*Esta reportagem utilizou nomes fictícios e sem gênero para não revelar a identidade das vítimas. Os verbos e adjetivos também foram alterados de maneira a evitar a identificação do gênero dos entrevistados. Essa pequena licença à norma culta da língua portuguesa é uma forma de respeitar a privacidade dos servidores, que temem perseguições e retaliações.
Era um dia trabalho normal, na última quarta-feira (06), quando Ariel* recebeu uma notícia surpreendente: sua exoneração do cargo para o qual nomeade na Prefeitura de Cuiabá. O mesmo aconteceu com Dominique*, exonerade sem receber explicações e de maneira abrupta.
Ariel e Dominique tem duas coisas em comum: os seus currículos são recheados de uma ampla formação acadêmica e profissional na área da Saúde e foram escolhides para seus respectivos cargos por conta de suas habilidades técnicas, Além disso, um curioso detalhe: assinaram uma nota de apoio à professora Maria Inês da Silva Barbosa, doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), que teve a fala suspensa pelo prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), no dia 30 de julho durante a Conferência Municipal do SUS.
A nota foi aprovada pelo Conselho Municipal de Saúde, órgão independente do município, que repudiu a decisão de Abilio de suspender a fala de Maria Inês depois que a doutora em Saúde Pública utilizou a palavra “todes” para se referir ao público da conferência. A expressão é considerada por pesquisadores de gênero como uma forma de tratamento igualitária entre diversas sexualidades.
A decisão de falar
A reportagem do PNB Online conversou com os profissionais que, por medo de represálias e perseguições, pediram sigilo de suas identidades.
Ariel, um dos demitides, relatou em off ter sido dispensade sem justificativa técnica, apenas com a informação de que a decisão partira do prefeito.
“Recebi a notícia da exoneração por meio de um print enviado por uma colega. Falei com as pessoas, ninguém sabia de nada. A resposta oficial foi apenas: ‘O cargo é do prefeito'”, contou Ariel. A exoneração foi publicada após o horário comercial.
“Eu sabia que assinar aquilo poderia ter consequências, mas não me arrependo. Jamais compactuaria com algo que fere meus princípios éticos”, disse.
Para Dominique, o que aconteceu foi uma clara demonstração de perseguição ideológica porque não houve justificativa plausível para o desligamento do cargo a não ser o fato de ter assinado a nota de repúdio.
“Eu me senti desrespeitade porque até então eu tinha toda uma programação da minha vida e do meu trabalho”, contou.
Dominique relata que não pensou que a censura a sua adesão à nota fosse tão descarada. Sua interpretação é de que a fala do prefeito de suspender o discurso da doutora Maria Inês foi uma atitude antidemocrática e desrespeitosa e foi por conta disso que resolveu deixar sua assinatura no documento.
“A gente espera alguma repressão por assinar a nota porque é óbvio que vem, mas não nesse nível, de não disfarçar, de ser tão claro o que aconteceu, não ter o mínimo de decência de arrumar uma justificativa, mas eu defendo os meus princípios e jamais aceitaria qualquer coisa nesse nível”, contou.
“Agindo como um déspota”
Para todes os servidores exonerados, Abilio age como um déspota contra aqueles que não concordam com o que ele diz. Ele teme sofrer mais perseguições e pede para não ser identificado.
“Eu tenho bastante medo, eu prefiro ficar no meu canto, continuar fazendo o meu trabalho porque a perseguição vai vir, eu sei que ela vai vir”, diz Dominque.
Os servidores exonerados também sofrem com a publicidade dada aos seus nomes, por conta da qual passaram a sofrer críticas nas redes sociais de apoiadores de Abilio.
“Muitas pessoas me atacam em comentários, me xingam. Infelizmente, o prefeito incita esse tipo de comportamento”, lamentou Ariel.”É emocionalmente desgastante esse processo, é muito cansativo”, resume Ariel.
Prefeito “foi atrás dos nomes”
Para o professor Reginaldo Araújo, autor da moção de repúdio contra Brunini e representante dos usuários do SUS no Conselho Municipal de Saúde, a decisão de exonerar servidores que assinaram o documento contraria a Resolucao 333 de 04.11.2003 do Conselho Nacional de Saúde que prevê a independência do Conselho em relação ao poder legislativo, judiciário e executivo.
“Eu fui informado que o documento, que fica arquivado nas memórias do encontro, foi entregue nas mãos do prefeito e o prefeito foi atrás dos nomes que assinaram o documento”, contou Rodrigo.
“A aprovação da nota foi por unanimidade porque os apoiadores do prefeito perceberam que iriam perder a eleição e se retiraram do auditório, ou seja, também não apoiaram Abilio na votação, não votaram contra”, afirmou Araújo, que também é coordenador do Curso de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
O que diz a prefeitura
A prefeitura de Cuiabá foi procurada pela reportagem, mas até o fechamento do texto não enviou nenhuma nota. O espaço segue aberto.





















