Mato Grosso é o diagnóstico mais claro da falência entrópica brasileira. Em 50 anos, o estado converteu o maior estoque de baixa entropia do Centro-Oeste em alta entropia a preço de saca e arroba. É o que Andrei Cechin mostra em A natureza como limite da economia, traduzindo Nicholas Georgescu-Roegen: a economia não produz riqueza, ela a dissipa. Transforma ordem em desordem. Floresta em calor. Rio limpo em barro. Solo vivo em deserto.
A baixa entropia é a poupança da natureza. Amazônia, Cerrado, Pantanal: Mato Grosso tinha tudo. A alta entropia é a conta. E a conta chegou.
Luiz Marques chama esse processo de ecocídio, e Mato Grosso é o caso exemplar. O estado perdeu 40% de sua vegetação nativa em 50 anos. O Pantanal secou 29%. Os rios que nascem em Mato Grosso, na bacia Amazônica, viraram alvos de garimpo com mercúrio, como o Juruena, o Teles Pires e o Aripuanã. Só em 2025, 179 hectares foram abertos nas terras indígenas Aripuanã, Zoró e Sete de Setembro. A Fiocruz encontrou nove vezes mais mercúrio do que o limite seguro no sangue indígena. Além disso, 90% do ouro de Mato Grosso é ilegal.
Isso não é uma externalidade. É o projeto. O ecocídio ocorre quando o sistema econômico precisa matar o ecossistema para existir. Mato Grosso matou. Virou uma máquina de milho, soja, algodão e gado, liderando a produção nacional nos quatro segmentos. Tem 33 milhões de cabeças de gado. Cerca de 80% do desmatamento na Amazônia mato-grossense vira pasto.
Pasto degradado é alta entropia: solo exposto, erosão e emissão de metano. O algodão consome 25% mais água e 40% mais veneno que a soja. São 10 usinas de etanol de milho operando e 18 em construção. Tudo depende da safrinha e do boi. Em 2021, a safrinha quebrou e o estado travou. Sem água, nem o garimpo trabalha. A chuva de Cuiabá
vem da Amazônia. E a Amazônia é desmatada em Mato Grosso para plantar e criar bois que dependem da própria chuva da Amazônia. É um ciclo suicida.
O PIB de Mato Grosso mede a velocidade com que o estado queima essa poupança. A economia multiplicou por 15 vezes em 50 anos, enquanto o estoque derreteu. Georgescu-Roegen chamaria isso de suicídio entrópico. Hoje, 102 das 142 prefeituras dependem do Fethab. São R$ 3 bilhões do agro que viram asfalto para escoar mais agro. O Fethab taxa a soja, o milho, o algodão e o gado. É um imposto sobre a entropia: cobra pela tonelada e pela arroba que saem, mas não paga pela água que some.
A Noruega usou o petróleo para deixar de depender do petróleo. Mato Grosso usa a soja, o milho, o algodão e o gado para depender ainda mais deles. PIB é fluxo; riqueza é estoque. Em 50 anos, o fluxo bombou, mas o estoque de água e solo zerou. O estado exporta 50 milhões de toneladas de grãos, 2,5 milhões de toneladas de pluma de algodão e 600 mil toneladas de carne por ano. A soja carrega 1.500 litros de água virtual por tonelada; o algodão, 10 mil; a carne, 15 mil litros por quilo. São 120 bilhões de litros exportados em água virtual. A baixa entropia embarca nos navios. A alta entropia fica aqui: seca, calor e poeira.
Agora, a física encontra a geopolítica. A China compra 70% da soja, 35% do algodão e é o principal destino da carne de Mato Grosso. No entanto, o novo Plano Quinquenal chinês prevê cortar 40% da importação de grãos e fibras em cinco anos. A segurança alimentar virou soberania para eles; vão plantar e recompor o estoque interno.
Mato Grosso cresceu vendendo baixa entropia para um cliente só. O cliente avisou que vai embora, e a poupança local acabou. Quando a demanda chinesa cair, o preço desaba. Não haverá Fethab que segure. O rombo fiscal exporá o rombo ecológico. Prefeituras, fazendas e frigoríficos vão quebrar. O modelo vai colapsar.
Serge Latouche apresenta a saída em Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno. Decrescimento não é recessão; é um projeto político. É reduzir o fluxo de matéria e energia para recompor o estoque. Para Mato Grosso, isso exige três rupturas:
1 – Reavaliar a riqueza: PIB não mata a sede. É preciso criar um “PIB Entropia” para Mato Grosso que contabilize água, carbono no solo e biodiversidade. Se o estoque cair, o estado está mais pobre.
2 – Reconceituar o investimento: Usar 25% do Fethab (R$ 750 milhões por ano) para recuperação ambiental. É necessário zerar o desmatamento e o garimpo, além de recuperar 30 milhões de hectares de pastagens degradadas com a Integração Lavoura Pecuária-Floresta (ILPF). O estado deve pagar o produtor por água limpa e por arroba produzida em ILPF, banindo o algodão e o boi em áreas de recarga de aquíferos.
3 – Reestruturar a economia: Trocar as commodities pela bioeconomia. Hoje, ela representa apenas 3% do PIB, mas precisa virar 15%. Isso envolve fármacos do Cerrado, proteína de precisão, pecuária regenerativa e um mercado de crédito de carbono sério. Significa ganhar mais, queimando menos o mundo.
Latouche chama isso de “abundância frugal”. Marques define como parar o ecocídio. Cechin aponta para o respeito ao limite entrópico. Para Mato Grosso, é uma questão de sobrevivência. Ou o estado decide pelo decrescimento sereno agora, ou a física e a China decidirão no caos.
O Brasil se olha no espelho de Mato Grosso
Mato Grosso concentra três biomas e três grandes bacias hidrográficas. Responde por 30% da soja mundial, 70% do algodão brasileiro e possui o maior rebanho bovino do país. O que acontece aqui define se o Brasil tem um projeto de potência ambiental ou um atestado de deserto.
O país detém 12% da água doce do mundo e 20% da biodiversidade do planeta. Isso é estoque de baixa entropia e poder geopolítico. Mas o poder só existe se o estoque for preservado. Mato Grosso mostrou como dissipá-lo em meio século. Agora, a região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) copia o modelo. É a nova fronteira do Cerrado: desmata, planta soja, milho, algodão e cria boi. Só que começaram depois. Se Mato Grosso levou 50 anos para quebrar o ciclo da água, o Matopiba pode quebrá-lo em 25. É o espelho acelerado do colapso.
A crise climática não será resolvida com cada país queimando o seu quintal. Ou avançamos para uma cooperação que reduza a entropia global, ou enfrentaremos guerras por água e solo. Mato Grosso é o grande teste. Se o celeiro do país aceita decrescer para recompor o estoque, prova que o Brasil pode liderar o mundo. Se escolher exportar até a última gota e arroba, enterrará o país junto.
A física, a China e a ciência deram o veredito: Mato Grosso queimou a poupança. O Brasil decide agora se aprende com o estado ou se transforma em um Mato Grosso continental. A entropia não vota, mas ela derruba estados.
José Antônio Borges Pereira é Procurador de Justiça do Estado de Mato Grosso e titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

























