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Estudo analisa terra indígena preservada em meio à expansão da soja em MT

Pesquisa analisou quase quatro décadas de mudanças no uso do solo e conclui que Terra Indígena Pimentel Barbosa manteve estabilidade ambiental mesmo cercada pela expansão da soja e da pecuária.

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A expansão da fronteira agrícola no nordeste de Mato Grosso transformou profundamente a paisagem nas últimas quatro décadas, mas a Terra Indígena Pimentel Barbosa, habitada pelo povo Xavante, permaneceu relativamente preservada em meio ao avanço da soja e da pecuária. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Geocarto International, que identificou a área como uma espécie de “ilha territorial” de conservação em uma região dominada pelo agronegócio.

A pesquisa, conduzida por pesquisadores da Unicamp, analisou dados anuais do MapBiomas entre 1985 e 2024. Os cientistas compararam a evolução do uso da terra dentro da Terra Indígena Pimentel Barbosa, localizada entre Canarana e Ribeirão Cascalheira, com uma faixa de 50 quilômetros ao seu redor, utilizando técnicas estatísticas para identificar padrões ao longo do tempo.

Os resultados mostram trajetórias opostas. Enquanto o entorno passou por uma conversão acelerada de vegetação nativa para sistemas agroindustriais, sobretudo com a expansão da soja, pastagens e áreas urbanizadas, o interior da terra indígena manteve predominância de formações naturais, como cerrado, florestas, áreas úmidas e corpos d’água, registrando apenas pequenas oscilações ao longo do período analisado.

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Comparação entre 1985 e 2024 mostra que a Terra Indígena Pimentel Barbosa preservou sua cobertura vegetal, enquanto a área ao redor passou por intensa conversão para agricultura e pecuária (Imagem: Autores do estudo com base em mapas do Mapbiomas)

Os pesquisadores dividiram a evolução da paisagem em três fases. A primeira, entre 1985 e 1995, foi marcada pelo predomínio da vegetação nativa. A segunda, de 1996 a 2012, registrou forte expansão das pastagens. Já entre 2013 e 2024 ocorreu a consolidação da fronteira agroindustrial, impulsionada principalmente pelo crescimento da soja nas áreas vizinhas à terra indígena.

Segundo os autores, embora essas três fases também sejam observadas dentro da Terra Indígena Pimentel Barbosa, sua intensidade é muito menor, evidenciando que o território indígena seguiu uma trajetória de estabilidade, ao contrário da área ao redor.

Para explicar essa diferença, o estudo utiliza o conceito de “territorial islanding”,  insularização territorial. A expressão descreve territórios que permanecem ecologicamente preservados mesmo estando cercados por paisagens profundamente modificadas pela atividade econômica. Nesse caso, a manutenção da vegetação estaria diretamente relacionada aos sistemas de governança indígena e às formas tradicionais de ocupação e manejo do território.

Cultura e preservação

(Imagem: Documentário Öwawë pá hã A’uwe Tsiri – Rio das Mortes)

Os autores argumentam que a demarcação das terras indígenas, embora seja fundamental, não explica sozinha a preservação ambiental. Na avaliação deles, a continuidade das práticas culturais e dos mecanismos próprios de gestão territorial do povo A’uwe Xavante é o principal fator responsável pela estabilidade observada ao longo dos quase 40 anos analisados.

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O estudo também relaciona o avanço da fronteira agrícola a impactos ambientais mais amplos. A substituição da vegetação nativa por monoculturas e pastagens reduz a infiltração de água no solo, contribui para a retração de áreas úmidas, altera o regime de chuvas e pode comprometer, no longo prazo, a própria produtividade agrícola da região. Os pesquisadores afirmam que a conservação dessas áreas tem papel importante para a estabilidade climática e hidrológica do Cerrado.

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