Vivemos de acontecimentos. E, no entanto, esquecemos o mais essencial: somos, antes de tudo, apenas seres humanos.
Ainda assim, insistimos em criar degraus onde não existem. Alguns se colocam acima dos outros por conta da riqueza, da aparência ou da fama — poderes frágeis, passageiros, que não elevam ninguém além da própria ilusão. Na essência, ninguém está um milímetro acima ou abaixo de ninguém.
O que vemos, cada vez mais, é o enfraquecimento da relação fraterna. Em seu lugar, cresce uma cultura silenciosa de classificação. A todo instante, somos medidos, rotulados, enquadrados: pela condição financeira, pelo nível intelectual, pela estética, pelo reconhecimento social. E, nesse processo, vamos esquecendo aquilo que deveria ser inegociável — a igualdade.
Uma pessoa com poucos recursos não vale menos do que um rei. O valor humano não se mede por cifras. Não por acaso, vemos tantas pessoas ricas materialmente e pobres emocionalmente, tentando preencher vazios com remédios, distrações e aparências, enquanto, sem perceber, restringem o próprio prazer de viver.
O preconceito, essa doença silenciosa, segue se espalhando. Está nas palavras, nos olhares, nas escolhas. Julgar pela aparência tornou-se um hábito automático — e perigoso. Porque, quando rotulamos, deixamos de conhecer. Quando separamos, deixamos de compreender. E, muitas vezes, ferimos — às vezes sem perceber, outras vezes por indiferença.
A vida é breve para quem sabe vivê-la e longa demais para quem perdeu o sentido de existir. E talvez este seja o grande paradoxo: enquanto buscamos acumular poder e status, deixamos escapar aquilo que realmente dá valor à vida — a sabedoria, os vínculos, a leveza de existir.
Há uma cobrança silenciosa por perfeição. Queremos acertar sempre, parecer sempre fortes, viver sempre dentro de um padrão ideal. E, nessa tentativa, acabamos nos aprisionando. Esquecemos que a vida é feita de imperfeições, de tentativas, de recomeços.
Enquanto classificamos e julgamos, deixamos de perceber algo simples e grandioso: existem milhares de motivos para sermos felizes, todos os dias. Mas eles passam despercebidos quando estamos ocupados demais comparando, separando e excluindo.
Talvez seja hora de rever o olhar. De trocar o julgamento pela empatia. De substituir a divisão pela compreensão.
Porque, no fim das contas, não vivemos de títulos, nem de aparências.
Vivemos de acontecimentos — e, principalmente, da forma como escolhemos sentir cada um deles.
Wilson Carlos Fuah é escritor, cronista e observador atento da vida política e social de Mato Grosso, é graduado em Ciências Econômica

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online























