
“Tá tudo dominado”. “Não vai dar em nada”. “Mauro Mendes manda e desmanda”. Estas são algumas expressões ditas sempre no senso comum pela população de Mato Grosso sobre as várias suspeitas de crimes de corrupção no governo Mauro Mendes (União). Há quase um consenso popular de descrença generalizada: nada será investigado a fundo, tudo será jogado para debaixo do tapete.
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Ou seja, há hoje um descrédito das instituições públicas do estado responsáveis pela fiscalização do dinheiro público. Um descrédito dos agentes públicos pagos pela população para defender os interesses da sociedade. A ação ou a omissão e a firmeza ou a leniência das instituições e de seus agentes, nesta quadra política, serão objeto de estudo de pesquisadores dos campos da história política, da comunicação e do direito. Aqui e agora, o que se espera é que entrem para a história pelo cumprimento dos seus deveres éticos, morais e legais.
Quando surge uma suspeita, grave, de corrupção, dentro do governo Mauro Mendes (União), há essa expectativa sobre qual será o comportamento dos agentes públicos concursados ou eleitos para fiscalizar o bom uso do dinheiro público.
Ação ou omissão? Firmeza ou leniência? As expressões de senso comum, “tá tudo dominado”, “não vai dar em nada”, “Mauro manda e desmanda”, serão transformadas, tristemente, em expressão de uma realidade? Decididamente, espera-se que não. Há certamente mulheres e homens honrados dentro destas instituições.
Já existem casos de denúncias de corrupção cuja investigações estão em curso, como o Escândalo da Oi e o Escândalo dos Consignados, além das denúncias relativas à Secretaria de Saúde. A sociedade aguarda o desfecho das investigações e os devidos desdobramentos legais.
Um governador, qualquer governador, não pode virar um imperador, e as instituições não podem ser rebaixadas a lacaios. O que está sob pressão e ameaça é a defesa dos princípios fundamentais de um estado democrático de direito. A submissão ao autoritarismo e à centralização excessiva de poder são um veneno que mata as instituições que tem a obrigação de exercer suas funções de forma independente e com transparência. Há necessidade de limites claros na governança e na manutenção da independência entre os poderes.
A NOVA SUSPEITA DE CORRUPÇÃO: A “MÁFIA”
Um áudio obtido pela reportagem do PNB Online revela mais um caso de suspeita de corrupção no governo Mauro Mendes (União). Um servidor não identificado conta, em conversa com outra servidora, que contratos no governo estão sendo superfaturados e que possivelmente servidores seriam beneficiados pelo esquema.
Na conversa, o servidor conta a uma colega que contratos firmados pelo governo seriam fechados em valor muito além do necessário. Ele cita, durante a conversa, que tem feito o que pode para “enxugar” os contratos, tentando reduzir valores que são considerados exorbitantes.
– Não teve superfaturação nesse contrato?
– Não, porque eu assumi.
– E o da Corrida de Reis, lembra?
– Da Corrida de Reis com certeza teve, mas eu não estava aqui, eu estava de férias.
O núcleo da movimentação suspeita, segundo os servidores, seria na Governadoria, órgão próximo do controle do governador. De acordo com os relatos, o superfaturamento ocorre nas requisições de serviços e produtos, como locação de som, tendas, contratação de pessoal para buffet e outras ações destinadas aos eventos do governo.
As requisições ocorrem em valor além daquele que é necessário para executar o serviço, de modo que a “sobra” do valor beneficie algum integrante do governo. No áudio, o servidor não revela quem seria o responsável pelos superfaturamentos.
Em seguida, o servidor relata outra suspeita de superfaturamento. Na conversa, ele também comenta sobre outro esquema, que consiste em fraudar diárias para receber valores a mais, mesmo sem realizar a viagem ou sem realizar todos os dias solicitados para viagem.
– Esse do Centro Espírita estava dando 300 e pouco mil e eu enxuguei para 200. Caiu tudo. Por isso que ele tá pegando na diária porque hoje em dia não tem mais evento por agora, entendeu?
– Entendi, entendi.
No diálogo, o servidor comenta que o esquema de diárias ocorre de maneira generalizada dentro do cerimonial e que há participação de todos.
– Puta merda, é uma máfia que tá ali, né
– Todos participam da máfia, todos, todos participam da máfia ali.
– Não, eu não, nem eu, nem você.
– Todos que eu estou falando é tirando nós dois, todos ali sabem, são coniventes.
Outro lado
A reportagem procurou a assessoria de imprensa do governo do Estado, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto.
*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e doutor em Comunicação pela UFMG.





















