Existe uma violência que, por muito tempo, foi tratada quase como parte da rotina de quem trabalha na saúde. É o xingamento durante o plantão, a ameaça porque o atendimento demorou, a intimidação, a invasão de uma sala e, nos casos mais graves, a agressão física.
Quem trabalha em hospital, UPA, policlínica ou unidade básica sabe exatamente do que estou falando.
Sou enfermeira. Vivi a realidade dos plantões e, ao longo dos últimos anos, conheci unidades de saúde em diferentes regiões de Mato Grosso, conversei com profissionais e ouvi relatos de situações que nunca deveriam ser consideradas normais.
A frustração de quem espera atendimento precisa ser ouvida. A população tem todo o direito de cobrar quando faltam profissionais, medicamentos, exames e leitos ou quando o serviço demora além do razoável. O que não podemos admitir é que problemas do sistema sejam descarregados sobre o trabalhador que está na linha de frente tentando manter o atendimento funcionando.
Os números ajudam a dimensionar o problema. A Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, realizada pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), mostrou que, em Mato Grosso, 23,1% dos profissionais pesquisados afirmaram sofrer violência no ambiente de trabalho e outros 11,1% disseram que isso ocorria “às vezes”. Entre as modalidades relatadas, a violência psicológica predominava.
Embora o levantamento retrate uma realidade pesquisada anos atrás, episódios recentes mostram que o problema permanece. Somente em 2026, o Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT) voltou a cobrar providências depois de agressões envolvendo profissionais em unidades de Várzea Grande e Cuiabá.
Até quando vamos esperar o próximo caso?
Uma agressão não termina quando acaba o plantão. Algumas marcas são visíveis, outras acompanham o profissional por muito mais tempo: medo de voltar ao trabalho, ansiedade, insegurança, perda da satisfação profissional e sensação de abandono.
Estudos também vêm demonstrando que a violência ocupacional está associada a consequências para a saúde mental e para a própria atividade profissional. Pesquisa publicada em 2026, envolvendo profissionais de Enfermagem, identificou relatos de violência no trabalho em quase metade dos participantes, com predominância das agressões verbais e repercussões como estresse e perda da satisfação profissional.
Não podemos exigir cuidado humanizado de profissionais que trabalham permanentemente com medo.
E existe outro aspecto que precisa ser compreendido: quando um trabalhador da saúde sofre violência, a consequência não fica restrita a ele. Ela chega ao paciente.
Pesquisas brasileiras já identificaram relação entre a violência sofrida por profissionais e aspectos do cuidado, como apoio, respeito, tempo dedicado ao paciente e comportamentos relacionados à segurança. Quando um enfermeiro entra no plantão com medo, todos perdem. Quando uma técnica de Enfermagem adoece e precisa se afastar, uma equipe que muitas vezes já trabalha no limite fica ainda mais sobrecarregada. Quando profissionais deixam determinados serviços por insegurança, a população também sofre as consequências.
Cria-se um ciclo perverso: o paciente enfrenta as deficiências da rede, transforma sua indignação em agressão contra quem está na ponta, o profissional adoece ou se afasta e o sistema fica ainda mais fragilizado.
Quebrar esse ciclo exige mais do que notas de repúdio. É necessário melhorar a segurança das unidades, estabelecer protocolos para situações de ameaça e agressão, garantir o registro das ocorrências, oferecer apoio psicológico e jurídico às vítimas e responsabilizar quem ultrapassa os limites da cobrança legítima e pratica violência.
Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar fatores que frequentemente alimentam situações de conflito: superlotação, demora excessiva, falta de profissionais e de informações para pacientes e familiares. Nada disso justifica uma agressão, mas melhorar as condições de atendimento também faz parte da prevenção.
O país começa a avançar na discussão sobre uma proteção legal maior aos trabalhadores da saúde, mas nenhuma legislação, isoladamente, resolverá o problema. É necessária uma mudança institucional e também cultural.
Durante minha experiência na Enfermagem e no Coren-MT, aprendi que proteger quem trabalha na saúde não significa colocar profissionais e pacientes em lados opostos.
Estamos do mesmo lado.
O paciente merece entrar em uma unidade e encontrar um atendimento digno. O profissional merece entrar no mesmo lugar sabendo que poderá exercer seu trabalho com respeito e segurança.
Uma saúde verdadeiramente humana precisa cuidar dos dois.
Porque ferir quem cuida é ferir a saúde de todos.
Bruna Santiago é a presidente licenciada do Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT)

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online



























