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ARTIGO

A representatividade cunhã-poranga

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No mês de junho os tambores ecoam pela ilha de Parintins, e as arquibancadas se dividem apaixonadamente entre azul e vermelho. Em festa, uma figura emerge do centro da arena revestida de penas, sementes, tintas e ancestralidade: a cunhã-poranga.

A personagem é aguardada com expectativa pelo público, sendo celebrada pela exuberância de sua dança e pela potência estética da sua presença. Todavia, ela não pode ser reduzida a um simples símbolo de beleza feminina, ignorando a profundidade histórica, cultural e política que sua imagem passou a representar.

A palavra “cunhã”, de origem tupi, significa mulher. E “poranga” remete àquilo que é belo, admirável ou formoso. Mulher bonita, como tradução literal, é insuficiente diante da complexidade que a personagem adquiriu no imaginário amazônico contemporâneo. Ela é a síntese de um território, a corporificação de memórias indígenas e a manifestação artística de uma identidade amazônica frequentemente invisibilizada pelos centros hegemônicos de produção cultural do país.

Durante séculos, os povos indígenas foram descritos por viajantes europeus sob o olhar do exotismo. As mulheres indígenas, em especial, foram frequentemente transformadas em objetos de contemplação, ora romantizadas como figuras de pureza paradisíaca, ora submetidas a narrativas coloniais que as desumanizavam. O Brasil construiu parte de sua identidade nacional apoiado em representações idealizadas da indígena, desde a Iracema de José de Alencar até demais alegorias.

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Embora a cunhã-poranga dialogue com imagens tradicionais das mulheres indígenas, surge no universo do Festival Folclórico de Parintins como uma personagem de protagonismo absoluto. É a própria guerreira! Não se limita a adornar a narrativa, sendo peça central do espetáculo, responsável por transmitir força, altivez e domínio cênico.

Todavia, é preciso reconhecer que a personalidade está situada em uma zona de tensão permanente. Ao mesmo tempo em que exalta referências indígenas, se insere em um ambiente competitivo, midiático e comercial, no qual padrões contemporâneos de beleza exercem influência significativa. Assim, exige-se da cunhã-poranga mais do que dança: preparo físico, resistência e corpo moldado por expectativas sociais.

Seria ingenuidade ignorar que o espetáculo folclórico está submetido às dinâmicas do mercado cultural, da audiência televisiva e das redes sociais. Por outro lado, seria igualmente injusto desconsiderar o esforço de inúmeras artistas que transformaram o posto de cunhã-poranga em espaço de afirmação identitária e de visibilidade para causas indígenas.

Nas últimas décadas, lideranças indígenas femininas conquistaram voz pública em diversas frentes de atuação, denunciando invasões territoriais, queimadas, garimpo ilegal e violência contra comunidades tradicionais. A presença dessas mulheres na política, na universidade, nas organizações ambientais e nos movimentos sociais demonstra que a resistência indígena possui também um rosto feminino.

A cunhã-poranga tem assumido um papel pedagógico. Sua dança torna-se narrativa. Seus adornos contam histórias. Seus movimentos evocam rituais ancestrais. Sua presença em cena desafia uma visão limitada da Amazônia como espaço vazio ou simples reserva de recursos naturais.

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Elas são inspiradas na ancestralidade e ocupam o centro do espetáculo e da multidão. Em um país marcado pelo apagamento histórico dos povos originários, esse gesto possui dimensão política.

É contraditório aplaudir a representação artística da mulher indígena, enquanto persistem elevados índices de mortalidade materna em aldeias, dificuldades de acesso à saúde, ausência de saneamento básico e ameaças constantes aos territórios tradicionais.

A celebração estética precisa ser acompanhada de compromisso ético. A beleza, para muitos povos originários, jamais esteve dissociada da coletividade, da memória e da relação harmoniosa com a natureza. Ser bela também significa carregar consigo a dignidade de um povo, preservando tradições e mantendo vivo um patrimônio imaterial construído ao longo de séculos.

Que saibamos enxergar para além das penas coloridas e dos movimentos coreografados a mulher amazônica em toda a sua complexidade e resistência.

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online

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