Por que a valorização das terras rurais vai muito além da produtividade agrícola
No artigo anterior, defendi que Mato Grosso continuará sendo um dos principais destinos de investimentos do agronegócio brasileiro na próxima década. Essa conclusão não decorre apenas da liderança do Estado na produção de alimentos, mas da combinação entre produtividade, segurança jurídica, infraestrutura em expansão e crescente capacidade de agregar valor à produção.
Ao aprofundarmos essa análise, percebemos que algumas regiões concentram um conjunto de fatores capazes de impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento econômico. Entre elas, o Vale do Araguaia desponta como uma das áreas mais promissoras do país.
Durante muitos anos, o valor de uma propriedade rural era determinado principalmente pela fertilidade do solo, pela disponibilidade de água, pela localização e pela capacidade produtiva da terra.
Essa lógica continua importante, mas já não explica sozinha a valorização patrimonial observada nas regiões mais dinâmicas do agronegócio brasileiro.
A valorização das terras rurais deixou de ser explicada apenas pela expansão da produção agrícola. Hoje, ela é impulsionada pela formação de um ecossistema econômico integrado, no qual produção, pecuária, infraestrutura, agroindustrialização, logística e agregação de valor atuam de forma complementar, transformando a terra em um ativo estratégico de longo prazo.
Essa é, na minha avaliação, a principal transformação econômica em curso no agronegócio mato-grossense. Quando falo em “ecossistema integrado”, não me refiro a um conceito teórico, mas a uma realidade observada na prática, junto a produtores, investidores e gestores públicos.
A terra que ontem era avaliada apenas pelo que produzia hoje passa a ser avaliada pelo que pode se tornar. Essa mudança de perspectiva separa investidores que enxergam o futuro daqueles que ainda olham para o passado. O agronegócio representa aproximadamente um quarto do Produto Interno Bruto brasileiro e segue como um dos principais motores da economia nacional.
Nesse cenário, Mato Grosso ocupa posição de liderança. O Estado responde por cerca de 15% do Valor Bruto da Produção Agropecuária do Brasil, com aproximadamente R$ 206 bilhões, lidera a produção nacional de soja e milho e possui o maior rebanho bovino do país, com mais de 31 milhões de cabeças.
Esses números demonstram a força da produção. Contudo, a transformação mais relevante está no modelo econômico. Durante décadas, Mato Grosso exportou predominantemente commodities. Hoje, vive uma nova fase baseada na agroindustrialização.
O Estado concentra cerca de 70% da produção brasileira de etanol de milho, com processamento de aproximadamente 13,9 milhões de toneladas de milho, produção superior a 5,6 bilhões de litros de etanol e geração de cerca de 2,7 milhões de toneladas de DDGS.
Essa cadeia movimenta mais de 147 mil empregos diretos, indiretos e induzidos, além de atrair investimentos bilionários e ampliar a arrecadação estadual. O impacto estrutural é ainda mais relevante: o milho deixa de ser exportado como commodity bruta e passa a ser industrializado dentro do próprio Estado.
Uma tonelada de milho processada para produção de etanol gera, em média, 450 litros de etanol, 212 kg de DDGS (coproduto utilizado na alimentação animal) e 19 kg de óleo de milho. Esse “triple effect” — combustível, ração e óleo — transforma a cadeia do milho em um dos vetores mais completos de agregação de valor do agronegócio brasileiro.
Esse movimento já alcança o Vale do Araguaia.
A expansão agrícola, o fortalecimento da pecuária, a instalação de agroindústrias em municípios como Canarana e Porto Alegre do Norte, os investimentos previstos para Querência e a evolução da infraestrutura regional demonstram que a região passa a integrar a nova geografia econômica do agronegócio brasileiro. Projetos estruturantes como a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO), a pavimentação da BR-158 — incluindo o Contorno Leste licenciado pelo Ibama e executado pelo DNIT — e os investimentos em armazenagem e energia ampliam a competitividade regional.
A produção agropecuária brasileira deve superar 353 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/2026. No entanto, a capacidade de armazenagem atende apenas cerca de 61,7% da produção, gerando um déficit superior a 134 milhões de toneladas.
Em Mato Grosso, a capacidade de armazenagem cobre pouco mais de 50% da produção estadual. Esse desequilíbrio pressiona a logística, aumenta custos e reduz eficiência.
Por isso, infraestrutura deixou de ser suporte e passou a ser fator central de competitividade. A Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO) já apresenta 55,38% de avanço físico, com investimentos estimados em R$ 10,7 bilhões.
Ao conectar o Centro-Oeste ao Porto Sul, em Ilhéus (BA), a ferrovia reduzirá custos logísticos e criará uma nova rota de escoamento para a produção do Vale do Araguaia. O impacto será estrutural, comparável ao da BR-163 em seu ciclo de transformação.
O trecho entre Água Boa (MT) e Cocalinho (MT) ainda enfrenta desafios de licenciamento ambiental e diálogo com comunidades indígenas. São gargalos reais, mas que não inviabilizam o projeto — apenas exigem gestão, diálogo e visão de longo prazo.
As grandes oportunidades surgem quando as transformações econômicas ainda estão em curso. Na avaliação deste artigo, o Vale do Araguaia vive exatamente esse momento. Mais do que uma região produtora de grãos e carne, consolida-se como um polo de desenvolvimento baseado na integração entre produção, agroindustrialização, infraestrutura, logística e inovação.
A história econômica demonstra que as regiões que mais se valorizam não são necessariamente as que produzem mais, mas aquelas que conseguem transformar produção em desenvolvimento, infraestrutura em competitividade e investimentos em prosperidade de longo prazo. Compreender essa dinâmica é compreender o futuro do agronegócio brasileiro. Mato Grosso e o Vale do Araguaia reúnem, hoje, os fundamentos para serem protagonistas desse futuro.
Fontes e Referências
Conab – Companhia Nacional de Abastecimento
IMEA – Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
MAPA – Ministério da Agricultura e Pecuária
CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil
ESALQ/USP – ESALQ-LOG
SEFAZ-MT – Secretaria de Fazenda de Mato Grosso
SEDEC-MT – Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso
Governo do Estado de Mato Grosso
Stéphano Benevides do Carmo – Empresário – Ex-Secretário Adjunto de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de
Mato Grosso
























