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DISPUTA PRESIDENCIAL

Medo da ascensão dos pobres influencia voto da classe média, analisa escritor

Autor de O Labirinto da Classe Média, Gilberto Kieling analisa como esquerda e direita disputam esse eleitorado e aponta o medo da ascensão dos mais pobres como uma das contradições do grupo.

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(Foto: Reprodução)

A disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais coloca novamente em evidência o comportamento político da classe média brasileira. Após um primeiro turno em que o candidato do PL recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista, os dois campos políticos buscam ampliar suas bases de apoio. A eleição está marcada para 25 de outubro, em um cenário no qual a abstenção, que atingiu 21,08% no primeiro turno, também representa um desafio para as campanhas.

Para o advogado civilista, escritor e professor Gilberto Kieling, o voto da classe média é marcado por contradições. Ao mesmo tempo que esse grupo prioriza questões econômicas, como renda e poder de compra, também manifesta, segundo ele, o temor de perder sua posição social diante da ascensão das camadas mais pobres.

Autor do livro O Labirinto da Classe Média, publicado pela Kotter Editorial, Kieling investiga a formação histórica desse segmento da população, suas relações com as elites econômicas e os desafios impostos pelas transformações no mundo do trabalho. Em entrevista ao PNB Online, o escritor analisou as estratégias da direita e da esquerda para conquistar esses eleitores, o avanço de posições conservadoras entre os jovens e a influência das redes sociais sobre o pensamento político.

PNB Online – Em seu livro, o senhor analisa a formação da classe média brasileira e suas contradições. Como essas características ajudam a explicar o comportamento eleitoral desse grupo?

Gilberto Kieling – Esse é o propósito do livro, justamente analisar a formação da classe média brasileira e suas contradições internas. Obviamente, na hora de elaborar o livro, não se tratava de analisar o voto propriamente dito da classe média. Mas o livro teve uma repercussão muito interessante, talvez pelo momento político e eleitoral que o Brasil atravessa. Naturalmente, a gente acaba voltando a questão da classe média para o voto nessa eleição majoritária deste ano.

PNB Online – O que mais pesa na decisão de voto da classe média brasileira?

Gilberto Kieling – A classe média normalmente tem um pragmatismo na hora do voto. Ela está preocupada com a inflação, com o poder de compra do seu salário, essas coisas mais pragmáticas mesmo. Dificilmente a classe média se envolve em questões mais filosóficas ou doutrinárias, como a ditadura, o fascismo ou a perda dos valores democráticos. Ela está muito preocupada com a questão da sua renda mensal.

PNB Online – O senhor também aponta que existe um medo da ascensão social dos mais pobres. Como isso influencia as escolhas políticas da classe média?

Gilberto Kieling – Existe uma contradição fundamental na classe média na hora de votar, que é a questão do medo intrínseco em relação à mobilidade social dos pobres. A classe média alimenta um medo permanente de que as classes mais desfavorecidas venham a ocupar o seu espaço.

Por isso, a gente vê na sociedade brasileira, não apenas hoje, mas na última década, uma reação a políticas sociais que teoricamente possibilitariam a ascensão dos pobres à própria classe média. Esse medo existe e influencia também, obviamente, o voto.

PNB Online – Como a direita procura conquistar o voto da classe média?

Gilberto Kieling – A direita normalmente tenta mobilizar a questão da pauta de costumes. Seguidamente, a gente vê na imprensa ou nos meios políticos discussões sobre o público LGBTQIAPN+, sobre a questão de raça, inclusive. Surgem pontualmente alguns casos acusando políticos de comportamento sexual disfuncional. Então, a direita normalmente tenta emocionar a classe média através da pauta de costumes.

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PNB Online – E qual tem sido a estratégia da esquerda para se aproximar desse eleitorado?

Gilberto Kieling – A esquerda tenta afirmar para a classe média que ela não é uma ameaça e que sua política, sua atuação administrativa, vai preservar a classe média em termos de padrão salarial, renda e nível educacional.

Existe esse choque das duas correntes majoritárias da política brasileira, esquerda e direita, em termos de tentar captar a simpatia da classe média. Porque a classe média tem, nós todos sabemos, um poder de convencimento da opinião pública. Ela influencia a opinião pública de um modo geral.

PNB Online – Essa disputa pelo apoio da classe média é uma característica recente da política brasileira?

Gilberto Kieling – Essa briga existe e também não é novidade. Ela sempre existiu há décadas na política brasileira.

A gente lembra campanhas mais no passado, por exemplo, do Jânio Quadros, eleito presidente, que atacava a corrupção dentro das esferas administrativas do país. Mais tarde, vimos Fernando Collor se eleger com uma pauta muito semelhante, alegando que iria exterminar os marajás na administração pública. Então, a corrupção é também uma pauta de costumes que a direita gosta de usar.

PNB Online – Como as transformações econômicas ao longo do século 20 contribuíram para a formação da classe média que conhecemos hoje?

Gilberto Kieling – A classe média, como analiso bastante no meu livro, se constituiu durante o século 20 a partir de transformações da economia. Uma economia que foi se modernizando, se tornando mais complexa, com as indústrias assumindo papéis mais complexos dentro da sociedade.

A própria administração pública do Brasil, que foi se constituindo a partir da década de 1930, com empresas estatais, e a complexificação da administração pública exigiram a formação de profissionais que hoje nós conhecemos como sendo a classe média: profissionais liberais, prestadores de serviço, técnicos, pessoal de nível médio e de nível acadêmico.

PNB Online – Atualmente, quais transformações mais ameaçam a estabilidade econômica e social da classe média?

Gilberto Kieling – Essa classe média hoje tem um temor intrínseco, que são as transformações que estão ocorrendo agora, como a inteligência artificial e a robotização dentro da economia.

Esse medo é latente, não é muito expresso ainda, mas já está sendo motivo de grandes interrogações. É o medo de que a classe média vá se reduzir em tamanho, em quantidade e em poder.

Recentemente, um pensador francês disse, de uma forma um pouco mais radical, que a classe média corre o risco de se tornar descartável. Porque todas as tarefas que hoje caracterizam os profissionais da classe média estão sendo assumidas gradativamente pela inteligência artificial e pela robótica.

PNB Online – Esse cenário também coloca em dúvida a capacidade das próximas gerações de manter o padrão de vida de seus pais?

Gilberto Kieling – A preocupação hoje da classe média é o seu futuro. Não tanto a sua preservação como categoria, como padrão de vida, mas o futuro. Será que os nossos filhos, nossos netos, terão um padrão de vida de classe média como o que ainda existe hoje? Essa é a grande dúvida no presente momento.

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PNB Online – Diante dessas transformações, a classe média brasileira tende a se tornar cada vez mais conservadora ou existe espaço para uma mudança de posicionamento político?

Gilberto Kieling – A classe média, na verdade, sempre foi conservadora, no sentido daquilo que eu mencionava no início: aquele medo, aquele temor de que as classes mais pobres venham ocupar o espaço da classe média.

O que nós estamos observando agora é uma aproximação da juventude com as pautas mais conservadoras, mais neoliberais, digamos assim.

PNB Online – O que explica essa aproximação dos jovens com posições mais conservadoras, especialmente em relação ao mundo do trabalho?

Gilberto Kieling – Aquela perspectiva que os nossos avós tinham de assumir uma carreira, uma profissão, e nela permanecer ao longo de toda a vida parece que está desaparecendo do horizonte dos jovens de hoje.

Eles estão assumindo um mundo que eu considero muito perigoso e muito inseguro. É aquele mundo do prestador de serviço mais autônomo, mais desvinculado de qualquer profissão estável, e que joga perigosamente com a insegurança jurídica da sua profissão.

Por isso, assumem pautas como, por exemplo, a terceirização do mundo do trabalho. O jovem, estranhamente, está apoiando essa terceirização, na esperança de que seja bem-sucedido economicamente, exitoso no mundo de hoje.

Me parece que está havendo um engano. Enquanto o mundo do trabalho vai pauperizando, vai se tornando insegura qualquer profissão, o jovem abraça essas teses neoliberais, mergulhando talvez num mundo muito inseguro para as próximas décadas.

PNB Online – As redes sociais contribuem para fortalecer essa visão de mundo entre os jovens?

Gilberto Kieling – Eu acredito que sim. As redes sociais têm criado, não apenas numa questão profissional, mas em muitas questões, um mundo de certa ilusão.

Por isso eu dizia que tem jovens que acreditam que o sucesso virá para eles e não para os demais. Então, a rede social, ao pregar uma ideologia neoliberal de que o êxito é individual e que individualmente nós podemos ser bem-sucedidos, e não coletivamente, cria um mundo onde projetos coletivos de sociedade desaparecem.

É um mundo meio fragmentado e, eu creio, empobrecido, porque as sociedades, ao longo dos séculos, foram construindo seu mundo civilizado através de projetos coletivos. Projetos de nação, projetos de povo, esforço comum.

Veja o caso, por exemplo, do que existe de aposentadoria no mundo hoje e no Brasil. É um projeto solidário. Eu contribuo para a formação de um patrimônio, de uma riqueza, que vai beneficiar as gerações futuras. É um projeto solidário, eu contribuo para o futuro.

E parece que esse tipo de sentimento está desaparecendo. A internet e as redes sociais, que pregam o projeto de êxito exclusivamente individual, acabam com esses projetos coletivos. E o que o futuro nos trará é meio perigoso. Eu considero bastante nebuloso.

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