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Copa e ditaduras

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Logo mais, no início da tarde daqui de Cuiabá, o Brasil enfrenta o Japão nesta nova fase da copa anglo-franco-latina, a 16ava, inaugurada pela FIFA com inclusão de novas 16 seleções num torneio, cuja primeira edição contou com 13, depois aumentada para 16, 24 e 32, até chegar às 48 atuais. Pelo lado brasileiro, o ceticismo parece ser dominante, talvez pela síndrome do gato escaldado. Desde 2002, ano do penta, a canarinha retorna nas quartas de final. Foi assim em 2006 na Alemanha, 2010 na África do Sul, 2018 na Rússia e 2022 na Catar. A exceção foi em 2014, aqui no Brasil, quando caiu nas semifinais de forma vexaminosa. O pé atrás, portanto, é natural.

Esta é a 15ª copa do mundo com transmissão ao vivo para o Brasil. Me lembro da primeira, em 1970, quando conquistamos para sempre a Jules Rimet, roubada e derretida 13 anos depois. Tinha 16 anos, morava há dois anos em Juiz de Fora, trabalhava, de dia, como office-boy e, de noite, cursava o 1º ano de Técnico em Contabilidade. Logo no primeiro jogo, contra a Tchecoslováquia, vi uma multidão comemorar a vitória nas ruas centrais da cidade. Nunca tinha visto aquilo. A euforia tomou conta de todos.

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Tudo estaria bem, hoje constato, se toda aquela euforia não contrastasse com as primeiras páginas dos jornais expostos nas bancas, com listas de “terroristas” procurados ou notícias sobre morte de “subversivos” em “confronto” com a polícia. Enquanto Pelé, ao lado de Tostão, Gerson, Rivelino e Cia, dava dribles desconcertantes, a exemplo do aplicado no goleiro uruguaio (Ladislau) Mazurkiewicz, em que o gol acabou não saindo, a televisão noticiava o sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, depois trocado por 40 presos políticos, entre eles Carlos Minc, Franklin Martins (ambos bastante atuantes, como ministros, no segundo mandato de Lula) e o juizforano Fernando Gabeira (com quatro mandatos como deputado federal pelo Rio de Janeiro e atualmente comentarista da Globo News).

Em 1974, mesmo com o período dos anos de chumbo, iniciado em 1968 com a edição do AI-5, já se esgotando, os militares ainda detinham influência sobre a seleção. Assim como (João) Saldanha na copa anterior, defenestrado do comando do escrete por (Emilio Garrastazu) Médici por não aceitar em convocar seu indicado Dadá Maravilha, desta vez o vilão foi Afonsinho, atualmente articulista de Carta Capital. Por se declarar contra a ditadura, não foi convocado. Mas antes disso, em 1970, havia sido afastado do Botafogo, por Zagallo, pelo mesmo motivo.

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Em 1978, dizem que a ditadura, agora a argentina, ajudou sua seleção de futebol. A nossa, comandada pelo capitão Claudio Coutinho, que gostava de termos como overlapping e ponto futuro, ficou em terceiro lugar, mas foi por aqui considerada “campeã moral”. Verdade seja dita: perdeu a vaga na final por causa do saldo de gols. Numa das goleadas mais controvertidas e esquisitas da história do futebol, os argentinos venceram os peruanos por 6X0.

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