
A vegetação nativa ao redor dos sítios arqueológicos de Mato Grosso encolheu mais da metade nas últimas quatro décadas. Em 1985, 68,4% da faixa de 100 metros ao redor dessas áreas estavam cobertas por formações naturais como florestas, savanas e campos. Em 2023, essa proporção caiu para 32,5%, segundo levantamento inédito divulgado nesta terça-feira (29.abr) pelo MapBiomas, em parceria com o laboratório BrazilLAB da Universidade de Princeton (EUA) e o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
A retração da vegetação natural foi puxada sobretudo pelo avanço da agropecuária, que saltou de 19,6% da área em 1985 para 37,6% em 2023. O crescimento deste uso da terra ocorreu de forma quase contínua ao longo do período analisado. A substituição da cobertura vegetal por pastagens e lavouras se intensificou a partir dos anos 2000, coincidindo com a interiorização da fronteira agrícola no estado.
Coordenado pelo MapBiomas, o estudo é o primeiro a fazer um mapeamento de longo prazo e em alta resolução do uso do solo ao redor de áreas arqueológicas em todo o país. Em Mato Grosso, ele abrange cerca de 790 sítios identificados pelo Iphan, muitos deles localizados em regiões que vêm sendo rapidamente transformadas por atividades humanas.
“O crescimento de atividades antrópicas ao redor dos sítios reforça a importância de políticas de conservação e gestão do patrimônio arqueológico brasileiro, especialmente frente às crescentes pressões sobre os biomas”, comenta Marina Hirota, cientista e professora da UFSC e do BrazilLAB/Princeton, que colaborou com os dados.
Em todo o país, o levantamento considera os 27.974 sítios arqueológicos cadastrados e georreferenciados oficialmente pelo Iphan, com destaque para os biomas Amazônia (10.197 sítios), Caatinga (7.004) e Cerrado (4.914). A Mata Atlântica concentra 4.832 sítios, o Pampa tem 904 e o Pantanal, 123.
A análise revela que, assim como em Mato Grosso, a vegetação nativa no entorno imediato dos sítios arqueológicos encolheu significativamente em escala nacional. Em 1985, 53,5% da faixa de 100 metros ao redor desses locais estavam cobertos por vegetação natural. Em 2023, essa taxa caiu para 41,5%. No mesmo intervalo, áreas antropizadas, como pastagens, agricultura e zonas urbanas, cresceram de 41,7% para 49,6%.
As mudanças também aparecem na composição do uso do solo. Florestas, que representavam 43,2% da área em 1985, deram lugar à agropecuária, que passou de 38% para 43,1% em 2023. Houve ainda aumento na presença de superfícies de água no entorno dos sítios, de 4,9% para 8,9%.
Proteção aos sítios arqueológicos
A legislação brasileira protege os sítios arqueológicos, mas especialistas alertam para a dificuldade de monitoramento e fiscalização, especialmente em áreas remotas ou sob forte pressão econômica. De acordo com o MapBiomas, a expectativa é que a nova base de dados sirva de subsídio para políticas públicas que articulem preservação cultural e conservação ambiental.
Evolução do uso do solo ao redor de sítios arqueológicos em MT (1985–2023)
























