência doméstica e violência institucional.

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E o mais assustador é perceber que essas violências não estão restritas às periferias pobres, como parte da sociedade ainda insiste em acreditar.

A violência doméstica também mora nos condomínios fechados, nos bairros nobres, nos apartamentos de luxo, nos gabinetes públicos, nos órgãos de poder e nos espaços ocupados pelas elites econômicas e políticas. Ela é praticada por trabalhadores humildes, mas também por empresários, autoridades, agentes públicos e ocupantes de funções de comando.

Em muitos casos, a violência é abafada pela influência social, econômica ou política do agressor. Mulheres silenciam porque sabem que enfrentarão não apenas o agressor, mas estruturas inteiras de proteção masculina construídas dentro do poder.

É impossível aceitar que alguém que agride mulheres continue ocupando função pública como se nada tivesse acontecido. Quem pratica violência doméstica rompe o compromisso mínimo com a dignidade humana e não pode permanecer representando o Estado, exercendo autoridade ou tomando decisões sobre a vida da sociedade.

Outro dado aterrador mostra que 66,2% das mulheres atendidas pelos serviços de saúde relataram episódios repetidos de violência. Ou seja: o feminicídio raramente surge do nada. Antes da morte houve ameaça, medo, humilhação, controle psicológico, espancamento, violência sexual, perseguição e pedidos de ajuda ignorados.

E mesmo diante desse cenário devastador, Mato Grosso segue sem qualquer grande articulação institucional capaz de enfrentar a tragédia.

Os poderes permanecem fragmentados, dispersos e acomodados. Executivo, Judiciário, Ministério Público, sistema de segurança, municípios e demais instituições seguem atuando sem coordenação ampla, sem integração efetiva e sem um grande pacto estadual permanente de enfrentamento à violência contra as mulheres.

Comportam-se, muitas vezes, como se nada estivesse acontecendo.

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Enquanto isso, mulheres continuam morrendo.

O Atlas da Violência 2026 denuncia também o crescimento da cultura misógina, impulsionada por grupos extremistas digitais ligados à chamada “machosfera” e ao universo “red pill”, que propagam discursos de ódio, inferiorização e desumanização feminina. O machismo deixou de ser apenas cultural. Tornou-se organizado, radicalizado e potencializado pelas redes sociais.

Quando uma sociedade naturaliza piadas violentas, humilhações, controle sobre o corpo feminino, perseguições emocionais e ataques à autonomia das mulheres, ela começa a construir lentamente o ambiente social que permite o feminicídio.

E Mato Grosso parece caminhar perigosamente nessa direção.

Se nada for feito para conter esse ímpeto machista que agride, estupra, humilha e assassina mulheres, torna-se previsível que nosso estado se transforme, em curto espaço de tempo, em um território onde meninas já nascerão destinadas estatisticamente à violência.

Hoje, muitas mulheres em Mato Grosso já não têm segurança em casa, no trabalho, na rua, nas escolas, nos espaços públicos ou dentro de seus próprios relacionamentos.

Isso não é apenas um problema de segurança pública.

É uma falência moral coletiva.

É o retrato de uma sociedade que continua permitindo que mulheres sejam tratadas como propriedade, objeto de controle ou alvo descartável da violência masculina.

O Atlas da Violência 2026 deveria provocar indignação nacional. Mas em Mato Grosso ele deveria provocar vergonha, revolta e mobilização imediata.

Porque enquanto os números crescem, vidas estão sendo destruídas.

E o silêncio institucional também mata.

Valdir Barranco é deputado estadual do Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso

Foto: Marcos Lopes/ALMT

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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