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Pense nisso

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Alguém pode dizer como a vida é? Ou simplesmente o que não é? As pessoas parecem personagens que se desenvolvem mascaradas por contextos de pensamento simplificado. Não há reflexão; a tentativa de pensar para além da superfície é travada pela pobreza da linguagem, pela incapacidade — ou pela recusa — de nomear com precisão aquilo que se vive.

Nos contornos das etiquetas e lisonjas, travam-se batalhas silenciosas pela sobrevivência de um eu amarrado, frequentemente humilhado pela necessidade de pertencimento, de acolhida, de aprovação. Não há mais tempo nem para ouvir, nos discursos sólidos e profundos, o som das palavras que deveriam ecoar no interior da consciência. Tudo se torna caricatura: compreende-se rápido, consome-se rápido, descarta-se rápido — e, nesse processo, prescinde-se do juízo crítico.

Essa compressão do pensamento não é casual. Como advertia Hannah Arendt, o perigo não reside apenas na maldade consciente, mas na incapacidade de pensar. A banalidade, nesse sentido, não é ausência de ação, mas ausência de reflexão. Quando o indivíduo deixa de dialogar consigo mesmo, torna-se facilmente seduzido por fórmulas simplificadoras que prometem sentido imediato, mas esvaziam a complexidade da experiência humana.

A linguagem, nesse cenário, desempenha papel central. Ludwig Wittgenstein afirmava que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. Quando a linguagem se empobrece, o mundo se estreita. Reduzem-se as nuances, desaparecem as ambiguidades, e com elas se perde a capacidade de compreender o outro em sua alteridade. O pensamento, sem linguagem adequada, torna-se raso — e o raso não sustenta a convivência humana em sua densidade.

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Há, também, um componente existencial nessa dinâmica. Jean-Paul Sartre já apontava que o ser humano está condenado à liberdade — e, portanto, à responsabilidade por suas escolhas. No entanto, a contemporaneidade parece buscar refúgio na negação dessa liberdade. Ao aderir ao conforto da mediocridade, o indivíduo abdica do esforço de pensar por si mesmo. Prefere a segurança da repetição à inquietação da reflexão.

Nesse contexto, a vida passa a ser vivida como representação. As máscaras não são apenas sociais; tornam-se internas. O sujeito já não distingue com clareza o que sente do que deve sentir, o que pensa do que lhe disseram para pensar. Friedrich Nietzsche alertava para o perigo das moralidades impostas, que transformam o indivíduo em rebanho. A ausência de reflexão crítica conduz à conformidade, e a conformidade, embora confortável, é profundamente empobrecedora.

O resultado é uma sociedade que se comunica muito, mas se compreende pouco. As palavras circulam em excesso, mas rareia o silêncio necessário à escuta. E sem escuta não há encanto. Martin Buber ensinava que a relação autêntica com o outro — o “Eu-Tu” — exige presença, atenção, abertura. Nada disso é compatível com a pressa e a superficialidade que marcam o tempo presente.

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Recuperar a profundidade do pensamento não é tarefa simples. Exige, antes de tudo, disposição para o incômodo. Pensar dói porque desmonta certezas, expõe contradições, exige responsabilidade. Mas é precisamente nesse desconforto que reside a possibilidade de uma vida mais autêntica. Se não se aquieta para ouvir um belo discurso, deleitar-se nos ensinamentos, na colocação e sentido das palavras, a simplificação da vida acaba se impondo.

Talvez não se possa afirmar, com precisão, o que a vida é. Mas pode-se, ao menos, recusar aquilo que a reduz: a superficialidade, a pequenez, a linguagem empobrecida. Pensar, afinal, é uma forma de resistência. E, em tempos de simplificação, resistir pode ser o primeiro passo para voltar a existir com densidade, sabendo ouvir, com paciência e atenção, as palavras manifestadas nos discursos memoráveis.

É por aí…

Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) é da Academia Mato-Grossense de Letras (Cadeira 7) e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT (Email: [email protected]).

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

 

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