Piadas sexistas ditas em público por figuras da política, de qualquer matiz ideológico, tem o peso da cultura machista. A ignorância posta em liberdade pelo político, inclusive pela via do “humor”, continua sendo ignorância de toda a forma. Piadas sexistas que estimulam preconceitos contra as mulheres são o valor negativo que sustenta o desrespeito e legitima a ideia de que os homens podem falar ou fazer qualquer coisa com uma mulher.
Em Portugal o motivo da indignação é com o presidente da República (o país é parlamentarista, o presidente é um chefe de Estado, o governo é comandado por um primeiro-ministro) Marcelo Rebelo de Sousa. Um simpático senhor, querido pelos portugueses, que está sempre a sorrir e a falar na mídia.
O presidente de Portugal caminhava nesta última sexta-feira (15) entre a comunidade portuguesa em Toronto, no Canadá, quando encontrou mãe e filha portuguesas, com quem teve o seguinte diálogo.
— A filha é mais bonita do que a mãe (Presidente).
— E somos as duas Marias (Mãe).
— Mas a filha ainda apanha uma gripe. Já viu bem o decote? (Presidente)
A menção ao decote da jovem causou um legítimo furor da oposição à esquerda ao presidente de direita, com cobranças de pedidos de desculpas.
Marcelo Rebelo de Sousa, que deitou o olhar no decote da jovem, fez uma piada sexista que na mídia portuguesa virou um “não-assunto”. De forma geral, os jornais e as redes de TV preferiram poupar o velho presidente do seu comentário machista.
O presidente é uma figura pública que aparece todos os dias na televisão falando sobre tudo, da política ao futebol. Esta super exposição mediática pode causar situações como essa no Canadá. Rebelo é um alvo da esquerda e também da extrema direita portuguesa, como partido Chega, o bolsonarismo na versão lusa. O Chega tem uma cobrança específica: cobra incessantemente que o presidente derrube o governo socialista do primeiro ministro António Costa e convoque novas eleições.
Em óbvio, portanto, no caso da fala sobre a roupa da mulher, só a esquerda criticou e cobrou um pedido de desculpas. A extrema direita não se ocupa destas questões de respeito às mulheres. Vide o histórico do ex-presidente Jair Bolsonaro e sua preferência em atacar verbalmente as mulheres.
Entre as falas agressivas de Bolsonaro e o comentário aparentemente “ingênuo” de Rebelo de Sousa está a relação entre fatos e valores. Ambos homens políticos, seja de forma virulenta ou suave, falam publicamente das mulheres como sendo “objetos” de posse.




















