Um jornal brasileiro descreveu recentemente as eleições presidenciais portuguesas como as “mais polarizadas das últimas décadas”. “Há um descrédito generalizado que pode gerar rebeldia nos eleitores: a polarização marca a segunda volta das presidenciais”, lia-se, quase em simultâneo, num dos nossos principais semanários. A explicação surge quase sempre pronta: a culpa é dos políticos, dos partidos, das ideologias. E é verdade, até certo ponto.
Ainda assim, há um elemento menos visível, mas decisivo, que ajuda a compreender este fenómeno. Por polarização entendamos o momento em que deixamos de discutir ideias e passamos a organizar-nos em lados que já não se escutam. A televisão contribui para este processo, mas é no telemóvel que ele se intensifica e se torna permanente, ao reorganizar a forma como somos expostos às opiniões dos outros. É, por isso, este ecossistema que importa compreender. E ele funciona segundo regras próprias – pelo menos três.
Primeiro: nas redes aparece mais o que gera conflito. Um post calmo, com nuances, quase não circula. Já uma frase provocatória, simplista, ganha visibilidade instantânea. Segundo: as emoções fortes espalham-se muito mais depressa. A raiva, a indignação e o medo correm mais rápido do que uma explicação ponderada. A terceira regra diz-nos que, muitas vezes, reagimos antes mesmo de ouvir. Deixa de ser determinante o que está a ser dito e passa a importar sobretudo quem o diz. Se vem “do nosso lado”, aceitamos. Se vem “do outro”, rejeitamos de forma automática.
Este processo dá origem ao que a literatura designa como “bolhas de percepção”. Cada grupo passa a viver numa realidade digital distinta, moldada por um “menu automático” que nos serve sobretudo aquilo que prende a nossa atenção e que confirma os nossos preconceitos. Funciona como um espelho que mostra apenas um lado. Com o tempo, esquecemo-nos de que este espelho oculta pedaços inteiros do mundo.
É muito deste padrão que temos vindo a ver. Nos debates televisivos, dominados pela interrupção constante e pela gritaria; nas caixas de comentários, onde as posições extremas engolem qualquer tentativa de contextualização. Dependendo de quem seguimos nas redes sociais, a sensação é a de que vivemos em países diferentes. Percepções à parte, o que pode estar em risco é o próprio fundamento da democracia: a existência de uma realidade comum, que permite a uma sociedade discordar, negociar e, no fim, decidir coletivamente. Se cada grupo vive fechado na sua bolha de percepção, este chão desaparece.
Ainda assim, há sinais de que o ruído não esgota o espaço público. Mesmo em contextos altamente polarizados, continuam a surgir gestos de recusa do facciosismo e de defesa da moderação democrática – como quando personalidades de diferentes campos recusam extremos e convergem num candidato moderado. É isto que importa preservar. Porque, muitas vezes, para voltar a ver o todo, é mesmo necessário fechar a aplicação, levantar os olhos do ecrã e reencontrar o mundo em comum.
Gil Ferreira é professor e pesquisador do Instituto Politécnico de Coimbra, Portugal.

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