Morreu no fim da manhã desta terça-feira (13.08), aos 80 anos de idade, um dos mais experientes jornalistas e publicitários de Mato Grosso: Mauro Cid Nunes da Cunha – o Mauro Cid. Ele estava internado desde o fim de semana em decorrência de uma pneumonia.
Cuiabano, ele acumulou uma vasta experiência como jornalista e publicitário. Era formado também em Direito. No governo José Fragelli, foi chefe da Casa Civil. No início da década de 80, ele fundou a MCA, para muitos a primeira agência de propaganda de Mato Grosso. Em 1984, assumiu a Secretaria de Comunicação do então governador Júlio Campos.
Mauro Cid também ficou conhecido por profissionalizar as campanhas políticas no Estado. A vitória de Frederico Campos à prefeitura de Cuiabá, contra Roberto França, que era o grande favorito do pleito, foram creditados ao setor de marketing.

Na década de 90, Mauro Cid seguiu com a MCA, mas a vida tomou um rumo diferente. Durante a campanha para governador de 1994, em que ele trabalhava para Osvaldo Sobrinho, Mauro teve um infarto. A partir de então decidiu desacelerar um pouco da agência, focando mais nas campanhas políticas.
Em 1998, Duda Mendonça foi contratado por Dante de Oliveira para ser o marqueteiro da campanha à reeleição do então governador. Duda só fez um pedido: “quero Mauro Cid na minha equipe”. E então, foram vitoriosos naquele ano.
De lá para cá, fez a eleição de Serys Slhessarenko para o Senado Federal; foi secretário de Comunicação da Câmara Municipal, sob gestão de Júlio Pinheiro; e secretário de Comunicação da Prefeitura de Cuiabá, sob gestão de Chico Galindo. Desde 2015, Mauro Cid decidiu dar um tempo de trabalho e estava curtindo a família.
Mauro deixa quatro filhos – Gustavo, Joana Carolina, Fernanda e Humberto Frederico -, e sete netos – Frida, Guilherme, Valentina, Maitê, Alice, Luna e lisa.

Entrevista ao PNB Online
Há pouco mais de um ano, Mauro Cid concedeu uma entrevista ao PNB Online. Era o reconhecimento do site à trajetória profissional de Mauro Cid, que contou momentos marcantes de seu trabalho. A entrevista virou um depoimento histórico e de referência para quem trabalha com comunicação política e para os novos políticos.
Confira abaixo a íntegra da entrevista:
Julia Munhoz: Em que momento da sua carreira você decidiu que queria trabalhar com comunicação e marketing político?
Mauro Cid: Olha, é uma coisa até curiosa. Eu sempre gostei do marketing político. Eu morei 19 anos no Rio de Janeiro e trabalhei lá. Houve um período que eu saí do Rio de Janeiro e fui para o Paraná, para Curitiba. Inclusive, foi em Curitiba que eu fiz meu curso de jornalismo, na PUC. E eu fui para Curitiba para trabalhar com o candidato a governador, senador Afonso Camargo. Eu fiz parte da equipe dele. Afonso Camargo, grande pessoa, grande figura, foi uma inspiração pra mim. Foi a minha primeira campanha. Ele perdeu a eleição.
E no Rio de Janeiro eu trabalhava na Agência de Publicidade Thompson e não mexia com política, trabalhava como publicitário, como redator. E por conta dessa campanha que eu fiz em Curitiba, eu tive vários convites para permanecer no Paraná, mas eu disse não e queria voltar para o Rio. Então eu voltei para o Rio trabalhando no Jornal do Brasil. Meu pauteiro era Fernando Gabeira, que se tornou um grande amigo meu. Mas um tempo depois eu voltei para Mato Grosso. Meu irmão sofreu um acidente na época e eu voltei.
Julia Munhoz: E quando você retornou para o Mato Grosso já foi atuando em campanhas eleitorais?
Mauro Cid: Quando eu voltei, trabalhei no jornal Estado de Mato Grosso, com o Pedro Rocha Jucá, que era o diretor. Ele foi viajar e eu fiquei cuidando do jornal. Pra você ter uma ideia, a primeira manchete esportiva do Estado de Mato Grosso foi quando eu estava dirigindo. Era um jogo do Mixto que tinha sido campeão. Aí eu dei na primeira página a vitória do Mixto. Os leitores adoraram. Uma das primeiras campanhas em Mato Grosso foi para prefeito de Cuiabá. Nós não éramos o favorito. Frederico Campos era um azarão na campanha.
Antero Paes de Barros: Mauro Cid, você foi coordenador de marketing de duas candidaturas importantíssimas em Mato Grosso. Roberto Campos, que era embaixador em Londres, mal falava o português, embora fosse filho do município de Livramento e veio para disputar a eleição ao Senado em 1982. Como foi fazer a campanha do embaixador Roberto Campos, candidato ao Senado, contra figuras históricas daqui como o ex-governador Garcia Neto e o ex-reitor da UFMT Gabriel Novis Neves?
Mauro Cid: Roberto Campos, que era mais londrino do que mato-grossense, mas ele era muito inteligente, então foi uma campanha deliciosa, porque ele tinha tiradas o tempo todo. E várias coisas que ele falava eu incorporava. Ele era muito inteligente, muito preparado. Roberto Campos foi uma referência.
Nós já até atualizamos muita coisa de Londres. Por exemplo, nós utilizamos até o fato dele naquela época ter o português com o sotaque total londrino. Nós fomos fazer um comício em Poxoréu e cadê o Roberto Campos falar a palavra Poxoréu. Ele falava Paxoréu. Tudo, menos Poxoréu. E ele elevou o nível da campanha política em Mato Grosso com a candidatura dele. É uma pena que nós não aproveitamos muito o Roberto. Ele morreu cedo depois que foi senador. Mas para nós, que fazíamos a campanha dele, foi uma delícia, não teve nada de complicado.
Foi a primeira grande campanha que eu fiz com uma equipe fantástica também. E conseguimos derrotar, como Antero fala, nomes já tradicionais. Poucos acreditavam que ele conseguiria a proeza de chegar de Londres, desembarcar no Rio de Janeiro e no dia seguinte estar fazendo comício em Poxoréu, Poconé. O diferencial eu acho que foi por nós podermos usar ele da maneira que ele era. Até o sotaque. Eu me lembro que fizemos uma peça publicitária ele e a rainha da Inglaterra, Elizabeth. E essa fotografia que fizemos dele com a rainha foi o maior sucesso. As pessoas pediam. Foi o maior sucesso da campanha.
Antero Paes de Barros: E a candidatura de Júlio Campos ao governo de Mato Grosso? Foi muito atacado pela oposição e atacado até com acusações pessoais que eram dirigidas a ele e você teve uma sacada que colocou a foto do Júlio Campos, na época esse era o marketing, com cartaz nos postes, e você criou o Slogan “Júlio Campos, igual a você”. Então as pessoas falavam dos defeitos do Júlio Campos e olhavam lá, Júlio Campos, igual a você. Era igual quem estava criticando-o. Como foi a sacada do ‘Júlio Campos igual a você’? Você, Mauro, na minha opinião, foi indiscutivelmente um dos maiores marqueteiros da história de Mato Grosso.
Pedro Pinto de Oliveira: Mauro, diz a lenda que você criou o slogan da campanha do Júlio Campos ao governo de Mato Grosso em 1982 como contraponto aos ataques que ele vinha sofrendo porque seria homossexual. O próprio adversário ao governo, o padre Raimundo Pombo, do MDB, no seu último comício daquela campanha gastou o tempo dele apenas para chamar o Júlio de “veado”. Você criou o slogan, “Julio, igual a você” como uma forma de derrubar o preconceito homossexual à época?
Mauro Cid: Realmente essa campanha do Júlio tinha essa questão de as pessoas atacarem ele na sua pessoa. E nós começando a desenvolver as peças da campanha eu criei um slogan que era: “Júlio Campos, igual a você”. Esse ‘igual a você’ era uma pessoa simples, comum como todo o mato-grossense e ganhou uma dimensão incalculável. As pessoas pararam inclusive de atacar o Júlio graças a essa sacada que nós tivemos de dizer: “igual a você”. Tinham consultores da campanha do Júlio, que ele trouxe de São Paulo, se não me engano. Ele levou a peça querendo que as pessoas falassem e não teve ninguém que discordasse. Quando o Júlio falava o porquê daquele slogan, as pessoas, os publicitários, diziam que era isso mesmo: a grande defesa é o ataque e vai possibilitar que nós façamos uma contestação com essa frase. E fizemos música e um monte de coisas em cima dessa frase. Ele ganhou, foi uma campanha belíssima, difícil, muito difícil.
Eu sempre falo o seguinte: o produto define a campanha. Principalmente a campanha política. Você não constrói o produto, você não consegue tirar uma pessoa medíocre e transformá-la em uma pessoa vitoriosa em campanha política. Se ela não tiver seus pré-requisitos, pode até insistir, mas você não vai conseguir. Tanto é verdade que Júlio Campos está aí até hoje e cada vez mais reconhecido. Fez um governo vitorioso, saiu aplaudido e continuou a campanha dele. Eu me lembro que o Antero era uma das principais figuras de oposição ao Júlio e se o Júlio não tivesse os predicados de homem público e até de visão em romper Mato Grosso, se não tivesse feito isso, talvez não tivéssemos integrado todo esse Nortão.
Julia Munhoz: Em 1982 a sociedade era muito mais conservadora. Muito mais que hoje. Era muito mais difícil?
Mauro Cid: As pessoas maldosamente levavam essa questão do Júlio com a personalidade dele adiante daquilo que era verdade e nós usávamos também muito a figura da Isabel, os filhos. Sempre, em toda a oportunidade, mostrava ele com a família, pra antepor essa questão. Bom, como é que o um veado faz quatro filhos? E a professora Isabel é uma mulher fantástica. Ela foi fundamental na campanha do Júlio e durante todo o governo. Todo mundo sabia que a Isabel era uma figura forte durante o governo e pós-governo. Eu tenho uma passagem da Isabel que em determinado momento do governo eu tinha me separado e tinham mais três secretários que tinha se separado. A Isabel naquela época tinha festa no sexto andar do Palácio, no Alencastro. E a Isabel, a partir do primeiro baile, foi realizado lá na gestão do Júlio, que pegou todos nós separados e botou em uma mesma mesa e falou: aqui é o canto dos separados. Pouca gente poderia ter uma sacada dessa.
Julia Munhoz: Quando o senhor fala da importância da dona Isabel na campanha e no governo, a figura feminina dentro da política sempre foi importante? E pouco vista e valorizada?
Mauro Cid: é o que eu digo. Se você não tem predicados pessoais já desenvolvidos, não adianta tentar ser o que você não é. Vejo agora o exemplo da Janja, do Lula. Uma figura horrorosa. O Lula sempre teve na dona Marisa uma grande figura. A Janja ir de vermelho na coroação do Rei Charles foi demais. Então eu acho que hoje no caso das mulheres quem tem predicado está sendo valorizada. A esposa do vice Geraldo Alckmin é uma grande dama, que está sendo escondida propositalmente, para não deixar ela superar a Janja. Hoje no Brasil, de uma maneira geral, por exemplo, Fernando Henrique teve uma mulher sensacional, intelectual, fantástica. Quem a conheceu sabia que era uma pessoa de valor. A participação da mulher vai acontecer à medida em que houver valorização pessoal da mulher. Ela tem que ter o predicado, que ela traga para dentro do cargo.
Hoje a primeira-dama de Mato Grosso, dona Virgínia. Acho uma figura sensacional e o governador sabe que está perdendo muito pelo fato dela estar doente e ter se afastado um pouco da governança dele. Ela é uma pessoa que tem bagagem, ela fala com as pessoas e as pessoas a entendem. Então, seja homem ou seja mulher, quem tiver bagagem, quem tiver conteúdo vai se destacar. Quando eu vejo falar em cotas eu fico preocupado, porque não vai ser através da cota que você vai fazer alguém, não adianta. Vai se destacar quem tiver o conteúdo.
Julia Munhoz: Quando o senhor fala desse conteúdo ou dessa bagagem, qual a essência que o senhor entende que precisa ter para a política?
Mauro Cid: Primeiro é ter a sensibilidade de entender que a chefia é do marido. Você não pode atrapalhar o marido no que ele quer fazer. Não é ser submissa ao marido, mas não atrapalhar. É ter um limite. A Janja, por exemplo, ela interfere. Às vezes quer aparecer mais que o Lula e passou a ganhar a antipatia do partido deles. A bagagem que eu falo é a consequência da bagagem, o comportamento. O que vai acontecer vai depender exatamente disso. Antigamente se falava berço. A pessoa tem que ter berço, se não tiver berço não adianta.
Eu convivi com o governador José Fragelli. Antero conhece. A mulher do doutor Fragelli, dona Maria de Lourdes Fragelli, era uma dama na acepção da palavra. Ela tinha a bagagem de uma primeira-dama, ela tinha a origem, tinha berço. E fez com que ela se tornasse uma pessoa que auxiliou o doutor Fragelli durante todo o governo. Ela não atrapalhava, ela auxiliava. Dona Maria Lígia de Borges uma primeira-dama de conteúdo, bagagem. Doutor Garcia Neto deve muito ao que ela fez e faz. Está aí hoje auxiliando o neto dela, o Fabinho Garcia, que é deputado federal, tentando fazê-lo alguma coisa mais do que ser só deputado federal. Graças a ela e ao respeito que ela tem de toda a população cuiabana.
Antero Paes de Barros: Como foi a sacada do ‘Dante Sim, Dante Já!’? Porque a turma do Palma (Rodrigues Palma, ex-prefeito nomeado de Cuiabá e ex-deputado federal) e do Garcia Neto trabalhava “Dante não é agora, Dante é para governador”. E você sacou: Dante prefeito e já, porque ele era o homem das Diretas Já. Aí veio a música histórica tradicional: “Dante, sim. Dante, já. O futuro prefeito de Cuiabá”. Como é que foi orientar o Tadeu Vinagre (compositor, autor do jingle vitorioso da eleição de 1985) para fazer aquela música?
Mauro Cid: Dante, o último grande líder da política em Mato Grosso. Até agora não foi substituído e nem vai ser. O Dante sabia da força dele. Os que acompanhavam ele, sabiam da força dele, mas ele não conseguia, ainda no início, transformar tudo isso em uma vocação política eleitoral, não só política, mas eleitoral. A força eleitoral do Dante ainda não estava consolidada. Então, como nós estávamos em campanha, eu consegui, graças a Deus, antagonizar essa questão do futuro com o presente. Então a palavra mais importante dessa campanha era “já”. Não, Dante vai ser, Dante será. Dante era agora, era já. E colocar isso na cabeça das pessoas foi um pouco complicado. Graças a Deus entenderam.
E a música que se tornou a música refrão da campanha incorporou esse “Dante, sim. Dante, já”. São coisas que você, quando você está delineando a campanha eleitoral política, aquilo que vai ser a condução da campanha. Você tem que ter a sensibilidade de escutar mais de uma vez, às vezes uma frase, uma palavra. Isso você tem que andar na rua. Por incrível que pareça, quem te dá isso é a rua, o povo. Não é você marqueteiro que inventou.
Eu fui fazer uma campanha de Sinop para prefeito de Nilson Leitão. Ele era desconhecido, ninguém sabia quem era Nilson. Eu cheguei em Sinop eu provocava as pessoas falando que ele seria prefeito. E as pessoas diziam que não acreditavam, aí eu falava: “então você acredite, porque Nilson Leitão, acredite”. E a nossa palavra chave da campanha foi “acredite”. Fizemos toda a campanha “Nilson, acredite”. Se elegeu prefeito, teve uma campanha belíssima. É a mesma coisa do Dante, Já. Essa sensibilidade vem do povo.
Eu gosto de falar das campanhas que eu fiz, no sentido de que me deram retorno no sentido emocional. Por exemplo, tem uma campanha que eu fiz em Alta Floresta, com uma mulher que a cidade não acreditava nela. Nós ganhamos a eleição lá. Você acredita no candidato e o candidato acredita em você. Tem que ter essa sintonia. Se não tiver, você pode espernear e fazer o que você quiser. Antero é mestre nisso. Ele sabe das campanhas que ele fez se ele ia ganhar antecipadamente, ou não.
Pedro Pinto de Oliveira: O então governador Jayme Campos, em uma entrevista ao programa Terceiro Mundo da TV Gazeta disse que o governo dele foi muito melhor do que o governo do irmão, guardadas as devidas diferenças de contexto. Você trabalhou com o Júlio e conheceu o governo de Jayme. A afirmação do Jayme foi correta? O governo dele foi mesmo melhor?
Mauro Cid: Eu acho que Mato Grosso é abençoado de ter dois líderes políticos na estatura de Jayme e de Júlio. Mas eu acredito que Júlio não tem igualdade. Você não vai achar dois Júlios Campos. Júlio é mais povo, muito mais povo. O Júlio é mais sincero no sentido das colocações dele. O Jayme é mais aristocrático. O Jayme aprendeu a fazer política quando ele foi prefeito de Várzea Grande, a partir dali deslanchou. Eu aprendi a respeitar Jayme pelo processo de aprendizado que ele desenvolveu. Ele queria até se igualar a Júlio. Eu acho que foi por aí. Então ele se obrigou a ser um político bom. E o espelho que ele tinha dentro de casa era o Júlio. Hoje eu acho que o Jayme é o grande nome de liderança política que Mato Grosso tem. Ele conseguiu, ele venceu por ele, a insistência dele. Se comparar Jayme e o Júlio, ele vai perder, porque volto a repetir, Júlio é incomparável, incomparável. Quem conhece o Júlio e quem conhece Jayme separa muito bem isso. Quem é Júlio pode ser Jayme, mas quem é Jayme não pode muitas vezes ser Júlio.
Pedro Pinto de Oliveira: Mauro, o que há de melhor e pior na imagem pública e competência política destas personalidades: Lula? Bolsonaro? Mauro Mendes? Emanuel Pinheiro?
Mauro Cid: O que há de bom do Lula é a simplicidade. O que há de pior no Lula é querer ser o que ele não é. Ele está indo para um rumo que não é o dele. Querer ser uma pessoa culta, querer ser uma pessoa difícil. Ele não é difícil, ele é fácil. Você já sabe qual é a resposta do Lula lá na frente, mas hoje ele tenta ser difícil. Mas ninguém tira dele a popularidade, acho que a coisa mais forte dele é a popularidade.
O Bolsonaro foi um caso raro. Só visto aqui na época de Getúlio Vargas. Infelizmente a entourage do Bolsonaro não soube entender isso. Jogaram fora a grande oportunidade de nós termos comparações e a possibilidade de nós termos alternância para o poder. Transformaram ele em uma pessoa medíocre, transformaram ele em uma pessoa baixa. Quem conheceu pessoalmente, ou conhece o Bolsonaro pessoalmente se apaixona por ele. Quem vê Bolsonaro na televisão ou só falando não vai se apaixonar nunca por ele. Ele se torna medíocre, se torna completamente acéfalo e imbecil até em certas colocações dele. Mas ele tem uma força pessoal que é impressionante e foi isso que o levou à primeira eleição. Infelizmente essa assessoria dele não conseguiu sustentar essa imagem dele.
É difícil analisar o Mauro Mendes, muito difícil. Eu conheço Mauro Mendes das outras tratativas dele. A extensão dele, política, a força dele política eu não sei te dizer o que é que ele está pretendendo. Ele não é um político completo, nem terminado. Ele é um cara que está na trajetória dele. Como eu te falei, eu gosto de ouvir as pessoas, ouvir o povo. Então vejo unanimidade no Mauro Mendes, o que é bom por um lado. Vejo muita gente dizendo o seguinte: Mauro Mendes não teve adversário político até hoje. Ele nunca enfrentou alguém que pudesse tentar derrota-lo, mas isso é uma competência dele e significa que ele armou a assessoria para poder romper essa barreira. Eu acho que a trajetória do Mauro Mendes é uma trajetória de quem está sabendo fazer política com assessor, conquistando através da popularidade de pessoas a sua própria popularidade. É um mérito, isso é muito difícil de fazer.
E acho que Emanuel Pinheiro que era um grande político se perdeu exatamente na falta de assessoria. Ele quer ser mais popular do que o popularismo que pode levar a algum lugar.
Julia Munhoz: Em três momentos o senhor cita essa importância da assessoria. Qual a importância de uma boa assessoria para o político?
Mauro Cid: É fundamental. Uma boa assessoria é fundamental para um político que sabe ouvir muito. O que não sabe ouvir não adianta, você pode dar a melhor assessoria pra ele, que ele não vai saber distinguir. Temos exemplos em Mato Grosso. Dante sabia ouvir e por isso se tornou a grande liderança que ainda é hoje. Nacionalmente tem alguns nomes que tiveram sucesso porque souberam ouvir. A assessoria conduz o político, para o bem ou para o mal. Você saber construir uma assessoria e usar essa assessoria. Bolsonaro não soube fazer isso. Lula atualmente não sei se ainda é o mesmo Lula que sabia ouvir. No passado ele sabia ouvir, veio até aqui, porque soube ouvir a assessoria. O sucesso desse terceiro mandato depende de ele saber ouvir. Porque ele tem um vice que é o Geraldo Alckmin, que é um cara preparado. Então, se ele der espaço para o Geraldo Alckmin, Geraldo Alckmin toma o lugar dele. E o Bolsonaro falhou muito em termos de assessoria. Quem era o secretário de Comunicação do Bolsonaro? Não sei, nunca soube.
Julia Munhoz: Nesse contexto atual, hoje temos uma mudança muito grande nas campanhas eleitorais nas formas de comunicação. Como você avalia as mudanças na comunicação política nos últimos anos com as campanhas em redes sociais?
Mauro Cid: A única coisa que não mudou foi a compra de votos. Eu acho que essa digitalização da política hoje é muito ruim. E está pior nos Estados Unidos, isso está colocado de uma maneira muito clara. O eleitor americano hoje é revoltado e está cada vez mais revoltado e desagua na violência da rua. Acho que nunca a América viu manifestações como agora. A França nunca teve tanta manifestação contrária a governo como hoje tem. A Alemanha tem manifestações contrárias, grande, fortes. Então, a digitalização, pra ficar na palavra da moda, foi muito ruim para o marketing político, que não está se discutindo ideias. Não está se discutindo mais maneiras de fazer, formas de fazer. E o Brasil está em uma fase pior de todas. Nunca houve essa marginalização, essa diferenciação do preto e do branco no Brasil e hoje está acirrado. Criaram até o bolsonarismo. O Bolsonaro não tem essa grandeza, essa auréola toda para ele encarnar um sentimento de levar a população ou parte da população, nunca houve. E não sei o que vai acontecer.
Julia Munhoz: Quando você fala do empobrecimento da discussão política e das notícias falsas. Como o marketing contrapõe isso no digital?
Mauro Cid: A fake news, a política da mentira, é uma coisa que sempre aconteceu. Em política, se você não coloca os elementos dentro do mesmo caldeirão para depois de um certo tempo você mexer a colher e sair aquilo que você está esperando que saia, se não fizer isso, não tem sentido. Nós estamos perdendo essa essência. De deixar misturar. O sectarismo de hoje vai ser prejudicial lá na frente para o Brasil. Eu não tenho dúvida disso. Eu não convivo mais com as universidades, mas me parece que o jovem hoje perdeu a aspiração. Não está aspirando a mais nada.
Julia Munhoz: Nessa trajetória de 32 anos atuando na comunicação, no jornalismo e no marketing político, qual foi a grande lição?
Mauro Cid: Construa a sua história em primeiro lugar, não se paute só pelo que estão lhe dizendo. É muito importante que você construa sua história. E onde vai buscar inspiração? Exatamente nesse caldeirão que acabei de falar, começa por aí. É preciso ouvir, antes de falar, porque hoje a sociedade brasileira principalmente está ansiosa para falar, perdeu a capacidade de ouvir. Todo mundo sabe tudo. Você vai em uma reunião e cinco segundos depois alguém está levantando o braço, dando opinião sobre o que foi colocado, nem ouviu, nem esperou a conclusão. Esse afoitamento da conclusão eu acho que é uma coisa muito ruim. Então, para quem quer hoje fazer política, marketing político, comunicação, ouça. Pare e ouça. Você não sabe nada, então repita isso todo dia: Eu não sei nada. Quando você descobre a forma de fazer, depois que você ouvir, aí você começa a poder caminhar e vai ver que de fato não era bem o que você achava. Nós temos que continuar a construir, nós não sabemos nada. A desilusão não pode tomar conta da gente. Temos que acreditar todos os dias.
Julia Munhoz: Como que é ter seu filho seguindo sua trajetória?
Mauro Cid: Pra mim é um grande orgulho e ele é muito melhor do que eu. Falo com sinceridade, é muito melhor que eu. O Humberto é muito inteligente, então ele está pensando lá na frente. Eu sempre digo que ele precisa dar oportunidade para todo mundo acompanha-lo. Ele é ansioso (risos). Eu tenho muito orgulho dele e não influenciei em nada.
Eu tenho um outro filho que mora em Londres, o Gustavo também é da comunicação. Ele faz Cinema. Eu tenho quatro filhos e dois seguiram a mesma carreira.
























