Há uma pergunta que deveria acompanhar cada eleição em Mato Grosso: quanto dinheiro tem quem pretende governar a vida de quem quase não tem dinheiro nenhum? Não porque ser rico seja crime, nem porque patrimônio seja sinônimo de incompetência, corrupção ou falta de caráter. A questão é outra: o que acontece quando a distância econômica entre governantes e governados se transforma também em distância social, cultural e política?
Mato Grosso oferece um laboratório particularmente interessante dessa experiência. De um lado, estão os milionários da política, donos de patrimônios que fazem o trabalhador comum olhar para uma declaração de bens como quem contempla uma exposição de arte contemporânea: sabe que existe, mas nem sempre compreende como aquilo chegou até ali. De outro, está o cidadão que enfrenta ônibus lotado, ruas esburacadas, postos de saúde com atendimento insuficiente, escolas com problemas, saneamento precário e cidades que parecem estar permanentemente “quase chegando” ao futuro.
É nesse abismo que a democracia mato-grossense construiu sua própria versão contemporânea da Casa-Grande e Senzala. Gilberto Freyre analisou a formação social brasileira a partir da relação entre esses dois espaços. Décadas depois, Mato Grosso parece ter atualizado a metáfora. A Casa-Grande agora tem condomínio fechado, segurança privada, SUV blindada, escritório climatizado e, em alguns casos, aeronave. A Senzala ganhou outro nome: periferia. E os antigos senhores de engenho foram substituídos por grupos políticos, famílias tradicionais, empresários, caciques eleitorais e sobrenomes que atravessam gerações ocupando diferentes espaços de poder.
Isso não significa afirmar que todas essas famílias sejam iguais, que seus integrantes pensem da mesma maneira ou que tenham cometido irregularidades. Seria uma simplificação irresponsável. A questão sociologicamente relevante é outra: por que determinados grupos conseguem reproduzir sua presença no poder enquanto tantas cidades continuam incapazes de oferecer serviços públicos elementares?
A velha aristocracia brasileira perdeu os títulos, mas não necessariamente perdeu os privilégios. Hoje ninguém precisa ser chamado de barão. Basta possuir sobrenome conhecido, patrimônio, relações, estrutura partidária, acesso aos centros de decisão e uma máquina eleitoral funcionando. É uma espécie de aristocracia republicana: precisa pedir voto ao povo, mas não necessariamente precisa viver como o povo. O sobrenome ajuda. O patrimônio ajuda. A rede de relações ajuda. A estrutura partidária ajuda. E ajuda, sobretudo, o fato de que determinadas famílias nunca deixam de estar próximas da sala onde as decisões são tomadas.
Enquanto isso, o cidadão da periferia continua tentando entrar pela porta dos fundos do Estado.
Mato Grosso não viveu o apartheid sul-africano e não possui um sistema legal formal de segregação racial como aquele que vigorou na África do Sul. Mas existe uma forma metafórica de apartheid social brasileiro: uma separação silenciosa entre aqueles que podem escolher onde morar, onde estudar, onde se tratar, como se deslocar e como se proteger e aqueles que dependem diretamente da qualidade dos serviços públicos. É uma segregação sem placas. O preço do condomínio faz a seleção. A escola particular faz a seleção. O plano de saúde, o carro, a segurança privada e o próprio bairro também fazem.
O dinheiro constrói muros que não precisam de tijolos.
Temos, então, duas cidades. Uma cidade privada, na qual quem pode pagar compra alternativas para escapar das deficiências do Estado. E outra cidade pública, onde quem não pode pagar espera que o Estado funcione. Poucas coisas expressam melhor essa divisão do que a novela do transporte coletivo. Mato Grosso passou anos discutindo o VLT, sua implantação, seus custos e seus problemas, até chegar ao BRT. Para o trabalhador, entretanto, a disputa entre modais sempre foi muito menos sofisticada. O cidadão não quer saber qual solução venceu a batalha política. Quer saber se o ônibus passa, se passa no horário, se há espaço, se a viagem é segura, se existe integração e se conseguirá chegar ao trabalho sem perder horas de sua vida no deslocamento.
A elite pode discutir VLT e BRT em uma sala refrigerada. O trabalhador discute outra coisa: que horas precisa sair de casa.
Talvez essa seja uma das diferenças fundamentais entre governar uma cidade e viver nela.
Há cidades que parecem existir permanentemente em uma sala de espera. Aguarde o asfalto. Aguarde o ônibus. Aguarde a consulta. Aguarde a escola. Aguarde a água. Aguarde o saneamento. Aguarde a obra. Aguarde o próximo prefeito, o próximo governador, o próximo plano e a próxima promessa. Nada talvez seja mais cruel do que obrigar uma população a esperar aquilo que deveria ser obrigação do Estado.
Quando um candidato declara dezenas ou centenas de milhões em patrimônio, não existe motivo automático para indignação. O problema é o que esses números permitem perguntar. Como alguém que acumulou uma fortuna desse tamanho experimenta a cidade? Não se trata de julgar caráter, mas de reconhecer experiências sociais diferentes. Uma pessoa milionária pode conhecer profundamente os problemas dos pobres, possuir sensibilidade social e defender políticas públicas extraordinárias. Ainda assim, não é possível fingir que viver com milhões é experimentar o mundo da mesma maneira que viver com um salário mínimo.
Quem tem dinheiro compra distância: distância do trânsito, da violência, do transporte público, das filas, dos hospitais públicos, da escola pública e, muitas vezes, da própria periferia. O dinheiro permite escapar de determinados problemas que continuam sendo enfrentados diariamente por quem não possui os mesmos recursos.
Talvez o símbolo mais perfeito dessa estrutura seja um elevador. Não o elevador físico, mas o elevador social. Ele sobe até um andar onde já não se escuta o barulho da rua. Lá embaixo estão o vendedor ambulante, o motoboy, a diarista, o trabalhador da construção, a mãe que pega dois ônibus, o jovem procurando emprego e o aposentado esperando atendimento. Lá em cima estão as reuniões, os gabinetes, empresários, assessores, pesquisas, estratégias e discursos. De vez em quando, alguém desce para pedir voto, tirar uma fotografia, abraçar alguém, comer um pastel e afirmar que conhece as dificuldades do povo. Depois, sobe novamente.
É a política panorâmica: olha-se o povo de cima.
O problema mais profundo, portanto, não é apenas a desigualdade de renda. É a desigualdade de acesso. Quem pode pagar compra segurança; quem não pode, chama a polícia. Quem pode pagar compra educação; quem não pode, depende da escola pública. Quem pode pagar compra saúde; quem não pode, enfrenta a fila. Quem pode pagar compra mobilidade; quem não pode, espera o ônibus. Quem pode pagar compra determinadas formas de saneamento e infraestrutura; quem não pode, espera a obra.
É assim que nasce uma sociedade partida, não necessariamente pela lei, mas pelo dinheiro.
Por isso, a qualidade dos serviços públicos deveria ser um dos principais indicadores de uma sociedade democrática. Uma democracia não deveria ser medida pela quantidade de milionários que consegue produzir, mas pela qualidade de vida que consegue oferecer a quem não é milionário.
Talvez seja necessário fazer uma pergunta incômoda aos candidatos milionários: se o Estado que pretendem governar funciona tão bem, por que tanta gente precisa pagar por fora para escapar dele? E outra pergunta talvez ainda mais desconfortável: aceitariam viver durante um ano exatamente com os serviços públicos disponíveis para o cidadão mais pobre de Várzea Grande? Sem plano de saúde, escola particular, carro particular, segurança privada, condomínio fechado, atalhos ou ligações para alguém poderoso. Apenas o Estado que prometem administrar.
Um ano. Uma família. Um bairro. Um ônibus. Uma UBS. Uma escola. Uma fila. Uma senha. Um protocolo. Uma rua alagada. E nenhuma possibilidade de “dar um jeito”.
É possível que a próxima eleição seja apresentada como uma disputa entre nomes, grupos, partidos, direita e esquerda, continuidade e mudança. Mas talvez a disputa mais importante seja outra: Casa-Grande contra Senzala. Não no sentido literal da escravidão, mas no sentido de uma sociedade que ainda convive com enormes distâncias entre quem decide e quem suporta as consequências das decisões; entre quem pode fugir das deficiências do Estado e quem depende dele; entre quem escolhe o bairro e quem aceita o bairro possível; entre quem compra tempo e quem perde duas horas por dia no transporte; entre quem escolhe o hospital e quem escolhe a senha; entre quem vê a cidade da cobertura e quem vê a cidade pela janela do ônibus.
Mato Grosso pode continuar produzindo milionários, grandes empresários, famílias políticas, fortunas e grandes obras. Pode continuar trocando VLT por BRT, BRT por outra promessa e promessa por outra licitação. Mas existe algo que não pode continuar produzindo: cidadãos de segunda classe.
Várzea Grande não precisa de piedade. Precisa de Estado. Não precisa de fotografia de campanha. Precisa de serviço público. Não precisa apenas de discurso sobre futuro. Precisa de presente. E não precisa que os poderosos desçam de suas coberturas para visitar a periferia apenas durante a campanha. Precisa que a periferia deixe de ser tratada como o lugar para onde os poderosos descem quando precisam de votos.
Porque democracia não é o pobre entrar na Casa-Grande durante a campanha. Democracia é fazer com que a Casa-Grande deixe de decidir sozinha o destino da Senzala.
Talvez essa seja, afinal, a pergunta que os milhões declarados no patrimônio não conseguem responder: de que lado do muro está o Mato Grosso que cada candidato pretende governar?
Joel Mesquita é sociólogo

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online


























